Afresco vívido da decomposição da civilização romana, este filme, que em boa hora volta à tela grande com toda a sua intensa beleza visual restaurada, é também uma espécie de preparação para outro que Fellini faria três anos depois - Roma de Fellini. Sem ter sido provavelmente concebidos com esta intenção, as duas obras funcionam como as faces de uma mesma moeda, a Roma que passa pelo filtro dos olhos de Fellini e devolve à platéia uma imagem caleidoscópica da origem de toda a cultura ocidental.Satyricon apresenta os antecedentes de Roma, revelando com um frescor intenso o cotidiano da grande civilização que sucumbiu aos próprios vícios. Mas não é feito apenas de vícios o panorama descortinado por Encolpio (o inglês Martin Potter), o viajante eleito como guia desta viagem imaginada por Petrônio em seu romance homônimo, escrito nos tempos de Nero, e traduzido por Fellini como um sonho cinematográfico de primeira grandeza. Além da conhecida desmesura do diretor italiano para fabular suas histórias, ele contou com um aparato proporcional a essa grandeza - empregou mais de 250 atores e extras, com a máxima diversidade de biotipos, fez construir cerca de 90 cenários, na produção mais cara feita nos estúdios da Cinecittà desde Ben-Hur.Nada disso era para impressionar, pois servem sobremaneira à narrativa a profusão de sets, figurinos, objetos de cena, navios, máscaras, animais. Tudo isto compõe um clima de realidade, de túnel do tempo, onde o espectador sente-se transportado, como se vivesse nos dias de Petrônio. É o estudante Encolpio, em todo caso, quem vai abrir o caminho, incendiado pela paixão contrariada. Ascilto (o americano Hiram Keller), parceiro de Encolpio, traiu-o, levando consigo seu belo escravo adolescente, Giton (Max Borne). Não contente, Ascilto vende o rapazinho ao ator Vernacchio (Fanfulla), que o coloca entre as múltiplas atrações de seu teatro de variedades - onde um dos espetáculos consiste da mutilação de prisioneiros.O impacto visual do filme vem do excesso, de uma carnalidade ostensiva que se exprime tanto nos corpos entregues aos jogos sexuais quanto à gula e à crueldade física. Não há psicologia a esperar destes personagens levados pelos instintos e pela necessidade, vivendo o momento presente - um detalhe que com certeza fascina Fellini a segui-los, como fascinou antes ao escritor Petrônio. Estamos falando aqui de uma civilização pagã, pré-cristianismo.Recuperado Giton, Encolpio o verá novamente partir com Ascilto, desta vez por sua livre escolha. O estudante sobreviverá a um terremoto e encontrará um novo e providencial amigo no velho poeta Eumolpo (Salvo Randone). Verdadeiro filósofo, o homem despertará em Encolpio as pistas de uma sabedoria experimentada, aonde não faltam pitadas de melancolia e lucidez. Eumolpo sabe que a verdadeira arte não costuma andar de mãos dadas com a riqueza - mas que a recíproca também é verdadeira. E dá ao estudante um exemplo vivo desta lição ao conduzi-lo a um banquete na casa de um rico homem, que não se conforma somente com seu poder, mas insiste em cometer versos da pior espécie, ou plagiá-los dos verdadeiros poetas.A aventura de Encolpio prossegue no navio de Lica (Alain Cuny), onde o jovem é aprisionado como escravo, junto com Ascilto e Giton, mas livrando-se graças à paixão que desperta no imperador de fato, já que o jovem César não tem ainda voz ativa nos seus domínios. Nova virada da sorte coloca na estrada novamente Encolpo e Ascilto, vivendo aventuras na casa de patrícios caídos em desgraça, no enfrentamento com um Minotauro de fantasia e na viagem de Encolpo para recuperar sua potência sexual no esconderijo da feiticeira Enothéa.Ao final da viagem, sente-se que a história está prestes a recomeçar. Se Encolpio e seus contemporâneos são hoje apenas figuras representadas em afrescos, sua trajetória humana continua em nós todos, pelo poder do encantamento de artistas como Petrônio e Fellini.
