04/06/2026
Fábula Drama

Satyricon de Fellini

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Afresco vívido da decomposição da civilização romana, este filme, que em boa hora volta à tela grande com toda a sua intensa beleza visual restaurada, é também uma espécie de preparação para outro que Fellini faria três anos depois - Roma de Fellini. Sem ter sido provavelmente concebidos com esta intenção, as duas obras funcionam como as faces de uma mesma moeda, a Roma que passa pelo filtro dos olhos de Fellini e devolve à platéia uma imagem caleidoscópica da origem de toda a cultura ocidental.

Satyricon apresenta os antecedentes de Roma, revelando com um frescor intenso o cotidiano da grande civilização que sucumbiu aos próprios vícios. Mas não é feito apenas de vícios o panorama descortinado por Encolpio (o inglês Martin Potter), o viajante eleito como guia desta viagem imaginada por Petrônio em seu romance homônimo, escrito nos tempos de Nero, e traduzido por Fellini como um sonho cinematográfico de primeira grandeza. Além da conhecida desmesura do diretor italiano para fabular suas histórias, ele contou com um aparato proporcional a essa grandeza - empregou mais de 250 atores e extras, com a máxima diversidade de biotipos, fez construir cerca de 90 cenários, na produção mais cara feita nos estúdios da Cinecittà desde Ben-Hur.

Nada disso era para impressionar, pois servem sobremaneira à narrativa a profusão de sets, figurinos, objetos de cena, navios, máscaras, animais. Tudo isto compõe um clima de realidade, de túnel do tempo, onde o espectador sente-se transportado, como se vivesse nos dias de Petrônio. É o estudante Encolpio, em todo caso, quem vai abrir o caminho, incendiado pela paixão contrariada. Ascilto (o americano Hiram Keller), parceiro de Encolpio, traiu-o, levando consigo seu belo escravo adolescente, Giton (Max Borne). Não contente, Ascilto vende o rapazinho ao ator Vernacchio (Fanfulla), que o coloca entre as múltiplas atrações de seu teatro de variedades - onde um dos espetáculos consiste da mutilação de prisioneiros.

O impacto visual do filme vem do excesso, de uma carnalidade ostensiva que se exprime tanto nos corpos entregues aos jogos sexuais quanto à gula e à crueldade física. Não há psicologia a esperar destes personagens levados pelos instintos e pela necessidade, vivendo o momento presente - um detalhe que com certeza fascina Fellini a segui-los, como fascinou antes ao escritor Petrônio. Estamos falando aqui de uma civilização pagã, pré-cristianismo.

Recuperado Giton, Encolpio o verá novamente partir com Ascilto, desta vez por sua livre escolha. O estudante sobreviverá a um terremoto e encontrará um novo e providencial amigo no velho poeta Eumolpo (Salvo Randone). Verdadeiro filósofo, o homem despertará em Encolpio as pistas de uma sabedoria experimentada, aonde não faltam pitadas de melancolia e lucidez. Eumolpo sabe que a verdadeira arte não costuma andar de mãos dadas com a riqueza - mas que a recíproca também é verdadeira. E dá ao estudante um exemplo vivo desta lição ao conduzi-lo a um banquete na casa de um rico homem, que não se conforma somente com seu poder, mas insiste em cometer versos da pior espécie, ou plagiá-los dos verdadeiros poetas.

A aventura de Encolpio prossegue no navio de Lica (Alain Cuny), onde o jovem é aprisionado como escravo, junto com Ascilto e Giton, mas livrando-se graças à paixão que desperta no imperador de fato, já que o jovem César não tem ainda voz ativa nos seus domínios. Nova virada da sorte coloca na estrada novamente Encolpo e Ascilto, vivendo aventuras na casa de patrícios caídos em desgraça, no enfrentamento com um Minotauro de fantasia e na viagem de Encolpo para recuperar sua potência sexual no esconderijo da feiticeira Enothéa.

Ao final da viagem, sente-se que a história está prestes a recomeçar. Se Encolpio e seus contemporâneos são hoje apenas figuras representadas em afrescos, sua trajetória humana continua em nós todos, pelo poder do encantamento de artistas como Petrônio e Fellini.

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