A nova versão da peça de J.M. Barrie (1860-1937) - cuja estréia nos palcos completa 100 anos em 2004 - volta atrás no tempo e reencontra o básico da história que já rendeu um famosíssimo desenho animado da Disney (em 1953), um musical nos anos 60 e até mesmo uma seqüência imaginada por Steven Spielberg em Hook (1991), onde se ousa apresentar no que teria dado o menino-voador se tivesse optado por crescer: ou seja, transformar-se em Robin Williams, o que nem todo mundo aprovou.
Nesta que é a primeira versão live action, ou seja, com atores de carne e osso, da era sonora (houve uma outra em 1924), a volta às origens rende um filme muito mais interessante do que se poderia supor, capaz de lançar iscas atraentes tanto para platéias infantis como para os adultos. É o típico filme-diversão, para toda a família, que usa mas não abusa do que há de melhor dos efeitos especiais. Por conta disso, pela primeira vez se verá Peter Pan (o americano Jeremy Sumpter, de 14 anos) voar com um realismo nunca antes imaginado. Com a vantagem de que se trata de um menino real, não de uma animação, como a da Disney, que era até agora a referência maior do personagem para várias gerações nos últimos 50 anos.
Encontrar as bases da história, conduzi-la com equilíbrio entre fantasia, humor e gravidade foi a maior mágica desta versão, dirigida pelo australiano P. J. Hogan (de O Casamento de Meu Melhor Amigo). Gravidade sim, porque são profundas as questões que abalam o espírito do protagonista, de seus amigos, os Meninos Perdidos, de sua musa, Wendy (a surpreendente novata Rachel Hurd-Wood, resultado de uma busca mundial à intérprete ideal da personagem), bem como do vilão, o Capitão Gancho (Jason Isaacs). Há neles medos de toda ordem, o de crescer, da descoberta da sexualidade, da solidão, do abandono, do envelhecimento, da perda. E, voltando à história de J.M. Barrie, consegue-se encontrar o fio capaz de de situar cada uma destas tensões da vida de todo mundo juntamente com a paixão pela liberdade e a aventura que é a razão mesma de existir e de respirar de Peter Pan.
Por tudo isso, acompanha-se de coração aberto a fuga de Wendy e seus irmãos ( Harry Newell e Freddie Popplewell) pela janela aberta de seu quarto certa noite, levados pela mão de Peter e pela mágica do pó de perlimpimpim de Sininho (vivida pela francesa Ludivine Sagnier, que não diz palavra mas emite grunhidos e faz caretas de montão). Na Terra do Nunca, o reino de Peter Pan, os três garotos encontram todo tipo de aventura que só em livros puderam sonhar, mas também as intrigas do Gancho, cuja razão de viver é apenas vingar-se de Peter, que considera responsável pela perda de sua mão para um crocodilo. Criando um vívido retrato deste saboroso reino dos sonhos onde nunca se precisa ir à escola nem há pais nem professores em volta, o filme cria um poderoso paralelo para que as crianças definam o que falta ali: lar, família, a possibilidade de tornar-se adulto e também de amar, viver a sexualidade. Nunca antes este último dilema encontrou espaço nas versões da história do cinema, embora com uma inegável delicadeza e romantismo.
Valeu a pena a produtora Lucy Fisher ter esperado 20 anos para realizar a sua própria visão, com certeza fiel ao que o próprio autor dizia de sua história: "Peter Pan é para crianças e para todos aqueles que um dia foram crianças". Mais do que nunca, agora todo mundo pode acreditar mesmo em fadas.
