Quem viu e gostou de As Invasões Bárbaras, de Denys Arcand, não pode perder o relançamento em cópia nova de O Declínio do Império Americano, de 1986, que pode ser lido como uma espécie de prequel de As Invasões. Estão na tela os mesmos personagens, representando os mesmos papéis, só que 17 anos mais jovens e com uma carga mais leve sobre os ombros, ainda livres das muitas desilusões, principalmente políticas, que viriam a seguir. Revisto agora, depois do grande sucesso de crítica e público na época de seu lançamento, o filme ainda conserva o mesmo frescor das provocações e do cinismo que Arcand sabe tão bem exibir. Os dois filmes têm componentes autobiográficos admitidos por Arcand. "Falo de mim, das mulheres com quem vivi e dos amigos mais próximos", revelou na infelizmente curtíssima entrevista que concedeu a Silvana Arantes da Folha Ilustrada. Se em As Invasões Arcand fala das ilusões perdidas de uma geração hoje próxima dos 60 anos, que não conseguiu ver implantados com sucesso seus ideais políticos de esquerda, no filme de 1986 a preocupação maior é com a satisfação pessoal e principalmente sexual dessas mesmas pessoas. Quatro amigos estão reunidos na casa de campo de um deles na preparação de um almoço de fim de semana. Três são professores de história, todos quarentões, e discutem de forma cínica e bem-humorada suas conquistas sexuais, tecendo juízos sobre as mulheres com quem se relacionaram. Um deles é gay e, da mesma forma, lembra suas aventuras com outros homens, algumas perigosas com garotos de programa. O mais jovem, na faixa dos 20 anos, é um ouvinte privilegiado das conquistas alardeadas pelos professores. Rémy (Rémy Girard) é o único casado. Pierre (Pierre Curzi) é um solteirão que não quer nenhum relacionamento mais prolongado e sério e prefere sair com mulheres bem mais jovens, inclusive alunas, e Claude (Yves Jacques), o único homossexual, desenvolve uma doença não diagnosticada que o faz urinar sangue. O fantasma da Aids, recém-descoberta, paira sobre ele, que oculta seu problema dos amigos. Enquanto os homens preparam o almoço, a mulher de Rémy, Louise (Dorothée Berryman), se exercita na academia na companhia de Diana (Louise Portal), divorciada, a escritora Dominique (Dominique Michel) e a jovem Danielle (Geneviève Rioux), namorada de Pierre, estudante universitária e massagista numa sauna masculina (esta última habilidade não é de conhecimento das amigas). Elas também se divertem falando de seus relacionamentos sexuais e ironizando as fantasias masculinas. A escritora Dominique acaba de lançar um livro no qual identifica a exacerbada busca pela satisfação individual como responsável pela queda dos grandes impérios, como o americano. No final, todos se reúnem para o almoço na casa de Rémy onde as discussões continuam, mas tomarão um novo rumo com revelações que o professor gostaria que continuassem mantidas em segredo.
