06/06/2026

George Sluizer recria o universo peculiar de José Saramago

Holandês nascido por acaso em Paris, em 1932, o diretor George Sluizer é um homem acostumado a trafegar entre diferentes línguas e culturas. Seu filme mais recente, A Jangada de Pedra, é uma adaptação do livro homônimo do Prêmio Nobel José Saramago. Indiferente às pressões de produtores para que o filme fosse filmado em inglês, o cineasta insistiu que fosse falado em português e espanhol, para manter-se fiel à história de um grupo de cinco pessoas e um cão que vaga entre Portugal e Espanha, em meio a um acontecimento extraordinário: a Península Ibérica separou-se do resto do continente europeu e vaga pelo Oceano Atlântico, correndo o risco iminente de chocar-se com o Arquipélago de Açores. Trata-se do terceiro filme falado em português da carreira de Sluizer, que já filmou inclusive no Brasil, nos anos 70. Nesta entrevista exclusiva, no Rio, o diretor holandês comenta um incidente curioso no Brasil - onde ele ganhou "nacionalidade temporária", em 1972 -, sua aproximação do arredio escritor português para a adaptação de seu livro, o destino do filme inacabado com River Phoenix (Dark Blood) e as lembranças de sua passagem por Hollywood, onde seu filme mais famoso foi o suspense O Silêncio do Lago (93), refilmagem de uma história que ele já dirigira na Holanda.

Cineweb - Qual foi a primeira vez que o senhor visitou o Brasil?
George Sluizer - No final de 1969. Através de um amigo português tinha conhecido o livro de Odilo Costa Filho, A Faca e o Rio. Na verdade, é mais um poema do que um livro, tem apenas 18 páginas. Mas me senti atraído para filmá-lo. Então, encontrei Odilo em Paris e pedi sua autorização.

Cineweb - Como foi esse encontro?
Sluizer - Disse a Odilo que nunca tinha estado no Brasil e ele me respondeu: "Não me importo que você seja estrangeiro, contanto que você ame a história". Então, me convidou a conhecer o país. Levou-me à Bahia, onde conheci Jorge Amado. Depois fomos ao Piauí e ao Maranhão, onde José Sarney era o governador.

Cineweb - Quanto tempo o senhor ficou aqui?
Sluizer - Cinco semanas. Queria sentir um pouco do ambiente, aprender um pouco de português, sentir as pessoas. Quando comecei a filmar, acabei fazendo quatro documentários antes de A Faca e o Rio, no Maranhão e no Piauí.

Cineweb - Sobre o que tratavam esses documentários?
Sluizer - Sobre o carnaval em pequenos lugares e um de que gosto muito, sobre crianças que aprenderam a ler e alfabetizam os pais. Isso tudo antecipou o filme propriamente dito e me permitiu aprender mais sobre aquela região.

Cineweb - Quando o senhor finalmente filmou A Faca e o Rio?
Sluizer - Em 1971, fiz o filme com Ana Miranda, que agora é escritora. Naquela época, ela era pintora e atriz. Ela interpretava a jovem por quem um homem mais velho (Jofre Soares) se apaixona.

Cineweb - O filme foi feito em português?
Sluizer - Sim, apesar de que seu financiamento foi obtido todo na Holanda. Aqui não encontramos nenhum dinheiro. Mas era um filme com atores brasileiros, paisagens brasileiras, falado em português. De modo que isto gerou um movimento de intelectuais no Brasil, que começaram a protestar quando o filme começou a ser exibido em festivais internacionais como filme holandês.

Cineweb - Qual foi o resultado desse protesto?
Sluizer - O fato é que me tornaram "temporariamente brasileiro" para que o filme pudesse ser considerado nacional, oficialmente, e pudesse inclusive ser indicado ao Oscar. Imagine que essa medida teve de passar pelo Congresso e, segundo me disseram, até a Constituição brasileira teve que ser mudada para que eu pudesse ser considerado temporariamente um cidadão brasileiro. Veja o nível de corrupção que havia...

Cineweb - Quando isso aconteceu?
Sluizer - Em 1972.

Cineweb - Durante a ditadura militar, portanto.
Sluizer - Sim, mas tudo isso aconteceu por pressão dos intelectuais, dos poetas especialmente. Depois, o filme foi exibido no Brasil e ganhou muitos prêmios por aqui.

Cineweb - Mas A Faca e o Rio hoje é um filme que pouquíssimos conhecem. Não existe em vídeo, por exemplo.
Sluizer - Não. As cópias se perderam. Eu tenho uma cópia comigo, na Holanda. Fiz uma cópia em vídeo para a família de Odilo Costa Filho e outra para a Cinemateca no Rio.

Cineweb - A Jangada de Pedra é seu segundo filme em português, então?
Sluizer - Não, é o terceiro. Fiz Mortinho para Chegar a Casa em 1996. Passou na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Cineweb - Inclusive, nesse filme está o mesmo ator português de A Jangada de Pedra, Diogo Infante.
Sluizer - Sim.

Cineweb - O senhor leu o livro em que língua?
Sluizer - Li primeiro em francês, depois em português, mais para comparar. Consigo cotejar bem as duas línguas.

Cineweb - O que o atraiu para adaptar A Jangada de Pedra para o cinema?
Sluizer - Não é tão fácil assim de responder, sem simplificar demais. Por que você se apaixona por uma pessoa e não por outra? Há uma série de fagulhas que me atraem a uma história, algumas mais evidentes do que outras. Se elas somam o bastante, vou atrás de fazer o filme. Tenho até algumas afinidades políticas com o Saramago.

Cineweb - Como assim?
Sluizer - Há uma série de conflitos no mundo que me irritam profundamente. Foi o caso do Vietnã, do Oriente Médio, da Bósnia, o que está acontecendo no Iraque agora. Isso tudo me irrita porque a maioria deles é estúpida, não é necessária. Então, de algum modo, Saramago e eu, temos algumas coisas em comum, sem sermos similares.

Cineweb - No que o senhor difere dele, por exemplo?
Sluizer - Ele é o que se chama na minha terra de "comunista hormonal", quer dizer, o comunismo "cresce" nele naturalmente, como a barba. Nasce com você, faz parte do seu seu ser, morre com você. Não sou assim. Mas o que temos em comum é ver o ser humano como mais importante do que o sistema.

Cineweb - E no livro, o que o senhor enxerga como mais interessante?
Sluizer - Vi ali uma possibilidade de retratar personagens que não são vítimas de reações absurdas ou de estresse que causam conflitos idiotas. Ali a harmonia e a intuição tornam-se mais importantes do que o racionalismo e a eficiência, pode-se lidar com os problemas sem ficar nervoso. No filme, os personagens conseguem tirar uma soneca nem que o mundo em volta caia em pedaços - não porque não tenham consciência do que acontece mas porque vivem alguns palmos acima do chão. Prova disso é o fato de que essas cinco pessoas se encontram, um a um, e decidem seguir um rumo guiados por um cachorro - e é preciso coragem para fazer isso, decidir seguir o caminho definido por um animal ou seguir a razão ou o que se espera deles.

Cineweb - O senhor tem alguma afinidade especial com cachorros?
Sluizer - Na verdade, não tanto quanto Saramago tem. Mesmo assim, gosto deles e acredito realmente que eles, como outros animais, de várias maneiras são mais compassivos do que seres humanos. Eles sentem que você não está feliz, chegam perto, são leais. Tenho um bom sentimento por eles.

Cineweb - Esta produção, aliás, deve ter requerido uma logística particular por causa dos animais. Além do cachorro, há cavalos e aquela quantidade enorme de pássaros.
Sluizer - No caso dos cavalos, não foi tão complicado, porque são apenas dois. Mesmo assim, o cavalo preto deu um certo trabalho, porque não era totalmente domesticado. Mas eu queria que fosse preto e nós não tínhamos muitas opções. O cachorro foi treinado para não latir, postar-se adiante do carro, essas coisas. Mas houve uma coisa interessante. Naquela cena em que ocorre uma morte, resolvi não treiná-lo. Achei que ficaria complicado demais. Deixei-o à vontade. E veja o que ele fez. Naturalmente, postou-se atrás do personagem que morria e pôs sua cabeça sobre a dele.

Cineweb - Impressionante! Ele fez aquilo sozinho, sem nenhuma instrução?
Sluizer - Sim, não teve nenhuma indicação. Nunca tinha feito aquilo antes. Ele apenas sentiu que devia fazer aquilo, acho.

Cineweb - E no caso dos pássaros?
Sluizer - Eram o caso mais difícil, até pela quantidade. Havia quatro tipos de pássaros. Uma parte deles foi treinada por quatro meses naquela cena de ataque aos policiais. Colocava-se comida nas roupas dos atores para que eles simulassem aquela "agressão". Houve cenas com pássaros normais na natureza, não treinados. E também os efeitos digitais.

Cineweb - Como fizeram esses "pássaros digitais"?
Sluizer - Filmamos dez mil patos e digitalizamos suas imagens para poder manipulá-las melhor. Isso levou seis meses.

Cineweb - Mais tempo do que para treinar os animais verdadeiros...
Sluizer - Sim, é bem mais complicado.

Cineweb - Quanto tempo o senhor levou para filmar tudo?
Sluizer - Do momento em que decidi filmar a história até que ela ficou realmente pronta, cinco anos. Levantar o dinheiro foi bastante difícil.

Cineweb - Quanto foi o orçamento total?
Sluizer - Mais ou menos US$ 4, 5 milhões.

Cineweb - Como foi o seu contato com Saramago para negociar os direitos? O senhor o conhecia antes?
Sluizer - Não. Uma escritora e roteirista de Nova York que morou em Portugal chamou minha atenção para ele. Não pude lê-lo imediatamente, mas o fiz depois. Não tomei imediatamente a decisão de filmá-lo, também. Foi em 1996 que finalmente decidi comprar os direitos. Tive uma longa discussão com seus agentes porque sabia que Saramago não queria vender os direitos de nenhum livro seu para o cinema. Eu também não queria encontrá-lo sem ter nas mãos um primeiro esboço do roteiro. Então, comecei a corresponder-me com ele e enviei-lhe este primeiro esboço.

Cineweb - Qual foi a primeira reação dele?
Sluizer - Ficou aborrecido com algumas mudanças que fiz na história e fez comentários um pouco duros, a princípio.

Cineweb - Que tipo de comentários?
Sluizer - Disse-me coisas assim: "Se o senhor não é inteligente o bastante para perceber de que trata o meu livro...". Então, fui encontrá-lo, discutimos sobre nossas discordâncias e creio que fui forte o bastante para convencê-lo de que o livro é algo e o que o filme deveria ser algo diverso. Não faria sentido ficar repetindo algumas coisas. Tivemos uma curta discussão, falamos de outras coisas e, no final, tornamo-nos amigos de fato. Ele me deu sua confiança. Disse-me: "Vá em frente, confio no senhor".

Cineweb - Ele acompanhou as filmagens?
Sluizer - Sim. Eu o convidei e ele um dia foi ao set, justamente quando estávamos lidando com os pássaros. Ele comentou: "Prefiro ser escritor, é muito mais fácil. Eu inventei os pássaros em alguns segundos e você leva seis meses para transformar em filme aquilo que imaginei!".

Cineweb - Ele já viu o filme pronto?
Sluizer - Sim. Houve uma première em Lisboa há dois meses. Eu não o via há algum tempo. Ele se levantou para me cumprimentar, deu-me um grande braço e disse: "Estou muito feliz que tenha mantido o espírito da história, que não a tenha traído". Depois me disse: "Qualquer de meus livros que queira transformar em filme, eu confio no senhor". Ele repetiu a mesma coisa à imprensa holandesa, duas semanas atrás, quando foi lançado o filme.

Cineweb - O filme só foi lançado na Holanda?
Sluizer - Sim. Tivemos inclusive duas indicações num festival lá, para melhor filme e melhor diretor. Na próxima semana, será lançado em Portugal.

Cineweb - Alguma vez o senhor pensou em fazer o filme em outra língua que não o português e o espanhol?
Sluizer - Não. Curiosamente, quem me sugeriu que fosse feito em inglês foram os produtores espanhóis. Então eu até brinquei com eles, dizendo que eram traidores de sua própria cultura. Claro que se fosse feito em inglês poderia ter mais facilidade comercial. Sou holandês e senti que o filme só poderia ser feito em línguas ibéricas. Essa separação lingüística da Península Ibérica é um elemento essencial para a história. Não se trata de uma separação geográfica. Então eu recusei, porque trairia a história. Mas esse detalhe sem dúvida dificultou obter dinheiro para o filme.

Cineweb - Mudando de assunto, o senhor dirigiu um filme com River Phoenix, Dark Blood, que não foi concluído por causa da morte dele, em 93. O que foi feito desse trabalho?
Sluizer - Realmente foi uma pena porque faltavam poucos dias para completar as filmagens quando ele morreu. Faltavam apenas umas quatro cenas para filmar no estúdio em Los Angeles. Ele morreu e não houve modo de completar o filme sem ele, com efeitos especiais, algo assim. Assim, o filme se tornou uma questão de seguro. O produtor Ted Turner se opôs a qualquer tipo de uso de um outro ator como seu substituto, essas coisas. River era um ator muito popular entre os jovens então e Turner temia que fazer isso repercutisse mal contra o filme. Então, o filme foi abandonado e tentei obter controle do material filmado. Eu era o diretor, não o produtor, então não consegui na época. Pertencia ao banco que fizera o seguro. Havia uma conta pendente, algo assim.

Cineweb - E o que aconteceu ao material filmado?
Sluizer - Foi mantido em vários lugares, oferecido ao American Film Institute. Mas eles não o aceitaram lá. Porque não estava montado achavam que se gastaria muito dinheiro para conservá-lo, essas coisas. Fiquei com muita raiva disso.

Cineweb - E onde está o filme agora?
Sluizer - Comigo, na Holanda.

Cineweb - Mas o senhor pode utilizá-lo?
Sluizer - Posso fazer qualquer coisa com ele, desde que não seja comercial. Posso usá-lo para fins educacionais, festivais, etc.

Cineweb - Alguma vez ele já foi exibido?
Sluizer - Não, porque ainda não tive tempo de montá-lo. Ainda o farei algum dia, não sei quando. Originalmente, queria fazer um filme sobre a atuação de River, então poderia usar aquele material. Ele era muito mutável, instável, mesmo. Não por causa de drogas, nada disso; por causa de sua própria personalidade. Queria fazer um filme sobre atuação. Mas também tenho outra idéia, de fazer a "sinfonia inacabada", montando o filme como estava planejado, introduzindo algumas explicações, com voice over, etc. Posso garantir que aí está um material extraordinário. Todo mundo na América que o viu pensava que este seria o filme independente daquele ano.

Cineweb - Quem mais estava no elenco?
Sluizer - Jonathan Price, na melhor atuação de sua carreira. E Judy Davis, que pode até não ser minha companhia favorita no mundo, para ser sincero, mas ainda assim é uma ótima atriz. Talvez um dia eu consiga fazer algo com esse filme.

Cineweb - Atualmente, o senhor trabalha na Europa, mas morou algum tempo nos EUA. Qual foi a sua impressão de Hollywood?
Sluizer - A batalha por dinheiro e distribuição é um bocado cansativa. Por outro lado, eles lhe dão condições de trabalho que são um verdadeiro luxo. De modo geral, acho que posso dizer que sobrevivi bem àquilo tudo por ter seguido os conselho de meu amigo e compatriota Paul Verhoeven: "Não faça como os europeus que vêm para cá. Não tente mudar o sistema, nem combata os tubarões. Você tem que nadar mais rápido do que os tubarões. Se lutar contra o sistema, morre."

Fotos: Neusa Barbosa/Cineweb
Cineweb - 2/10/2002