Charles Berling, um ator cada vez mais diretor
- Por Neusa Barbosa
- 19/06/2009
- Tempo de leitura 5 minutos
Nesta entrevista exclusiva, concedida durante sua passagem por São Paulo, em junho de 2009, para participação no 2º. Panorama do Cinema Francês, Berling conversou sobre seus interesses artísticos e sua passagem à cadeira de diretor, tanto no cinema, como no teatro.
Cineweb - Você começou no teatro, levou um tempo pra chegar ao cinema – por que?
Comecei na carreira muito jovem, no teatro, e continuo a atuar nele até hoje. No cinema, começaram a me convidar para papeis mais tarde, depois de me conhecerem no teatro. Quando fazia só teatro, vivia muito ocupado e nunca parei para pensar porque não fazia cinema. Cursei uma escola de teatro e cinema em Bruxelas que se chama Insas e creio que, mesmo começando tardiamente no cinema, já havia praticado um pouco. Nunca tive uma ligação fantasmática com o cinema, ou a glória, ou o dinheiro. O que me interessa neste métier é a expressão, a linguagem que representa, como trabalhar sendo honesto e dinâmico com as sensações. Então, quando faço as coisas não me pergunto se devo ter uma estratégia para ter sucesso na carreira. Ao contrário, tento compreender porque estou insatisfeito e como posso melhorar isso, ir mais longe. Na França, como sou uma pessoa conhecida, me convidam para integrar um livro sobre pessoas bem-sucedidas. Isto me espanta, porque não tenho a sensação de ter “dado certo”. Meu sentimento é de que tenho ainda muitas coisas a fazer e de fazer muitas coisas melhor.
Cineweb - No cinema ou no teatro, tanto faz?
Não só. Já escrevi canções, trabalhei com músicos, fiz ficções para a televisão que me interessaram muito, me apaixonaram mesmo. Fiz papeis na televisão francesa que são muito importantes, como o de Robert Badinter, que era o ministro da justiça que aboliu a pena de morte na França, era uma história fantástica para contar. Fiz o papel de Jean Moulin, herói da Resistência. Dirigi um documentário, dirigi no teatro e continuo atuando no teatro.
Não busco uma estratégia para correr atrás do dinheiro ou da glória. E a idolatria eu considero desprezível. Procuro as coisas que me construam. Não há nada mais belo do que ver um bom filme, fazer um bom filme, uma peça de teatro magnífico. No mês passado atuei na peça Fim de Jogo, de Samuel Beckett. Não há nada mais forte do que trabalhar com gênios como Beckett. Isto me faz bem. Ajuda a suportar o mundo, a suportar a vida. Mesmo que eu ache que tenho muita sorte.
Cineweb - Qual o tema de seu documentário?
É sobre a vida de Gustav Eiffel. Conheci uma descendente dele. Quando ouvi sua família, convenci-me de que era um tema interessante. A Torre Eiffel é muito famosa na França e em todo o mundo mas não sabemos muito sobre a vida do homem que a fez.
Cineweb - O filme já está terminado?
Sim. Já passou na TV francesa, já saiu em DVD na França e talvez o vendamos à TV brasileira. Foi meu primeiro filme como diretor e agora quero continuar. Me encorajou.
Cineweb - Vai prosseguir no documentário ou tentar a ficção?
Os dois. No momento, estou escrevendo uma ficção. Mas é um pouco cedo para falar disso.
Cineweb - Você demora muito para escrever?
Sim. É não só uma questão de tempo como de às vezes muita angústia. É difícil. Como faço muitos filmes e peças, não me interessa trabalhar por trabalhar e sim o sentimento de descobrir alguma coisa. Por isso, tento descobrir onde está meu desejo para poder avançar.
Cineweb - No teatro, também dirige?
Sim. No caso da peça de Beckett, vamos partir em turnê na França. Eu atuo e dirijo. É fatigante, mas é uma questão de método de trabalho. No teatro, se faz tudo em equipe. O que é mesmo importante é escolher uma equipe que trabalhe na mesma direção que você, que tenha prazer em trabalhar. No teatro, já tenho essa equipe afinada. Cheguei a um momento em minha vida em que tenho necessidade de dirigir mais.
Cineweb - Por que?
Porque há uma certa maneira de atuar, um certo tema que me importa abordar e tenho vontade de fazê-lo de um certo modo. A direção tem tudo a ver com isto. Por isso, criei minha própria produtora, a HB. Isto me permite desenvolver projetos que me interessam. É mais importante para mim hoje ser mais radical e ir numa determinada direção. O trabalho de ator não me basta.
Cineweb - Quais as limitações de ser ator?
Estamos sempre à disposição do desejo dos outros. Você não assume o próprio desejo. Embora eu goste muito de trabalhar com vários diretores.
Cineweb - Quais são seus diretores preferidos?
Muitos. Mas não é porque um diretor é bom que eu quero trabalhar com ele. Acho que o encontro de um diretor e de um ator se dá em termos de um interesse comum.
Cineweb - É sua primeira visita ao Brasil? Tinha alguma expectativa?
O Brasil sempre me interessou de longe. Tenho o sentimento de que se trata de uma cultura muito particular, que me interessa. Tenho amigos que conhecem bem o Brasil e o amam muito.Vimos filmes brasileiros, escutamos música brasileira, portanto ele faz parte da cultura do mundo. Quando me propuseram de vir aqui, tive curiosidade de conferir.
