24/07/2026

Amos Gitai, um cineasta pela pluralidade em Israel


Fotos de Ana Vidotti

O mais importante cineasta israelense, Amos Gitai, 52 anos, há muito habituou-se a remover montanhas. Temperado pela experiência dramática de ex-soldado da Guerra do Yom Kippur (1973), acostumou-se a cultivar a virtude da persistência para enfrentar os muitos obstáculos de seu dia-a-dia, produzindo filmes com mensagens antibélicas que não raro contrariam os interesses de grupos poderosos, como os religiosos ortodoxos, em Israel - caso do pungente Kippur e de Kadosh, seus únicos trabalhos lançados no circuito comercial brasileiro. Convidado especial do 6º Festival Judaico de São Paulo em 2001, que o homenageou com uma retrospectiva, o diretor comentou em entrevista exclusiva sua filosofia de trabalho, um novo filme, Éden, que marcou a estréia do octagenário dramaturgo Arthur Miller como ator, e suas impressões de São Paulo, que na época ele visitava pela segunda vez.

Cineweb - O senhor resolveu tornar-se cineasta depois da experiência na Guerra do Yom Kippur, em 1973?
Amos Gitai - Bem, aquela experiência realmente acelerou minha decisão.

Cineweb - Qual a sua profissão antes?
Gitai - Era arquiteto. Fiz doutorado em Berkeley, na Califórnia. Juntei todos os títulos possíveis e depois decidi tornar-me outra coisa!

Cineweb - A atualidade israelense pontua todos os seus filmes. O senhor geralmente trabalha sobre temas bem específicos, como a política e a religião. Por quê?
Gitai - O cinema, infelizmente, está se tornando uma mercadoria. Por isso, deve haver por trás de cada filme todo um eficiente trabalho de marketing - como qualquer outro produto. No entanto, acho que o cinema precisa encontrar um modo de manter um diálogo com seu contexto. Procuro fazer com que meus filmes mantenham esta ligação com a realidade de Israel, do Oriente Médio, que é muito conflituosa, muito carregada, muito vulcânica, eu diria, com erupções a todo momento. Além disso, creio que o cinema tem a opção de mostrar a realidade de maneira bem mais ampla do que os noticiários de TV. Os grandes assuntos desta região, portanto, passam pela política e pela religião.

Cineweb - O senhor acredita que a cobertura jornalística dos conflitos em Israel está transformando o assunto num espetáculo?
Gitai - Espetáculo é a palavra correta porque, num certo sentido, tudo o que se passa ali é mostrado como uma espécie de seriado. Então, num dia, os israelenses são os heróis, os palestinos, os vilões. No dia seguinte, o quadro se inverte completamente. Ou seja, o público é induzido a mudar de opinião o tempo todo.

Cineweb - Como se acompanhasse uma novela.
Gitai - Exatamente. É assim que a mídia se encarrega de projetar estas impressões e continua a vender imagens deste conflito.

Cineweb - Qual seria uma visão mais correta destes conflitos ?
Gitai - Num certo sentido, acho que não se deve esquecer de que Israel é um território muito pequeno. São cinco milhões de pessoas num país de 80 km de extensão - do rio Jordão até o mar. É um lugar carregado de sentido simbólico, mais do que real. Acho que o cinema deveria sempre recuperar este sentido real. Por isso é que não gosto de generalizações. Procuro abordar meus temas a partir de microcosmos. Não penso abstratamente em religião ou guerra. Procuro retratá-los através de um pequeno grupo de personagens num determinado lugar - num bairro de Jerusalém, num helicóptero. Como música de câmara.

Cineweb - Há uma espécie de fio condutor entre todos os seus filmes ?
Gitai - Pouco a pouco, procuro criar um quebra-cabeças, uma espécie de mapa que a cada vez vai tocar um tipo muito específico da realidade em Israel, sem me aproximar demais do jornalismo ou do docudrama.

Cineweb - O senhor parece ter uma visão bastante crítica da religião. Os ortodoxos têm um papel crucial naquilo que acontece hoje em Israel? Eles tornam as coisas mais difíceis?
Gitai - Israel, originalmente, foi formada por um movimento de judeus seculares. Gradualmente, assistiu-se à tomada do controle deste movimento pelos religiosos. Não tenho restrições a quem quer acreditar em alguma coisa. Qualquer pessoa pode acreditar no que bem entender. Mas quando querem criar uma estrutura para impor seu sistema a um grupo maior de pessoas, aí eu sou contra.

Cineweb - O que é o cinema para o senhor - uma forma de mudar o mundo?
Gitai - Pelo contrário. Acho que o cinema não é a forma mais eficiente de mudar a realidade. Há modos muito mais diretos, como a política. O cinema é um modo sutil de tocar as coisas - e acho que não deve passar disso. De outro modo, começa a fazer doutrinação e sou contra isso. Assim, é muito complexa a linha sobre a qual devemos trabalhar. Por um lado devemos dizer o que temos a dizer, mas de um modo sutil, associativo. Ou seja, não tentando empurrar idéias às pessoas goela abaixo, mas dando-lhes alguns elementos para pensar, deixando espaço inclusive para que possam discordar. Acho que um dos grandes problemas do cinema hoje é apagar seu contexto, assim como acontece com a literatura, a pintura. Você não pode entender Velásquez sem os Bourbons. É importante manter em foco esta dialética.

Cineweb - É muito difícil produzir um filme em Israel hoje?
Gitai - É muito duro porque é um país muito pequeno, com recursos muito limitados.

Cineweb - Quantos filmes são feitos lá por ano?
Gitai - Entre cinco a sete. E se, ainda por cima, você desagrada alguns setores com o tipo de filmes que faz, isto pode significar que você sofra restrições maiores.

Cineweb - Por exemplo?
Gitai - Não ter acesso às fontes oficiais de financiamento. A maior parte dos meus filmes foi produzida dentro de uma estrutura bem complicada de co-produções com países europeus.

Cineweb - Esses europeus são em sua maioria franceses, certo?
Gitai - Sim. O cinema independente do mundo não existiria sem os franceses. Boa parte do bom cinema iraniano ou taiwanês não existiria sem eles. Os franceses foram muito eficientes em criar instituições e mecanismos que protegeram o cinema. Mesmo que hoje seja uma batalha complicada para manter tudo isso. E eles provavelmente vão perdê-la, infelizmente.

Cineweb - Por quê?
Gitai - Por causa da posição muito agressiva do cinema americano. É um fenômeno mundial. Acho que os americanos dominam hoje 95% do mercado mundial de produtos audiovisuais, seja em cinema, seja na televisão.

Cineweb - Nesse contexto, é difícil tornar lucrativos filmes como os seus, não?
Gitai - Acho que não há nada negativo em fazer filmes para as pessoas do mundo todo. Em todos os países há pessoas sensíveis e inteligentes, que querem ter contato com todo tipo de cinema. Não é minha ambição conquistar todo o mercado. Estou satisfeito fazendo um trabalho que é preciso, que expressa o que acredito, que está encontrando seu público. Kippur acaba de ser lançado no Japão.

Cineweb - O senhor acaba de voltar do Japão, não é?
Gitai - Sim. E agora venho ao Brasil, onde a acolhida da imprensa à minha obra foi muito encorajadora. Neste momento, há também uma retrospectiva do meu trabalho em diversas cidades dos EUA. Minha carreira tem sido uma longa jornada. Não se pode esperar sucesso instantâneo.

Cineweb - Ouvi dizer que o senhor é um grande fã de Glauber Rocha.
Gitai - Sim. Gosto especialmente de seus últimos filmes, que são muito anárquicos.

Cineweb - É a sua segunda vez em São Paulo. Já deu para formar alguma impressão da cidade?
Gitai - A primeira vez, eu vim para a Mostra [Mostra Internacional de Cinema em São Paulo] há uns três ou quatro anos atrás. Ainda não tive muito tempo de passear na cidade, que vi quase sempre pelas janelas do carro. Embora ela não seja uma cidade especialmente bonita, como Roma ou Paris, dá para sentir que tem uma energia muito forte. Gosto disso. Me pareceu um pouco como uma Telaviv grande. Telaviv também não é uma cidade bonita, mas é muito tocante, por ser dividida, desesperada, muito vital. São Paulo me pareceu similar - um espaço onde convivem as culturas mais esquizofrênicas. Provavelmente Israel e o Brasil são muito parecidos.

Cineweb - Em que sentido?
Gitai - No sentido de que nos dois países há pessoas muito inteligentes, sensíveis e sofisticadas convivendo com outras muito vulgares, kitsch e violentas.

Cineweb - Como o senhor teve a idéia de escalar Arthur Miller para o elenco de Éden? O senhor já o conhecia?
Gitai - Não o conhecia pessoalmente, conhecia apenas o texto [Homely Girl, a Life, que foi a base do roteiro de Éden, concorrente no Festival de Veneza 2001]. Meus produtores entraram em contato com ele e viajei a Nova York especialmente para encontrá-lo. Ele foi muito aberto.

Cineweb - Em que sentido?
Gitai - Eu lhe disse naquele nosso primeiro encontro que teria de encontrar uma forma de adaptar seu texto em meu próprio universo. Ele não fez restrições. No final, concordou até em atuar.

Cineweb - Qual o papel dele em Éden?
Gitai - Ele interpreta o pai da atriz Samantha Morton numa história que se passa na Palestina, nos anos 40, antes da criação de Israel. Guardo as melhores recordações de nosso relacionamento não só porque ele atuou muito bem como pelas conversas que tivemos. Ele sempre manifestou um grande interesse pelo que acontece em Israel hoje.

Cineweb-18/4/2003