“Lembrar de Truffaut me deu paz na alma na hora de dirigir um filme”, diz musa Fanny Ardant
- Por Alysson Oliveira
- 25/05/2010
- Tempo de leitura 5 minutos
Para Fanny Ardant, a língua jamais será uma barreira. “Quando trabalhei com [o diretor malaio] Tsai Ming-liang [no ainda inédito no Brasil ‘Visage’], ele chegava no set falava um monte coisa na língua dele, e eu não entendia nada. Mas na hora em que se diz: ‘Silêncio! Gravando.’, algo mágico acontecia, e eu entendia, sei lá como, tudo o que ele tinha dito. Não é preciso comunicação verbal para se fazer cinema”, disse ao
Cineweb durante sua passagem por São Paulo, onde participou do lançamento do projeto ‘Then and Now – Beyond Borders and Differences/ Além das fronteiras e diferenças’.
Cineweb durante sua passagem por São Paulo, onde participou do lançamento do projeto ‘Then and Now – Beyond Borders and Differences/ Além das fronteiras e diferenças’.
Trata-se de um longa coletivo, concebido pela ART for the World, uma ONG ligada à ONU, com apoio do SESC São Paulo, que contará com 20 curtas de 6 minutos cada um. Fanny dirige e protagoniza um dos segmentos, “Chimères Absentes”. O Brasil é representado por Tatá Amaral (“Antônia”), que aborda a diversidade religiosa do país. Outros curtas já filmados representam a Itália (dirigido pelos artistas Nicolò Massazza e Iacopo Bedogni, que assinam como Masbedo), Burkina Fasso (de Idrissa Ouédraogo) e EUA (de Robert Wilson). Esses filmes serão exibidos no próximo domingo (30), às 21h, no canal SESCTV. O longa com todos os segmentos deverá ficar pronto apenas no próximo ano.
Para a atriz francesa, que já trabalhou com François Truffaut (com quem foi casada e fez seu primeiro grande filme “A mulher do lado”, de 1981, e o último do diretor, “De repente, num domingo”, de 1983), Ettore Scola (“O Jantar”, 1998), Michelangelo Antonioni e Wim Wenders (“Além das nuvens’, 1995) e Sidney Pollack (“Sabrina”, 1995), o cinema deve ser uma arte sem fronteiras.
Prova disso é que Fanny leva para as telas uma de suas grandes paixões: o povo cigano. No filme, ela é uma professora de música numa escola de uma cidadezinha da Itália cuja vida muda quando entra em contato com a cultura cigana. Mais do que isso, o curta é sobre a tolerância. “Quando fui convidada pela ONU, a proposta me instigou. Não é a mesma coisa que fazer um filme sozinha, no qual você deixa a sua criatividade livre. É preciso seguir algumas regras”. Ela conta que queria usar facas numa das cenas, mas foi alertada pelos produtores que tinha liberdade para abordar qualquer assunto, mas não podia usar qualquer tipo de arma no filme. “Isso não foi um entrave, eu pude contornar esse problema e resolver a questão de outra forma”, explica.
Para criar o filme, a atriz e também diretora explica que buscou no seu imaginário uma história que fosse coerente com ela mesma. “Nunca fui uma pessoa política. Mas se creio numa coisa, creio até o fim. Eu amo os ciganos, tinha que falar sobre eles no filme.” Sua personagem, uma professora de música, abandona sua vida, e passa ensinar crianças ciganas.
No ano passado, Fanny dirigiu o longa “Cinzas e Sangue”, exibido na Mostra de Cinema de São Paulo. Ela conta que foi uma experiência que ‘aconteceu na vida’ dela, e não algo planejado.
“Foi algo obscuro, um tanto misterioso, uma série de fatores que foram me levando a dirigir um filme. Não foi como eu pensar, ‘agora está na hora de virar diretora’”. Segundo a atriz, para dirigir é preciso, acima de tudo, ter jogo de cintura. “Eu me sentia como numa floresta, precisava pular de galho em galho, para conseguir fazer o trabalho até o fim”.
“Foi algo obscuro, um tanto misterioso, uma série de fatores que foram me levando a dirigir um filme. Não foi como eu pensar, ‘agora está na hora de virar diretora’”. Segundo a atriz, para dirigir é preciso, acima de tudo, ter jogo de cintura. “Eu me sentia como numa floresta, precisava pular de galho em galho, para conseguir fazer o trabalho até o fim”.
Para levar o projeto até o fim, Fanny conta que em diversos momentos se lembrou de seu ex-marido Truffaut que num set de filmagens jamais cedia a pressões e chantagens. “Ele não se deixava influenciar, fazia o que queria da forma como desejava. Lembrar dessa persistência dele me deu paz na alma na hora de dirigir um filme. Foi a minha inspiração”.
O Brasil e o mundo
Essa é a primeira vez que Fanny veio a São Paulo, e do alto do 21º andar do seu hotel na região da Paulista, a atriz achou a cidade surreal. “Parece uma pintura de Salvador Dalí com seus arranha-céus, em meio a árvores que parecem vindas da Floresta Amazônica”. Ela conta que boa parte daquilo que conhece do Brasil vem da literatura clássica. “Eu conheço os grandes autores brasileiros, e eles são genais. Isso sempre me fez pensar porque não faz tanto cinema no Brasil”. E quando fica sabendo que o mercado brasileiro é dominado por blockbuster americanos, ela diz não se espantar. “É assim em quase todo o mundo, infelizmente”.
Além da literatura, Fanny conhece um pouco de cinema brasileiro – especialmente os filmes de Walter Salles, que sempre estreiam na França. Ela diz que adoraria trabalhar com um diretor brasileiro. “Gosto do sabor da aventura, da descoberta. Sempre quero saber qual a imagem que um cineasta estrangeiro faz de mim”.
Se, por um lado, Fanny está curiosa para descobrir a imagem que os diretores estrangeiros fazem dela, por outro, ela diz não gostar nenhum pouco dos remakes norte-americanos de filmes franceses. Recentemente, estreou no Brasil, “O preço da traição”, refilmagem de “Nathalie X”, que ela protagonizou ao lado de Emmanuelle Béart e Gerard Depardieu. “Sempre é uma péssima ideia refazer um filme. Como disse Godard uma vez: ‘os franceses têm ideias, mas não têm dinheiro; já os americanos têm dinheiro, mas não tem ideias’. Adoro essa frase!”, alfineta.
