18/07/2026

Pablo Larraín retrata fim da ditadura Pinochet em "No"

Com seu quarto longa, "No", único latino-americano na lista dos concorrentes ao Oscar de filme estrangeiro, o diretor chileno Pablo Larraín assina um atestado de maturidade e projeta novas questões ao seu cinema engajado. Nesta entrevista, concedida em Cannes, ele comenta suas escolhas cinematográficas e políticas.
Um dos mais prestigiados cineastas chilenos da atualidade, Pablo Larraín, 35 anos, concorre ao Oscar de filme estrangeiro 2013 com No, terceiro integrante de uma densa trilogia que avalia a herança da ditadura Pinochet.

Depois de retratar um produto da loucura e da repressão em Tony Manero (2008) – em que o protagonista (Alfredo Castro) era um ladrão e assassino frio, obcecado pelo personagem vivido por John Travolta em Os Embalos de Sábado à Noite – e a onda de assassinatos que se seguiu ao golpe de 1973 em Post Mortem (2010), Larraín debruça-se, em No, justamente à campanha vitoriosa no plebiscito de 1988, que negou a continuidade do mando a Pinochet, precipitando sua saída, menos de dois anos depois.

Vencedor do prêmio principal na Quinzena dos Realizadores de Cannes 2012 com este filme poderoso, estrelado pelo mexicano Gael García Bernal, Larraín explicou, nesta entrevista a um grupo de jornalistas em Cannes, da qual participou Neusa Barbosa, do Cineweb, os detalhes desta produção – que começou a ser idealizada em 2008 e exigiu um minucioso processo de pesquisa. Abaixo, os principais trechos da conversa:

Dificuldades de financiamento
Fazer um filme na América Latina é sempre duro, nunca é fácil. Mas acho que recebemos muita atenção por causa da natureza da história. Tivemos apoio de diferentes companhias da França, Estados Unidos e do governo chileno. Foi mais fácil produzi-lo do que os filmes anteriores que eu fiz, sem dúvida., porque o tom não era tão sombrio, nem violento. Não porque eu quisesse fazer um filme não-violento, apenas porque a natureza deste filme era diferente. É uma história, uma estrutura mais clássica. O roteiro era tão interessante de ler, as pessoas gostavam muito. Então, conseguimos atenção e apoio.

Inspiração na peça de Antonio Skármeta
Sim, o roteiro é inspirado na peça do Skármeta (El Plebiscito) que, por sua vez, baseia-se em fatos reais. Levou muito tempo para finalizarmos este roteiro, porque tivemos que entrar em contato com uma porção de pessoas que tinham participado da campanha (do Não), então não foi nada fácil. Vocês têm que entender que o referendo foi algo tão imenso para nós. Depois do dia da Independência, foi provavelmente a segunda data mais importante de nossa história. Eu estava muito preocupado no começo porque tínhamos que lidar com algo muito delicado, todas as pessoas envolvidas com aqueles fatos ainda estão vivas e em atividade. Alguns me preveniram sobre isso. Então, eu tinha uma sensação da magnitude de tudo aquilo.

Temor de expor alguém
Quando você lida com um tema assim, você está lidando com uma série de opiniões diferentes, quem fez isso ou aquilo. É delicado. Então, não foi fácil a princípio, quando entramos em contato com as pessoas que fizeram a campanha (do Não), pedindo ajuda e informações. Elas me alertavam: “O que você vai fazer com nossas histórias ?”. Porque aquele episódio mudou suas vidas. Os caras que fizeram aquela campanha tornaram-se muito famosos em meu país, muito respeitados. Depois dela, fizeram campanhas em todo o mundo, tornaram-se famosos conselheiros políticos. Então, este assunto era muito importante para eles. Tivemos que convencer alguns deles de que trataríamos sua história com respeito, não seríamos levianos. E nós necessitávamos deles para ter uma ideia clara do que aconteceu. Se não tivessem falado conosco, faríamos um filme sem seus pontos de vista e obviamente teríamos uma ideia menos precisa dos fatos, foi o que eu lhes disse.

Estética dos anos 80
Não gosto quando assisto a um filme de época que use material de arquivo associado ao HD, ao 35 mm. Os materiais não se conectam. Então, optamos por filmar em vídeo, no mesmo formato usado naqueles dias, de modo que os espectadores não soubessem se estavam olhando para um material antigo ou cenas do filme atual. Eu acho que essa ilusão é interessante para um filme. Podíamos ter filmado em qualquer formato que quiséssemos. As pessoas enlouqueceram quando dissemos que íamos filmar em vídeo.
Especialmente nossos parceiros norte-americanos tinham muitas dúvidas. “Você tem certeza ?”, me perguntavam. E eu, sim, nós testamos, todo mundo da equipe gostou do resultado.

Significado de fechar a trilogia sobre a ditadura
Fiz uma trilogia sem saber que a faria. Comecei com um filme, fiz o outro e então este filme veio como um projeto. E eu concordei em fazê-los, achei que poderiam funcionar juntos. É isso. Encerrei este assunto, estou passando a outra coisa. Achei interessante para alguém que não viveu aqueles dias – eu era muito jovem – e não experimentou todo o horror da ditadura lançar um olhar para trás de um ponto de vista diferente. Estou feliz com esses filmes que fiz.

Intenção de ensinar algo com os filmes
Eu não faço filmes para que ninguém possa aprender. Não quero que as pessoas assistam a meus filmes como quem vai à escola. Eu os fiz porque pareceram certos para mim. E quando você faz esse tipo de coisa e se apaixona tanto por isso você normalmente encontra pessoas que compartilhem da sua visão.

Crítica ao marketing e à publicidade
Não diria que há uma crítica. Nem eu quero julgar nada. Tento expor coisas de modo que as pessoas possam avaliar por si mesmas. Eu posso pensar assim, ou outras pessoas, mas o filme não conduz a isso. Não é um panfleto.

Recordações da campanha
Todo mundo que vivia no Chile na época lembra daquilo. Eu tinha 12 anos então. Foram 27 dias de campanha no ar, 50 minutos por dia. E quando aquilo ia ao ar, o país inteiro parava para assistir. Era como a Copa do Mundo. Conseguiram criar esta consciência nas pessoas. Você olha para a campanha hoje e talvez ela pareça boba, ou ligeira. Mas na verdade foi uma das maiores façanhas da história da comunicação latino-americana. O que eles fizeram na época foi impressionante, eu acho.

Herança de Pinochet
Pinochet impôs um sistema político e econômico, que foi o capitalismo mais selvagem de todos os tempos.
Então o país começou a crescer, a renda subiu, conseguimos dinheiro e então um cara do mundo da publicidade – de certo modo, um produto daquele sistema criado por Pinochet – foi a pessoa que criou um sistema para derrubá-lo. Em castelhano dizemos “cria cuervos”, ou seja, você cria o próprio veneno que te mata. Uma coisa interessante aqui é que, para nós – as pessoas que fizeram o filme – não estamos somente falando da ditadura e de como ela acabou, estamos falando do que aconteceu depois, do que vem acontecendo nos últimos 24 anos. Ou seja,
que marketing, capitalismo, propaganda são os reis. O meu país é como um shopping center, se você quer qualquer coisa, tem que pagar. Você quer uma boa educação, tem que pagar caro por isso. Se você quer saúde, tem que pagar. Tem que pagar por tudo, porque tudo está à venda, tudo é baseado em dinheiro. Então, nós derrotamos Pinochet
com nossas próprias armas masmantivemos sua ordem, porque está estão tão forte agora, tão dura de remover. Os ricos são tão ricos e os pobres tão pobres. A distância entre os dois é imensa, a classe média é pequena. Então acho que foi muito perigoso tudo isso que aconteceu.

Paralelo entre o Chile do plebiscito e a Primavera Árabe
É interessante o que está acontecendo no mundo atual, em que os novos meios de comunicação estão sendo usados, sejam as redes sociais ou outros, de modo a unir as pessoas para lutar pela mudança daquilo que pensam que deva ser mudado. No meu país, no ano passado, houve uma enorme revolta estudantil. Os estudantes disseram que a educação que recebiam era horrível e foram às ruas. Centenas de milhares deles, gritando: “Nossa educação é um lixo”. E ao mesmo tempo acontecem movimentos como Occupy Wall Street, manifestações na Rússia, na Espanha. Acho que as pessoas estão cansadas de muitas coisas. O sistema está falhando. Eu não estava ciente disso quando comecei o filme, mas agora acho que No está tão conectado com tudo isso. É surpreendente, eu não tinha previsto isso, nem tenho controle disso, é claro. Simplesmente aconteceu.

Sobre convites para fazer campanhas políticas
Meu negócio é ficção. Fui convidado a fazer filmes para diversos candidatos mas nunca quis. Se você aceita isso, não é mais livre. Não vou trabalhar para nenhum político, não me importa quanto esteja disposto a pagar. A coisa mais cara que um cineasta tem é sua liberdade. Nunca vou fazer isso.

Trabalhar fora do Chile
Não recusaria por princípio. Acho que se pode fazer um bom filme em qualquer lugar. Se houver um bom projeto, por que não?