06/06/2026

José Henrique Fonseca disseca a mente de um matador em "O Homem do Ano"

Fotos de Luiz Vita

Um dos sócios da produtora carioca Conspiração, filho do escritor Rubem Fonseca, o cineasta José Henrique Fonseca mergulha em território sombrio em seu filme O Homem do Ano. A história segue a pista de Máiquel (Murilo Benício), um jovem desempregado que se torna assassino por encomenda devido a um acaso fatal. O filme registra várias estréias: a do diretor em longa-metragem (ele só havia dirigido antes o episódio Cachorro!, uma das histórias de Traição, de 1998), a parceria artística com o pai, a do próprio Rubem Fonseca como roteirista-adaptador de trabalho alheio (o ponto de partida é o livro Matador, de Patricia Melo). Nem por trilhar terreno familiar, reforçado pela presença de sua mulher, Cláudia Abreu, no elenco, a produção fluiu com rapidez. Foram 14 versões do roteiro, oito meses de montagem e um ciclo de exibições em festivais do exterior, como Berlim e Miami (onde venceu três troféus) antes de estrear no Brasil, em agosto de 2003. Nesta entrevista, em São Paulo, o cineasta detalha a trajetória do filme, fala sobre seu parentesco temático com produções recentes e anuncia seu próximo projeto, a série de TV Mandrake, baseada no personagem do advogado-detetive de A Grande Arte, livro de seu pai.

Cineweb - Você trabalha com roteiro de seu pai, sua mulher no elenco. Este é um filme familiar?

José Henrique Fonseca - Pode-se dizer que sim. Sou casado com uma belíssima atriz, filho de um belíssimo escritor. Portanto, foi muito natural trabalhar com eles. Aliás, dedico este filme à minha filha Maria. O filme demorou tanto para ser feito que eu e a Cláudia namoramos, casamos e tivemos a Maria.

Cineweb - O Homem do Ano deveria ter sido lançado no final de 2002. O que atrasou o lançamento?

Fonseca -Várias coisas. O planejamento, a escolha dos atores, a montagem. Antes disso tudo, houve a minha tentativa de elaborar a impressão que o livro da Patricia Melo tinha produzido em mim. Procurei fazer um filme que tentasse compreender o personagem e não fosse tão violento quanto o livro.

Cineweb - Seu filme fala de exclusão social, de falta de perspectivas para os jovens da periferia. Você acha que fez um filme político?

Fonseca - Até pode ser, mas esse não foi o aspecto mais importante. O que eu mais procurei mesmo foi compreender a cabeça do Máiquel.

Cineweb- Por que você se decidiu pela escalação do Murilo Benício?

Fonseca - Ele é um ator muito talentoso, intuitivo, e tem essa cara de abandono. Eu costumo dizer que ele é meio Garrincha, não sabe a grandeza do talento dele.

Cineweb - Você vê uma ligação entre o seu filme,Carandiru e Cidade de Deus?

Fonseca - Até certo ponto sim, porque a violência é um assunto recorrente na obra dos cineastas brasileiros urbanos. Ao mesmo tempo, acho que O Homem do Ano é sobre outra coisa. A minha abordagem é mais psicológica, fica mais em torno da psique do Máiquel, que tem um destino traçado como numa tragédia grega.

Cineweb- O filme foi exibido em festivais no exterior, como em Berlim. Que tipo de coisa mais chama a atenção dessas platéias internacionais?

Fonseca - Várias coisas, mas acho que mais essa conivência das autoridades e da classe média com a atuação dos matadores.

Cineweb- É muito difícil fazer cinema no Brasil?

Fonseca - É muito difícil fazer cinema em qualquer lugar. Até do ponto de vista do esforço físico. Você passa meses acordando de madrugada, indo dormir muito tarde. Por essas e outras é que eu admiro tanto o John Huston, que foi capaz de trabalhar até os 80 anos.

Cineweb - Qual é seu próximo projeto?

Fonseca- Vou fazer Mandrake, que será a primeira série de TV da Conspiração, para a HBO Brasil.

Cineweb - Como vai ser a série?

Fonseca - É uma comédia de costumes, com oito episódios, em torno de um personagem que é um advogado meio detetive.

Cineweb - Quando começam as filmagens?

Fonseca - No começo de 2004.

Cineweb - Já tem elenco escolhido?

Fonseca- Não, ainda não. Só tem um dos co-roteiristas: vai ser o Tony Bellotto. Eu mesmo ainda não sei se vou dirigir todos os episódios. O primeiro, com certeza, sim.