24/07/2026

Diretor de "Adeus Lênin" fala do sucesso e das mágoas da reunificação alemã

Fotos de Luiz Vita

Em 2003, na Alemanha, o grande blockbuster não foi nem Matrix nem O Senhor dos Anéis nem nenhuma outra superprodução estrangeira e sim um filme aparentemente pequeno, com característica de cult movie, saído diretamente do Festival de Berlim: a comédia dramática Adeus Lênin, de Wolfgang Becker, que já foi vista por mais de 6 milhões de pessoas na Alemanha. E deve continuar nos cinemas até o ano que vem, quando poderá concorrer ao Oscar de filme estrangeiro, já que foi indicado para representar a Alemanha para competir por uma das cinco vagas nessa categoria.

Em São Paulo como convidado da 27a Mostra BR de Cinema, em outubro de 2003, o diretor mostrou-se compreensivelmente animado com todo este sucesso, embora admitisse que não foi totalmente inesperado. "Eu acreditava muito no potencial deste filme. Surpresa foi só o tamanho do sucesso, já que um estouro de bilheteria na Alemanha costuma girar em torno de 2 milhões de espectadores", esclareceu.

O filme relata o esforço sobre-humano de um jovem (Daniel Brühl) para esconder da mãe (Katrin Sass), que ficou em coma oito meses em 1989, que o Muro de Berlim caiu e o regime em que ela, uma socialista ferrenha acreditava, simplesmente acabou. Empenhado em evitar choques à mãe, que corre o risco de sofrer um novo ataque cardíaco, ele corre a cidade à procura de embalagens de produtos da Alemanha Oriental e forja, junto com um amigo videomaker, falsos noticiários para que a mãe possa assistir à TV.

No centro da história, está a reunificação das Alemanhas, mas Becker destacou que, para ele, o assunto do filme não é a política. "Não é um filme sobre reunificação. É um filme sobre uma família dividida, sobre os segredos e mentiras dentro dela e sobre amor, sobre tentar salvar a vida de alguém com uma mentira. Isto é muito universal. Mesmo que não se saiba nada sobre a história alemã, qualquer pessoa pode entender isso, porque em todos os lugares há mães e filhos".

Indagado sobre se considera superados todos os problemas da reunificação, o cineasta afirmou: "Só posso dizer-lhe os meus sentimentos e o que leio nos jornais. Não dá para saber o que pensam 88 milhões de pessoas. Acho que nunca fizeram uma pesquisa sobre isso. Para mim, a integração de alemães dos dois lados funciona muito bem em Berlim. E em Berlim é que estava o problema. O Muro era lá. Ali é que ocorriam as fugas e as pessoas eram baleadas tentando fugir. Se você morasse em Colônia ou próximo à fronteira polonesa, não veria nada disso. Assim, se poderia pensar que Berlim seria, então a região mais problemática. O que se vê hoje é exatamente o contrário".

Derrubado em 1989, o famoso Muro hoje não tem muito significado na cabeça da nova geração. Becker, de 49 anos, dá o exemplo de sua filha, que tem 19: "Ela nem mesmo sabe onde ficava o Muro. Claro que ouviu falar que tudo existiu mas isso não lhe interessa mais. Para os jovens, Berlim é apenas uma cidade maravilhosa onde tudo está sendo restaurado".

Gerações mais velhas, porém, guardam ainda alguns ressentimentos, dos dois lados. Como frisou o diretor, do antigo lado ocidental, há quem reclame que hoje há uma crise econômica na Alemanha por causa dos bilhões gastos para a renovação do lado oriental. Do antigo bloco socialista, por sua vez, muitos reclamam de que suas opiniões não foram ouvidas. "Nunca houve uma discussão sobre a integração. Foi simplesmente um país que incorporou o outro, com base no seguinte raciocínio: 'Nós do Ocidente estávamos certos, vocês errados. Por que deveríamos discutir algo com vocês? Vocês não tiveram nenhuma idéia boa'. Assim, o outro lado ficou frustrado. E lá havia intelectuais, cientistas e artistas muito competentes, embora não se possa dizer o mesmo dos políticos", acentuou Becker.