06/06/2026

Errol Morris revê a política americana pelos olhos de McNamara


Texto e foto

Apesar de uma longa e respeitável carreira como documentarista, cineasta e diretor de comerciais premiados, Errol Morris, 56 anos, nunca havia sido lembrado para uma indicação ao Oscar. Em compensação, logo na primeira, em 2004, levou o prêmio, pelo contundente documentário Sob a Névoa da Guerra, derrotando aquele que muitos consideravam o franco favorito, Na Captura dos Friedmans. O filme de Morris consiste de uma rara e longa entrevista com o ex-secretário de defesa americano Robert McNamara - considerado um dos artífices da Guerra do Vietnã, conflito que ceifou a vida de 3,5 milhões de vietnamitas e 58.000 americanos. Recorrendo ao seu conhecimento dentro dos bastidores do governo e uma memória prodigiosa aos 85 anos, McNamara abre como nunca seu coração - chegando a revelar fatos desconhecidos sobre sua participação na II Guerra, no bombardeio de Tóquio, sob o comando do implacável general Curtis Le May. Sincero, lúcido e não tão defensivo como se poderia esperar, McNamara contribui para uma notável reflexão não só sobre o período dos presidentes John F. Kennedy e Lyndon Johnson, sob cujas ordens serviu, como sobre os tempos atuais da belicista política externa americana. Nesta entrevista exclusiva, concedida em dois momentos - logo após a première do filme, em maio de 2003, no Festival de Cannes, onde foi projetado em digital porque a cópia em 35 mm sequer estava pronta - e, por telefone, em março de 2004, o diretor comenta sua premiação com o Oscar e as condições para realização deste trabalho, que arrecadou cerca de US$ 2 milhões nas bilheterias americanas.

Cineweb - Desde a sua première, em Cannes/2003, até agora, seu filme teve uma trajetória ascendente, até o Oscar. Como se com o sucesso?
Errol Morris - Para ser sincero, estou muito surpreso com tudo. Acho que toda essa repercussão contribuiu para que o filme fosse distribuído mais amplamente no mundo. Creio que o Oscar pode até aumentar esse alcance.

Cineweb - O senhor esperava essa repercussão?
Morris - Não, não esperava.

Cineweb - Quando o senhor se aproximou pela primeira vez de McNamara?
Morris - Há cerca de quatro anos

Cineweb - Desde o começo era sua intenção fazer um filme somente sobre ele?
Morris - Percebi rapidamente que ele era o assunto. Mas não tinha certeza do quanto seria bom ou não. Assisti a entrevistas com ele e não eram particularmente boas.

Cineweb - Ele concordou rapidamente em conversar com o senhor?
Morris - Ele concordou pelo telefone. Porém, dois dias antes da primeira entrevista, ele me ligou e disse: "Sabe, estive falando com algumas pessoas..". Acho que ele descobriu quem eu era, ou algo de que não gostou sobre mim. Quase não aconteceu. Ele dizia: "Não faz sentido. Não há razão para eu falar com o senhor". Então nos entendemos.

Cineweb - Como descreve sua técnica para entrevistar alguém como Robert McNamara ?
Morris - Costumo dizer que parte da minha técnica foi não dizer nada.Mas isto não foi estritamente verdade, porque eu disse a ele quando parar. Penso que no caso de McNamara posso certamente falar que foi uma dessas entrevistas em que senti que era importante estar preparado. É uma cortesia, entre outras coisas. McNamara é uma pessoa muito inteligente. Senti que era muito importante ler seus livros com cuidado. Porque, se fosse lhe fazer uma única pergunta que fosse sobre qualquer um deles, me pareceu que eu deveria ser capaz de fazer as perguntas relevantes. E isto foi muito bom. Porque McNamara disse - não sei se estava sendo gentil - que eu fui um dos melhores entrevistadores que tinha encontrado. Eu tinha lido os livros e realmente pensado sobre seus temas e ele gostou de falar. E eu gostei de conversar com ele. Acho que parte de uma boa entrevista é realmente estar envolvido num certo nível, estar ali presente. Há uma curiosidade natural sobre outra pessoa, a vontade de saber mais sobre aquela pessoa, sobre porquê ela é como é, faz o que faz, diz o que diz, pensa o que pensa. Se você não tem esse princípio, não pode confiar em qualquer um que não fale muito. Por que como de outro modo pode saber o que estão pensando? Acho que há alguma verdade nisto. Descobrimos as outras pessoas, de modo geral, conversando. E uma entrevista, no final de contas, é este processo de descoberta. É interessante.

Cineweb - Houve algum assunto que ele recusou comentar?
Morris - Na verdade, ele disse que não falaria sobre o Vietnã. Mas falou. Por outro lado, estava disposto a falar do bombardeio de Tóquio na II Guerra Mundial. Eu não sabia o bastante sobre isso para levantar o assunto, não está em suas biografias. Ninguém sabia a respeito disso. Por que ele escolheu esta entrevista em particular para começar a falar a respeito de uma coisa que ninguém mais está falando ou escrevendo a respeito? Eu não sei. Qualquer palpite é tão bom quanto o meu. Embora eu ache aquela história extraordinária, muito contundente.

Cineweb - Por que acha que ele quis falar a respeito de tudo isso?
Morris - Ele escreveu um extenso livro sobre o Vietnã, outro sobre a sua volta a Hanói, e outro ainda sobre política - Wilson's Ghost. Penso que é um meio que ele tem para explicar seu passado, não para outras pessoas, mas para ele mesmo. Metade do que ele disse foi para se convencer de que fazia sentido.

Cineweb - Qual a sua opinião sobre McNamara?
Morris - Há algo muito tocante sobre esse homem. Ele é um homem inteligente, muito charmoso. Se eu gostei dele? Sim. Não gosto de todo mundo que entrevisto. Mas tenho realmente bastante trabalho em ser honesto entrevistando gente de quem não gosto. Provavelmente isto não é politicamente correto, mas eu gosto de McNamara.

Cineweb - Mesmo sem compartilhar de suas posições políticas?
Morris - Sim. Eu participei de passeatas contra a Guerra do Vietnã na época e não penso diferente sobre aquela guerra, hoje, do que pensava então. Meus sentimentos sobre McNamara ainda são um pouco misteriosos. É o que me fascina a respeito do filme. O McNamara do passado é o belicista, o tecnocrata que jogou os EUA no Vietnã e depois, supostamente, caiu fora. A história que emergiu das fitas de Lyndon Johnson e de outros materiais que usei para fazer este filme pintam um retrato muito diferente dele.

Cineweb - Em que sentido esse retrato fica diferente?
Morris - Nas fitas, fica muito claro que é Johnson quem quer a guerra. Não vejo um secretário de defesa belicoso empurrando um presidente vacilante no Vietnã, muito pelo contrário. Então, muitas outras questões emergem. Então, agora McNamara é um homem maravilhoso? Muda-se o foco da história, ela se transforma numa outra coisa. E, para mim, a história é: por que McNamara não saiu do governo? Se ele acreditava que a guerra era um erro, porque não saiu do governo? Perguntei-lhe isto muitas vezes.

Cineweb - Ficou satisfeito com sua resposta?
Morris - Não. Claro que tenho a minha opinião, o que não quer dizer que seja verdade. Imagine que o mundo que você conheceu e amou é destruído. O presidente que você admirava e a quem servia com orgulho é assassinado.Agora você vai servir a Johnson, não é mais o Kennedy. Johnson era muito desconfiado. Se você ouve suas conversas, identifica vários tipos de paranóia. E uma das pessoas com quem ele era mais paranóico era certamente o irmão de Kennedy, Bob Kennedy - que era procurador-geral e que saiu depois da posse de Johnson e virtualmente desapareceu da Casa Branca. Voltou a ser senador por Nova York.

Cineweb - Qual era a paranóia de Johnson em relação a McNamara?
Morris - Sua lealdade. Ele pensava: "Ele é leal a mim ou aos Kennedys?". Na minha opinião, o Vietnã foi o maior teste desta lealdade.

Cineweb - E a quem ele era leal, na sua opinião?
Cineweb - Uma das razões que tornam McNamara tão profundamente interessante é que ele tem um senso de honradez, correção e retidão muito à moda antiga e muito intenso. Acho engraçado quem o vê como um tecnocrata amoral. Isto simplesmente não é verdade. Ele é o tipo de pessoa que sofre de excesso de princípios morais, não da falta deles. E aqui está ele. Ele sabe que está cercado por pessoas que querem ampliar a guerra. O que ele deve fazer? Sair do governo, onde não poderá fazer nada? Não são perguntas simples, nem têm respostas simples, de modo algum. Parece estranho. Não temos uma democracia parlamentar como na Inglaterra. Estes assessores diretos servem segundo a vontade do presidente. São designados por ele e seguem a sua vontade. E McNamara encarava suas obrigações muito seriamente. Tentou servir bem a Johnson. Servindo bem a Johnson, pensava servir bem ao povo americano.

Cineweb - Como teve acesso a todas essas fitas?
Morris - Tudo o que se precisa fazer hoje é inscrever-se na Biblioteca Johnson, onde se pode obter cópias e transcrições dessas fitas. Há uma série de livros de Michael Beschloss, The Johnson Tapes. Embora não se obtenham as fitas de todo o período em que ele governou. Johnson ficou no cargo entre o final de 1963 e o começo de 1969. Você tem acesso às fitas de 1963, 1964, 1965 e o começo de 1966. A maior parte das de 1966 em diante não está ainda disponível. E você pode obter as gravações de Kennedy sobre a crise dos mísseis de Cuba, as conversas de Johnson ao telefone e as fitas das reuniões de Kennedy com seu comitê executivo.

Cineweb - McNamara viu o filme?
Morris - Sim. Ele gostou. A única coisa de que ele não gosta e ficou um ponto de atrito antes de irmos para Cannes [onde o filme foi exibido pela primeira vez, em maio de 2003] foram as lições. Ele disse: "Não sei se gosto dessas lições". Ele disse que, se fosse colocar suas lições, algumas seriam diferentes das que eu formulei.Mas elas não são as minhas lições. Eu as coloquei lá, mas são trechos do que ele falou, portanto, são lições dele.

Cineweb - Ele procurou interferir na versão final?
Morris - Não. Tive carta branca. O filme não foi editado por ele, e sim por mim.

Cineweb - Por que o senhor decidiu colocar um epílogo?
Morris - Porque as pessoas viram o filme e me perguntaram como eu não tinha perguntado a McNamara se ele se sentia responsável ou culpado pela guerra, porque ele saiu do governo, etc. E achei que a maneira mais simples de lidar com isto seria mostrar como foi difícil perguntar tudo isso e ouvi-lo não responder. Pelo menos eu fiz o esforço.

Cineweb - O senhor acha que o grande tema de seu filme é a responsabilidade e até a culpa que McNamara demonstra sentir pela guerra?
Morris - Realmente ele se sente responsável. Acho que este é um grande tema. Mas creio que o maior tema - de novo, a minha lição - é que é preciso ver para crer. Não acredito em teorias conspiratórias.

Cineweb - O senhor acha que os temas de seu filme se aplicam à situação atual no Iraque?
Morris - Com certeza. Como vimos, o presidente Woodrow Wilson estava errado quando se referia à I Guerra Mundial como "a guerra que terminaria com todas as guerras". Não foi. Ao contrário, o século XX foi um século de carnificina, a pior que o mundo já viu. Mas esse termo me fascina: "a guerra para terminar com todas as guerras". O que ele queria dizer é: "Vamos lutar nesta guerra para evitarmos uma outra". Como o general Curtis Le May dizia a McNamara, na crise dos mísseis de Cuba: "Vamos pegá-los agora, mais fracos. Ficará muito mais difícil exterminá-los depois!". Essa história de "guerra preventiva", de "guerra para acabar com todas as outras", no que deu isso, nos últimos 100 anos? Nada, nada mesmo.

Cineweb - O senhor acredita que seu filme está chegando num momento histórico importante?
Morris - Creio que sim. Ele chega em tempos cruciais para a América, às vésperas de uma eleição excepcionalmente importante, em que o país está mais dividido do que nunca. Algumas pessoas me disseram que o filme contribui para esta discussão. Se isto é verdade, fico felicíssimo. Até porque considero toda esta discussão muito relevante para o que está acontecendo neste momento no mundo.

Cineweb - Na presente edição do É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários, os organizadores observaram que há um maor número de filmes políticos. Como o senhor encara este fato? O senhor, aliás, já foi convidado para vir ao Brasil por este festival?
Morris - Acho ótimo que as pessoas falem sobre política. É bom que se manifestem. Já fui convidado, sim, para ir a São Paulo, mas infelizmente, ainda não pude ir.

Cineweb - O senhor já está preparando um novo trabalho? Pode adiantar algo a respeito?
Morris - Sim, já estou pesquisando um novo projeto, mas não posso dizer nada sobre isso ainda. Provavelmente não será sobre política. Aliás, será um drama, uma ficção, não um documentário. Mas é uma coincidência, ainda gosto muito de documentários.

Cineweb - Quando será lançado?
Morris - Provavelmente em 2005.

Cineweb 24-3-2004