05/06/2026

Simone Spoladore traduz nas telas a interioridade de Clarice Lispector

Na adaptação de “O Livro dos Prazeres”, a atriz interpreta a protagonista em busca de si mesma num mundo marcado pelo patriarcado.



Simone Spoladore em cena de O livro dos prazeres (Crédito: Divulgação)

Como acontece com muitos brasileiros e, em especial, brasileiras, a atriz Simone Spoladore descobriu Clarice Lispector ainda na adolescência. “Comecei a ler a obra dela aos 16 anos. Li muito, e de tudo. Os romances dela sempre me acompanham”, explica em entrevista ao Cineweb. A atriz protagoniza O Livro dos Prazeres, adaptação de Uma aprendizagem ou livro dos prazeres, dirigida por Marcela Lordy, que está nos cinemas.

Spoladore explica que sua relação com Clarice é tão próxima que, mesmo quando não trabalhou em adaptações da escritora, recorreu a ela para buscar inspiração e compreender personagens. “No meu segundo filme, Desmundo, eu fazia uma órfã portuguesa que era mandada para o Brasil. Era uma mulher frágil num mundo selvagem. Busquei em A Paixão Segundo G.H. [romance da autora de 1964] ideias para criar essa personagem que precisa se conectar com o universo.”

Em O Livro dos Prazeres, a atriz vive Lóri, uma professora do ensino fundamental solitária, com relacionamentos passageiros, em busca de conhecer a si a mesma e ao seu corpo, até que encontra o argentino Ulisses (Javier Drolas), um professor de filosofia com quem acaba vivendo um romance peculiar. O roteiro é assinado pela diretora e a argentina Josefina Trotta. A trama é adaptada para os dias contemporâneos e a protagonista, ao contrário do original, é mais ativa em sua transformação.

“Foi um grande desafio construir a Lóri”, afirma a atriz. “Ela é uma personagem muito interiorizada, e precisávamos trazer para a tela tudo o que acontece dentro dela. Foi preciso encontrar algumas balizas”.

Na preparação para a personagem, Spoladore visitou escolas de ensino fundamental e conversou com professoras da área, levando para o filme muito do que descobriu desse laboratório. “Eu perguntei a uma delas: ‘Como você faz para dar aula quando está triste, deprimida?’ Ela me disse que usava óculos escuros. Outra, em algumas ocasiões, gostava de ficar descalça na sala de aula. Levei tudo isso para o filme”.

Da relação profissional nasceu a amizade entre a atriz e a diretora, que se conheceram há mais de dez anos, quando Lordy fez os vídeos numa peça em que Spoladore atuou. Depois veio A musa impassível, um telefilme em que, novamente, trabalharam juntas. “Naquela época ela já me convidou para interpretar Lóri. Ela ficou quase uma década trabalhando nesse roteiro, e eu sempre ligada ao filme. Houve momentos em que senti dúvida, falei que não ia mais fazer, mas acabei não desistindo. Acho que era um jeito inconsciente de testar a Marcela para saber se ela queria mesmo que eu fizesse O Livro dos Prazeres”, conta se divertindo.

Acima de tudo, Spoladore destaca a atualidade do romance de Clarice, mesmo publicado há mais de 50 anos. “Não apenas tem muito a dizer sobre as mulheres de hoje, mas também sobre como a sociedade brasileira ainda vive sob o peso do patriarcado. Clarice, e no filme buscamos trazer isso, coloca a mulher no centro e a leva a uma busca pela interioridade. A melhor maneira de agir no mundo é mergulhar em si mesma.”