23/07/2026

A mudanças dos afetos no novo filme de Marcos Bernstein

Roteirista e diretor lança, nessa quinta (22) “O amor dá voltas” e fala sobre as transformações dos arquétipos da comédia romântica e a masculinidade contemporânea no cinema. (Crédito da foto: Ana Rodrigues/Divulgação)



Marcos Bernstein e Cleo no set de "O amor dá voltas", que estreia nessa quinta (22) (Crédito: Ana Rodrigues/Divulgação)


Enquanto a demografia das comédias românticas se torna cada vez mais baixa, mirando num púbico juvenil, o roteirista e diretor Marcos Bernstein concentra-se em personagens um pouquinho mais velhos, aproximando-se dos 30 anos, em O amor dá voltas. “Acho que há uma percepção diferente da idade em que o jovem se torna adulto. O momento de decisão me parece que mudou, e eu queria falar disso”, diz em entrevista ao Cineweb.

O longa é protagonizado por Cleo e Juliana Didone, interpretando duas irmãs que se envolvem com o personagem vivido por Igor Angelkorte, um médico que volta ao Brasil depois de uma temporada na África e descobre que as cartas que ele trocou, nesse tempo todo, não foram com a mulher que amava, mas sim com a irmã dela, uma instaurando uma crise.

Roteirista experiente – tendo no currículo filmes como Central do Brasil e Faroeste Caboclo, além de novelas como Orgulho e Paixão –, Bernstein confessa que é fã do gênero comédia romântica e suas variações, que podem pender mais para um ou outro elemento – no caso de seu filme, é o romance. “É um gênero clássico, com o qual eu queria trabalhar. Originalmente, o filme seria muito mais comédia mas, com o tempo, foi se transformando. Nos filmes que dirigi, sempre trafego entre alguns gêneros.” Sua filmografia como cineasta também inclui O outro lado da rua e Meu pé de laranja lima.

Ele admite que optou por algo, no mínimo, digamos, anacrônico, como a troca de cartas entre as personagens. “Como se relacionar num mundo digital? Resolvi olhar para o passado, embora a trama se passe no presente. Como fazer algo diferente da correria do mundo de hoje?” A questão central para ele aqui é: “Como reagem pessoas legais que se veem numa situação errada?” Ele enfatiza que, em O amor dá voltas, não há vilões, nem mocinhos ou mocinhas, mas gente comum que acerta e erra ao longo da vida.

Para o elenco, Bernstein conta que procurou atores e atrizes com talento dramático, mas também capazes de fazer comédia. A grande revelação aqui é Angelkorte, que mostra um humor, como define o cineasta, nostálgico e moderno. “Eu o conheci quando trabalhou numa novela que escrevi, Além do horizonte. Ele é capaz de ser engraçado sem muito esforço, sem mostrar que está sendo engraçado, mantendo a cara séria.”

Com quase trinta anos de carreira como roteirista, Bernstein conta que percebeu algumas mudanças nos arquétipos – como o fortalecimento das personagens femininas e a transformação das masculinas, menos duronas, mais humanas. “As mulheres estavam sub-representadas, agora há mais cuidados com as personagens femininas. Os olhares mudaram para elas, tanto quanto para os homens.” Como exemplo, ele cita o próprio protagonista de seu longa, o médico André, altruísta e cheio de dúvidas e sensibilidade. “Eu o vejo como uma faixa masculina de homens mais esclarecidos. Ele está dividido entre duas mulheres e podia tirar proveito disso, mas não. Ele quer resolver a situação.”

O roteirista se tornou diretor em 2004, com O outro lado da rua, protagonizado por Fernanda Montenegro e Raul Cortez. “Foi muita coragem minha chamar eles e dirigir essa dupla num primeiro filme”, relembra se divertindo. “Eu tinha o pé atrás de fazer o longa com dois veteranos. Eu lá começando a dirigir e, na minha frente, dois dos maiores nomes do cinema e teatro brasileiros.”

Ao contrário de muitos roteiristas que se tornam cineastas por se cansarem de ver seus textos mudados, Bernstein confessa que não pode reclamar nesse quesito. Seus roteiros foram dirigidos por cineastas como Walter Salles, Daniela Thomas e Daniel Filho. “Eu sempre quis fazer cinema, não importava o que. Calhou que comecei escrevendo roteiro e gostei muito disso. Sempre serei um roteirista, escrevendo para mim mesmo e também para outros diretores.”