23/07/2026

Documentário resgata figura do brasileiro que bateu de frente com George W. Bush

Filme de José Joffily focaliza o diplomata José Mauricio Bustani (na foto), que foi presidente da OPAQ e tentou impedir a invasão dos EUA no Iraque



O diplomata José Maurico Bustani agora se dedica à sua paixão: a música (Crédito: Divulgação)

Sinfonia de um homem comum é um documentário sério e relevante – o que não o torna um daqueles filmes inacessíveis, mesmo tocando em assuntos complexos. O “homem comum” do título nem é tão comum assim: trata-se do diplomata brasileiro José Mauricio Bustani, primeiro diretor-geral da OPAQ (Organização para a Proibição de Armas Químicas), criada em 1997, e que acabou perdendo o cargo por pressão dos EUA, em 2002, numa questão que envolve interesses financeiros de empresas norte-americanas e geopolítica.

José Joffily, que dirige o filme e é amigo pessoal de Bustani de longa data, conta ter ouvido a história narrada pelo próprio diplomata e ficou atônito. “Quando ele me contou, anos atrás, o episódio ainda estava em curso. Havia muitos interesses envolvidos, especialmente de empresas protegidas por George W. Bush, que tinham interesse em explorar o petróleo no Iraque”, relembra Joffily em entrevista ao Cineweb.

Bustani, no cargo na OPAQ, bateu de frente com o presidente dos EUA na questão da existência de armas químicas no Iraque. Bush Jr. queria invadir o país, mas o brasileiro sabia que não havia tais armamentos lá e defendia a adesão do Iraque à organização, pois assim seria possível fazer uma inspeção pacífica. O lobby americano, conforme mostra o documentário, foi pesado para o afastamento de Bustani do cargo – sua vida e dos familiares, inclusive, chegou a ser ameaçada. “Falaram para mim, não deixa ele beber um copo de água no escritório da Organização”, relembra Janine-Monique Bustani, mulher do diplomata, no filme.

Joffily destaca que um filme como esse é fundamental para o Brasil, no momento em que reatamos os laços políticos internacionais desfeitos nos últimos quatro anos. “O novo governo tenta restabelecer essas ligações, e é importante mostrar que, no passado, um brasileiro teve uma posição importante no quadro internacional e fez um excelente trabalho – apesar da pressão dos EUA, que o fez ser deletado”, conta o cineasta. O longa fez sua estreia mundial no Festival É Tudo Verdade de 2022, no qual recebeu uma menção honrosa, e também foi exibido no Festival Internacional de Documentários de Amsterdã, o IDFA, e no HotDocs, no Canadá.





















José Joffily, diretor do documentário (Crédito: Zeca Guimarães/Divulgação)


Apesar de lidar com um episódio ocorrido 20 anos atrás, Sinfonia de um homem comum é um filme extremamente atual, que joga uma luz na geopolítica contemporânea que se delineou especialmente depois do 11 de Setembro. “Tudo o que o Bustani dizia era verdade”, conta o diretor, que fez uma pesquisa profunda, além do depoimento do amigo, para construir o documentário, que tem roteiro assinado por David Meyer, Pedro Rossi, Jordana Berg e Joffily, além da montagem de Berg.

O diretor explica que uma das preocupações dele e de sua equipe era realmente transformar essa história impressionante e complexa em algo acessível para o público em geral, que não conhecesse a dinâmica da geopolítica e economia internacional. “O reflexo desse episódio vemos até hoje. Morreram 600 mil iraquianos nessa invasão, mas também muitos soldados americanos. Depois disso, os EUA não coloca mais soldados seus em campo. Eles contratam rebeldes locais, dão armas, tanques, canhões, mas preservam a vida dos seus.”

Para Joffily, o filme é acessível pelo fato de ele mesmo ser “completamente ignorante no assunto”. “Como eu não conhecia detalhes sobre isso, minhas dúvidas eram as de qualquer pessoa. Assim, fiz o filme pensando em esclarecer todo mundo, não apenas quem conhece bem o tema, até porque aí não teria novidades a dizer para essa pessoa.”

Partindo desse desconhecimento, o diretor constrói o documentário com tensão suficiente de um thriller político, com mocinhos, Bustani, e diversos bandidos – mas sem qualquer maniqueísmo. O filme é capaz de acessar a complexidade do assunto e das figuras envolvidas, sem se furtar de pôr o dedo na ferida. “O interesse dos EUA era, basicamente, explorar o petróleo no Iraque. As empresas americanas queriam fazer isso, e Bush precisava de uma desculpa para entrar lá e levá-las junto.”

Ao definir seu amigo Bustani, Joffily aponta um traço marcante: “Ele é teimoso”. Conforme mostra no longa, o diplomata também é um exímio pianista e, logo na primeira cena, o vemos reclamando, no ensaio, do piano que usará para um concerto. “Ele me questionava o tempo todo sobre o filme. Quando viu o documentário pronto, não ficou contente com suas performances no piano”, relembra o diretor, rindo. “A teimosia dele também foi importante quando estava na OPAQ. Antes de bater de frente com Bush, ofereceram a ele cargos e promoções, mas ele fincou o pé, não aceitou. Tinha plena consciência de que estava certo e não poderia fazer o jogo dos americanos.”