Monjardim recria Olga Benario com olhar televisivo
- Por Alysson Oliveira
- 26/08/2004
- Tempo de leitura 5 minutos
Em 1995, quando a produtora e roteirista Rita Buzzar conseguiu os direitos de adaptação para o cinema do livro-reportagem Olga, do jornalista Fernando Morais, o projeto não parecia muito viável. "Naquela época, ninguém acreditava no filme. Seria muito caro, com muitos atores, locações. E ainda por cima, uma protagonista comunista. Ninguém quis investir", conta.Dez anos depois, o cenário é outro. A realidade e o cinema brasileiro mudaram. E o longa Olga chega aos cinemas com duas datas redondas. Em 2004 completa-se 50 anos da morte de Getúlio Vargas e 20 anos do movimento das Diretas Já. Embora isso seja apenas uma casualidade, Rita diz que o momento não deixa de ser propício para o filme. "Olga fala da intolerância, o que é comum em todos os tempos, e também sobre o sonho. Estamos mais sensíveis em relação à possibilidade de felicidade coletiva", explica Rita, lembrando que esse era o sonho de Olga Benario.O jornalista Fernando Morais concorda com a roteirista e produtora. "Em pouco tempo o Brasil mudou para melhor", afirma. Quanto à adaptação de sua obra, Morais é categórico, dizendo estar muito feliz com o resultado final, muito acima de suas expectativas. "Estava preparado para ver uma história totalmente diferente. E a Rita conseguiu fazer uma obra fiel", conclui. Olga Benario sempre fascinou Morais, desde quando ele era criança. "Eu ouvia meu pai contar histórias sobre ela, sobre o Getúlio. Só quando a ditadura começou a cair eu pude começar minha pesquisa sobre ela", afirma. O jornalista ficou espantado ao ver que existia pouco material sobre Olga no Brasil. E mesmo na biografia de Prestes, O Cavaleiro da Esperança, escrita por Jorge Amado, ela é apenas 'meia página do livro', como define o jornalista.Morais confessa que chegou a pensar que a personagem Olga fosse pobre demais. Mas a sua pesquisa revelou o contrário. "Ela teve uma vida muito rica. Além de ser uma personagem tão forte ou mais forte que o próprio Prestes. Mas naquela época diziam que política não é coisa para mulher. Talvez por isso ela tenha sido tão esquecida", conclui.Mas o livro do jornalista, lançado em 1985, e que já vendeu 600 mil exemplares no Brasil, se encarregou de mudar essa visão."Queria que as pessoas ficassem com a sensação de que Olga é inesquecível", afirma a roteirista. Para transformar as páginas do livro em filme, ela teve de abrir mão de vários fatos e condensar diversas histórias paralelas. "No livro eu gasto umas 30 páginas para falar da Coluna Prestes. No filme, Rita resolveu isso com um diálogo", diz Morais, que não se envolveu na produção do roteiro. "Optei pela história de amor. Se as pessoas acreditassem no amor do Prestes e da Olga, seria mais fácil entender o contexto histórico e as visões políticas de cada um", explica a roteirista e produtora. Para levar para as telas essa história de amor e revolução, Rita contactou o veterano diretor de TV Jayme Monjardim, que estréia na direção de longas. Monjardim, que dirigiu A Casa da Sete Mulheres e O Clone, entre outras produções para a TV, não se incomoda com as comparações entre os dois tipos de mídia, cinema e televisão. "Na TV a gente fica anos lutando para ter um estilo próprio. Quando a Rita Buzzar me convidou para fazer o Olga, pensei que essa era a minha chance para mudar. Mas resolvi contar a história do mesmo jeito que faço na TV, porque é assim que sei fazer melhor", explica.Uma das coisas que Monjardim mais gosta de destacar é a difícil reconstituição de época e locais. O filme todo foi rodado no Rio de Janeiro, em estúdio e locações. "Tivemos de criar um cenário diferente para cada país. Em momento algum podíamos deixar que o público duvidasse que estávamos em determinado local", afirma. Chegou-se até a cogitar filmar na Alemanha, mas além do problema financeiro, a produção esbarrou em outra dificuldade. "Para liberar as filmagens lá, eles queriam um diretor alemão. E isso eu não queria", explica Rita.
PERSONAGENS REAIS- Como o próprio diretor Monjardim afirma, Olga é um filme de iniciantes. "Cerca de 50% da equipe são pessoas que estréiam no cinema", explica. Entre eles, está a protagonista Camila Morgado, que já havia trabalhado com ele na minissérie A Casa das Sete Mulheres. E atriz não se intimidou diante de um personagem tão complexo e que necessitou de tanto esforço físico. "Tive de entender a vida de um soldado para viver a Olga. Tive aulas de defesa pessoal, tiro, além de participar de treinamento militar", afirma.Mas ela sabia que estava diante de uma grande responsabilidade - afinal, graças ao livro de Morais, Olga é uma pessoa conhecida e admirada. E para compô-la, Camila se envolveu com tudo que fez parte do universo da revolucionária. "Foi um desgaste psicológico muito grande. Comecei pela parte intelectual, li os livros da época, estudei as personalidades que foram os heróis da Olga. As coisas foram se formando. Só achei o personagem verdadeiro quando o lado físico se encaixou com a parte intelectual", explica.Segundo o diretor, um dos fatores que o levou a escalar Camila foram as semelhanças físicas entre ela e a verdadeira Olga. "As duas tinham uma vibração no olhar muito intensa, e isso me chamou a atenção, desde nosso trabalho em A Casa das Sete Mulheres", explica Monjardim. No entanto, ele não teve a mesma facilidade em aceitar Caco Ciocler como Luis Carlos Prestes. "Eles são muito diferentes. O Prestes era mais baixo. Eu sempre tive a imagem do Caco com barba, bigode, cabelos mais cheios. Quando o vi 'transformado' em Prestes me surpreendi", afirma.Ciocler, por sua vez, também sabia das dificuldades de viver uma figura tão conhecida como Prestes. Porém, preferiu fazer um personagem mais próximo do humano do que do mito. "Ele era uma pessoa tímida. Era uma figura humana extremamente interessante. Um sujeito que foi perder a virgindade aos 37 anos", explica.O filme também vai ao encontro das origens de Ciocler, que é judeu, como Olga. "Pela primeira vez na vida me emocionei como judeu", confessa o ator se referindo a uma cena quando perguntam a Olga se ela é judia, em frente a Prestes. "Foi uma emoção pessoal. Acho que para mim bateu mais forte do que para a Camila, que não é judia", afirma.Para o jornalista Fernando Morais não é apenas Ciocler que ficou tocado pelo filme. Ele acredita que Olga fará com que revisitemos esse período da história do Brasil e seus personagens. "O filme vai nos obrigar a rever tudo isso. A história é essa. Pode não ser boa, mas essa é a história do Brasil", conclui.
PERSONAGENS REAIS- Como o próprio diretor Monjardim afirma, Olga é um filme de iniciantes. "Cerca de 50% da equipe são pessoas que estréiam no cinema", explica. Entre eles, está a protagonista Camila Morgado, que já havia trabalhado com ele na minissérie A Casa das Sete Mulheres. E atriz não se intimidou diante de um personagem tão complexo e que necessitou de tanto esforço físico. "Tive de entender a vida de um soldado para viver a Olga. Tive aulas de defesa pessoal, tiro, além de participar de treinamento militar", afirma.Mas ela sabia que estava diante de uma grande responsabilidade - afinal, graças ao livro de Morais, Olga é uma pessoa conhecida e admirada. E para compô-la, Camila se envolveu com tudo que fez parte do universo da revolucionária. "Foi um desgaste psicológico muito grande. Comecei pela parte intelectual, li os livros da época, estudei as personalidades que foram os heróis da Olga. As coisas foram se formando. Só achei o personagem verdadeiro quando o lado físico se encaixou com a parte intelectual", explica.Segundo o diretor, um dos fatores que o levou a escalar Camila foram as semelhanças físicas entre ela e a verdadeira Olga. "As duas tinham uma vibração no olhar muito intensa, e isso me chamou a atenção, desde nosso trabalho em A Casa das Sete Mulheres", explica Monjardim. No entanto, ele não teve a mesma facilidade em aceitar Caco Ciocler como Luis Carlos Prestes. "Eles são muito diferentes. O Prestes era mais baixo. Eu sempre tive a imagem do Caco com barba, bigode, cabelos mais cheios. Quando o vi 'transformado' em Prestes me surpreendi", afirma.Ciocler, por sua vez, também sabia das dificuldades de viver uma figura tão conhecida como Prestes. Porém, preferiu fazer um personagem mais próximo do humano do que do mito. "Ele era uma pessoa tímida. Era uma figura humana extremamente interessante. Um sujeito que foi perder a virgindade aos 37 anos", explica.O filme também vai ao encontro das origens de Ciocler, que é judeu, como Olga. "Pela primeira vez na vida me emocionei como judeu", confessa o ator se referindo a uma cena quando perguntam a Olga se ela é judia, em frente a Prestes. "Foi uma emoção pessoal. Acho que para mim bateu mais forte do que para a Camila, que não é judia", afirma.Para o jornalista Fernando Morais não é apenas Ciocler que ficou tocado pelo filme. Ele acredita que Olga fará com que revisitemos esse período da história do Brasil e seus personagens. "O filme vai nos obrigar a rever tudo isso. A história é essa. Pode não ser boa, mas essa é a história do Brasil", conclui.
