Francesco Zippel disseca vida e obra de Sergio Leone em documentário
Atração do festival Festa do Cinema Italiano, o documentário "Sergio Leone - o Homem que Inventou a América", de Francesco Zippel, examina vida e obra do mítico diretor italiano que reciclou os westerns norte-americanos em filmes míticos como "Por um Punhado de Dólares" e "Era Uma vez no Oeste". Zippel fala sobre o filme em entrevista exclusiva ao Cineweb.
- Por Neusa Barbosa
- 24/06/2023
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O diretor Francesco Zippel na abertura da Festa do Cinema Italiano. Crédito:Bruno Poletti/Divulgação
Vencedor do prêmio Nastro D’Argento como melhor documentário do ano na Itália, Sergio Leone - O Homem que Inventou a América, de Francesco Zippel, tem duas sessões na Festa do Cinema Italiano - neste sábado (24), em S. Paulo, e domingo (25), no Rio de Janeiro. Trata-se de um alentado mergulho na vida e na obra do celebrado diretor italiano, morto em 1989, cuja influência, no entanto, não cessa, mais de 30 anos após sua morte, como constatou o diretor do documentário, presente em S. Paulo, que concedeu uma entrevista exclusiva ao Cineweb.
Sobre essa influência permanente, Zippel comenta: “Leone é um dos pouquíssimos diretores cuja influência continua todos os dias, não só sobre cineastas norte-americanos, como Quentin Tarantino, como na arte, na videoarte, na música. E há tanta música leoniana-morriconiana que se encontra na música de hoje. Leone é um diretor que nunca desapareceu realmente e foi belo confirmar isto ouvindo todas essas pessoas”.


A escolha dos entrevistados dividiu-se em dois grupos: o dos familiares, como os filhos, que foram os co-produtores do filme, pessoas que trabalharam com Leone - como o compositor Ennio Morricone, ouvido poucos meses antes de sua morte, em julho de 2020 - e pessoas que se sabia terem conexões de estima por seu trabalho, caso de Clint Eastwood, Martin Scorsese, Quentin Tarantino, Steven Spielberg e também Frank Miller, Damien Chazelle e Darren Aronofsky, além do sino-vietnamita Tsui Hark e da atriz Jennifer Connelly.
Uma das melhores observações no filme sobre a obra de Leone, aliás, vem de Chazelle, que comenta como os filmes de Leone parecem atemporais e contemporâneos. Zippel concorda: “É como assistir a um filme de Chaplin, aos melhores filmes de Orson Welles, a certos filmes de Fellini e de Bergman e talvez alguns de Truffaut. Mas não existem tantos diretores assim, que são atemporais. Outra qualidade é que inventaram alguma coisa, como se seus filmes fossem uma fonte de água fresca à qual todos nós voltamos continuamente, por alguma necessidade. O fato é que há filmes que não envelhecem nunca”.
Na Itália, ainda hoje, segundo Zippel, a obra de Leone continua sendo extremamente admirada. “Ele é um diretor muito amado, muito respeitado, um símbolo de um momento particularmente grandioso em todos os níveis do nosso cinema. Talvez o diretor mais difícil de imitar pela ambição dos filmes que fazia. Na Itália, o diretor mais imitado, nem que apenas como sugestão, é Fellini. (Paolo) Sorrentino tomou isso em mãos, e o fez com grande bravura, não apenas ele, mas Nanni Moretti e tantos que, de alguma maneira, o repropuseram. Mas o fato é que na Itália não se fazem mais filmes como os de Leone há muito tempo. Talvez o único diretor que, como ambição e capacidade técnica, fez filmes à la Sergio Leone foi Giuseppe Tornatore, como A Lenda do Pianista do Mar e Baaria - A Porta do Vento, enfim, filmes grandiosos em sua ambição. Mas, de todo modo, Leone é muito amado. Quando se exibem seus filmes na televisão ou nos cinemas italianos, sempre obtêm grande sucesso”.
Esta identificação não deixa de ser curiosa, afinal, os filmes de Leone, como a chamada “trilogia dos dólares” (Por um Punhado de Dólares, Por uns Dólares a Mais e Três Homens em Conflito), além de Era uma Vez no Oeste e Era uma vez na América, não se terem ambientado na Itália. Para Zippel, no entanto, nos filmes de Leone “há muito de italiano, sejam os rostos, sejam os comportamentos, apesar de ambientados em outros lugares”. Essa localização, afinal, é também mítica, tendo a ver tanto com a formação de Leone como com sua postura pessoal diante da ficção e da fábula. Zippel observa que “Leone cresceu no período da II Guerra, com esta enorme fascinação pelo cinema norte-americano - provavelmente, viu todos os faroestes clássicos naquela época. Depois, tem uma coisa que nem todos sabem, que no início de sua carreira, em Roma, foi assistente de direção das mais importantes produções norte-americanas filmadas na Itália. Há mesmo a lenda de que a sequência da corrida de bigas de Ben-Hur teria sido, na verdade, dirigida por ele”.
Um detalhe do estilo de Leone é como conseguiu “inserir o seu modo de ver as coisas, colocando tanto de sua natureza não só como italiano, como romano, além de suas experiências pessoais de infância, vivendo a guerra”. Outro fator importante, para Zippel, é como Leone se reportou aos traumas do pai, o cineasta Vincenzo Leone, em sua obra. “Penso que em Era uma vez na América há tanto do Sergio menino quanto de seu pai, que a certa altura foi marginalizado pelo regime fascista. Como Spielberg em Os Fabelmans, Leone foi muito eficiente em traduzir a própria vida pessoal, os próprios traumas, em filmes extraordinários”.
Ao todo, a realização de Sergio Leone - O Homem que Inventou a América consumiu quatro anos. O projeto foi iniciado em 2019, ficou interrompido cerca de dois anos por conta da covid 19 e finalmente foi concluído em julho de 2022. Foi exibido tanto nos cinemas italianos como na emissora Sky, que o produziu, e ainda não tem distribuição acertada no Brasil.
O diretor Francesco Zippel no momento se ocupa da produção de outro documentário, este sobre o ator Gian Maria Volonté - “que foi um modelo para tantos atores”, como define - quanto do roteiro daquele que será seu primeiro projeto na ficção - que ele acredita poderá estar concluído no próximo ano.
