Bruno Safadi ressignifica o mito de Lilith em seu novo longa
- Por Alysson Oliveira
- 13/03/2024
- Tempo de leitura 3 minutos

Isabél Zuua, em cena de Lilith (Crédito: Divulgação)
“Numa cultura monoteísta, marcada pela dualidade, Lilith significa o outro lado. O Homem é associado a Deus, ao Sol, ao Dia, enquanto ela é a escuridão, a noite, as águas profundas”. Foi a partir desse arquétipo que o diretor e roteirista Bruno Safadi começou a pensar seu novo longa,Lilith, no qual a atriz portuguesa Isabél Zuua interpreta a personagem-título, uma figura mitológica cujos significados têm se transformado ao longo dos séculos.
No passado, ela já foi uma figura moralizante, trazendo o mal e a discórdia. Atualmente, se tornou o símbolo da rebeldia que ataca o patriarcado. Safadi conta que, desde o início, queria trazer a história dessa mulher, a primeira esposa de Adão, que se rebelou e foi deixada de lado em favor de Eva, uma figura mais submissa.
“A ideia do filme era fazer um recorte do tempo de Lilith com Adão e buscar um novo arquétipo, mais em sintonia com o nosso presente, pensando nos papeis de gênero, nas representações e perspectivas”, conta o diretor, que assina o roteiro com Fábio Andrade e Vera Egito.
Nesse sentido, a Lilith do longa busca mais uma união e a igualdade com Adão (Renato Goes) e Eva (Nash Laila) ao invés da solidão de rebelada. Para Safadi, ela busca se unir com Eva, dar a mão em uma força conjunta. “A partir daí, elas convidam Adão a comer a maçã, mas, até hoje, o homem brasileiro não comeu esse fruto, pois isso significaria perder seu lugar de privilégio.”
A presença de Vera Egito no roteiro foi uma oportunidade de trazer a visão feminina à história, permitindo ao próprio Safadi aprender sobre isso. “A parceria com profissionais femininas era fundamental em todas as áreas. A Vera contribuiu muito com o roteiro, mas também validou coisas que eu já havia escrito.”
Para o papel principal, o diretor havia pensado em trazer uma atriz portuguesa. Mas quando viu As Boas Maneiras, de Marco Dutra e Juliana Rojas, decidiu que Isabél Zuaa era perfeita para a personagem. “Lilith é um filme com muito tempo de maturação. Comecei a pensar nele em 2012, então passou por vários processos. Num desses, percebi que era mais revolucionário trazer uma mulher para o protagonismo.”
Já a fotografia, assinada por Lucas Barbi, enfrentou enormes desafios. O longa foi filmado num lugar montanhoso, próximo à cidade do Rio de Janeiro, entre Nova Friburgo e Teresópolis, mas de difícil acesso. “Só chegávamos lá num carro 4x4, não tinha nem como levar equipamentos pesados para filmar à noite. E, como boa parte do filme se passa à noite, nosso recurso foi usar ‘a noite americana’, filmando de dia, mas usando filtros para parecer noite, e o Sol se transformou em Lua.”
Safadi vê em seu Lilith um filme em diálogo com o Brasil contemporâneo, marcado pela polarização. Ao resgatar essa figura e seus significados, dá-se voz a uma mulher apagada pela história. “O filme é uma ode ao feminino e uma busca pessoal de aprendizado enquanto homem branco. Estruturalmente, nós homens temos muito que aprender e não estou fora deste esquadro.”
