19/07/2026

"Mais pesado é o céu" resgata um país em escombros

Petrus Cariry, no set de Mais Pesado é o Céu (Crédito: Divulgação)

Mais pesado é o céu é um filme de fantasmagorias. Das imagens ao desenho de som, passando pelos personagens e a trama, tudo causa uma sensação no sentido de desfamiliarizar aquilo que conhecemos. O catalisador para a história dos dois personagens centrais é o Açude Castanhão, uma grande represa de água doce no Ceará cuja construção foi concluída em 2002, cobrindo a cidade de Jaguaribara.

Antônio (Matheus Nachtergaele) e Teresa (Ana Luiza Rios) se conhecem às margens dessa represa. Ambos sem rumo na vida. Ela acaba de encontrar um bebê, que toma como seu, e diz a todos que é mãe dele. Ela pensa em procurar emprego em Fortaleza, e ele acaba de voltar de São Paulo, rumo a uma cidade onde um amigo trabalha com a pesca de caranguejos. Duas almas perdidas que acabam se aproximando por conta do acaso.

Petrus Cariry, responsável pela direção de fotografia e a direção (ambas premiadas no Festival de Gramado do ano passado), conta que o longa é uma alegoria sobre o Brasil, um país que ficou muito tempo sem rumo. “Os dois personagens são pessoas sem expectativas, perdidas. Quando querem voltar para sua cidade, mas não podem pois essa está debaixo da água. E isso é como o país submerso no caos e destruição no governo de Bolsonaro.”

Cariry assina o roteiro com seu pai, o cineasta Rosemberg Cariry e Firmino Holanda, e vê no filme também um retrato do Nordeste contemporâneo, com elementos que permanecem desde sempre, como o patriarcado e a violência. Ainda assim, ele aponta que, nesses personagens e suas trajetórias, há um sentido positivo. “O final é um tanto surpreendente, e as pessoas podem achar assustador até. Mas eu vejo de forma positiva, é um sentido de mudança. Do jeito que estava não podia ficar.”

O progresso, diz o filme, cobra um preço bem alto, e este é a exclusão social. A fantasmagoria que ronda o filme é um indício disso. O excelente trabalho de som, assinado por Érico Paiva e Danilo Carvalho, traz ruídos de água o tempo todo, mesmo quando não aparece a represa, lembrando-nos de que há uma cidade-fantasma enterrada ali debaixo.

“Ao retratar algumas características do Nordeste, paisagens, costumes e linguagem, a história ganha uma identidade própria, demarca um lugar, embora o asfalto seja um “não lugar”. O Nordeste brasileiro é uma região marcada por desigualdades sociais e
econômicas profundas, mas, ao mesmo tempo, tem vigor criativo como forma de resistência às adversidades. Acredito que, ao ambientar a história nesse cenário, é possível explorar, para além da grandeza e aspereza da paisagem, as realidades sociais da região, destacando a pobreza e o desalento das personagens. Vive-se de forma contraditória um fluxo de crescimento econômico”, complementa o cineasta.


Meio fada, meio bruxa


Ana Luiza Rios e Silvia Buarque em cena do longa (Crédito: Divulgação)

Silvia Buarque faz uma personagem coadjuvante, mas central, na trajetória de Antônio e Teresa no longa. Ela é Fátima, dona de uma pensão-restaurante que os protagonistas encontram pelo caminho. É ela quem dá leite para o bebê faminto depois de horas sem se alimentar. Também acolhe os outros dois e, ao contrário deles, é muito mais pragmática, dando conselhos preciosos.

“Para mim, Fátima é uma das personagens mais difíceis que já fiz porque ela é misteriosa e solitária. Meio fada, meio bruxa. Meio bruxa, por ter um suspense sobre a relação dela com a criança, e meio fada porque ela abre os caminhos para o casal protagonista”, explica a atriz.

Silvia conta que os Cariry são sua família cinematográfica. Ela já fez dois filmes como Rosemberg (Os pobres diabos e Escravos de Jó), e agora este com Petrus, e, com esses trabalhos todos, tornou-se muito admiradora deles e de Bárbara, irmã de Petrus, que é cineasta e produtora, inclusive de Mais pesado é o céu.

A atriz conta que nunca tinha ido ao sertão nordestino e que chegar lá uns dias antes da filmagem foi fundamental para se ambientar e criar essa personagem. “Ela é uma mulher que eu acho que tem muito a ver com o cinema do Petrus, que é um cinema de grande sutileza, muito sensorial, sem uma psicologia óbvia. Fátima é de um mundo
quase sobrenatural e foi, a princípio, indecifrável para mim. Depois eu criei os meus próprios bastidores e uma história de solidão e dureza para ela.”