Gustavo Galvão aborda o choque de realidade sobre a fama em novo filme
- Por Alysson Oliveira
- 13/11/2024
- Tempo de leitura 6 minutos
Gustavo Galvão, diretor de O vazio de domingo à tarde (Crédito: Diego Bresani/Divulgação)
O cineasta, roteirista e produtor Gustavo Galvão tem mais de 10 filmes em sua filmografia, entre longas e curtas, e conhece a indústria da cultura por dentro, por conta de seu trabalho com cinema há mais de 20 anos. Em O vazio de domingo à tarde, ele traz um olhar bastante particular sobre esse universo pela perspectiva de duas mulheres: uma atriz cuja carreira enfrenta uma crise e uma adolescente que sonha com a fama, acreditando no falso glamour vendido pelas redes sociais.
Nessa entrevista, o diretor comenta o processo criativo do longa, que foi gestado por quase uma década. Nesse período, teve 19 versões de roteiro diferentes, acompanhando a velocidade com que a internet se tornou o objeto dos desejos de aspirantes à fama, mais do que a televisão. Ele destaca também a participação de sua companheira, a cineasta Cristiane Oliveira, das atrizes e das mulheres da equipe do filme e como isto foi fundamental para a construção do ponto de vista feminino no longa.
Como começou o filme ?
O projeto nasceu em 2014. Eu estava interessado em dois temas muito conectados entre si, por mais que não se relacionem numa leitura apressada. Por um lado, pensava em falar sobre como os atores se relacionam com a própria imagem, o que evoluiu para uma reflexão sobre a própria natureza das imagens que consumimos hoje. Por outro, já naquele momento, reparava como os jovens se expunham nas redes e como brincavam com sua imagem a cada post. Só que, naquela altura, a ideia era investir numa trama mais cômica. Quando mergulhei nesses universos e a história ganhou mais profundidade, a trama ganhou um tom fortemente dramático.
Que tipo de pesquisa você fez para o filme?
Eu e a minha parceira, no roteiro e na vida, Cristiane Oliveira, trabalhamos com os mais diversos tipos de atores em mais de 20 anos de carreira. Somos muito próximos de alguns deles e, com o tempo, acabamos conhecendo os desafios que eles enfrentam na profissão. Pior: ouvimos deles histórias de abusos morais e psicológicos que são naturalizados em nome da arte, como se tudo fosse permitido por causa do exercício da atuação. Essa foi a grande inspiração por trás do filme como ele é hoje. A vivência desses atores orientou a escritura do roteiro de forma decisiva.
O roteiro é escrito junto com a Cristiane Oliveira, e o longa trata bastante da posição da mulher na indústria do entretenimento. Como ela contribuiu para o filme, sendo ela também uma cineasta experiente?
Ela e eu respiramos cinema. Quando um dos dois faz um filme, o outro faz junto e é assim em todas as etapas. Não poderia ser diferente em O Vazio de Domingo à Tarde. Aprendo muito com a visão de mundo dela. Difícil resumir a participação dela em poucas palavras, mas uma coisa é certa: esse filme não seria possível sem a perspectiva feminina na sua elaboração. E estendo os méritos a outras mulheres imprescindíveis no processo criativo, como Valeria Verba (diretora de arte), Daniela Marinho (produtora executiva), Vanise
Carneiro (preparadora de elenco), e as atrizes, em particular Gisele Frade, Ana Eliza Chaves e Larissa Mauro.
Gisele Frade, como uma atriz em crise no longa (Crédito: Divulgação)
Não é raro atores e atrizes reclamarem que muitas produções de cinema e TV escolhem elencos por conta do número de seguidores, e esse é um dos temas em que seu filme toca. Como foi trazer essa realidade para a tela?
Foi desafiador tratar desse universo da fama e da superexposição nas redes e o motivo é um só: as dinâmicas sociais mudaram radicalmente de 2014 pra cá. Quando começamos o projeto, a TV reinava absoluta no cenário brasileiro, era o ponto mais alto da indústria do entretenimento. Ao longo dos anos 2010, o poder mudou de mãos. Ele passou para as novas mídias e presenciamos a explosão da “cultura do like”. Os likes empoderam e a busca pelos likes viraram a razão de ser de uma geração. Precisamos acompanhar essas mudanças no roteiro, não é por acaso que tivemos 19 versões em oito anos. O ponto de partida do projeto, porém, continuou o mesmo. O que está por trás da vida de glamour versus a idealização da fama, representados por Mônica e Kelly, são a base e todo o resto deriva disso – inclusive subtemas menos óbvios presentes no filme, como o etarismo e a profusão de cenas captadas com celular.
Nos papeis principais, você tem uma atriz experiente, Gisele Frade, e outra estreante, Ana Eliza Chaves. Como foi construir o equilíbrio entre as atuações?
Curiosa essa pergunta, porque a atriz “experiente” esteve, na verdade, longe dos sets por 18 anos. O filme foi como um recomeço para Gisele Frade, e foi lindo testemunhar isso. Por mais que ela tenha o instinto, o dom natural para a atuação, ela precisou lidar com a mesma ansiedade e com as mesmas dúvidas que Ana Eliza Chaves. Esse foi o primeiro longa-metragem de ambas e foi um processo extenso, que começou em 2019 e atravessou toda a pandemia, culminando com a filmagem em 2022. O trabalho se deu exatamente da mesma forma com cada uma delas: trocas de referências diversas, muita conversa online, muitos ensaios – comigo e com a preparadora de elenco Vanise Carneiro.
O filme foi exibido em festivais no Brasil e exterior. Como foi tem sido a recepção?
É importante comentar que pude participar pessoalmente de quase todos os festivais por onde o filme passou e em todos os lugares, sem exceção, o filme causou um forte impacto no público. A cada exibição seguida de debate, pude sentir a eletricidade na plateia. Claro que isso é motivado pelo tema, os abusos e demais formas de violência que estão no cerne da indústria do entretenimento, mas esse aspecto traz duas leituras possíveis: existe a perspectiva dos atores, que podem se identificar tanto com Kelly (Ana Eliza) quanto com Mônica (Gisele), e existe a perspectiva de quem não tem ideia de como funciona essa indústria. De um jeito ou de outro, o choque de realidade é grande.
