Allan Deberton homenageia anos 1980 em novo filme
- Por Alysson Oliveira
- 12/03/2025
- Tempo de leitura 4 minutos
Allan Deberton, ao centro, entre os atores Vinicius Teixeira e Gabriel Fuentes (Crédito: Divulgação)
Em seu primeiro longa, o premiado e amadoPacarrete (2019), o cineasta cearense Allan Deberton flertou com o gênero musical – uma de suas grandes influências e paixões no cinema. Mas foi apenas no segundo longa, O Melhor Amigo, que ele abraçou a música e a dança na tela. Entretanto, o filme, que parte do curta homônimo do diretor, de 2013, não foi pensado inicialmente como um musical.
“Não seria muito sensato fazer”, afirma Deberton em entrevista ao Cineweb. “Musical é um gênero caro, é mais complexo de filmar. E tem também os direitos das músicas, que é algo caro. Mas estava trabalhando com a equipe no roteiro, e, quando percebi, já tinha colocado um monte de música em cena, e percebi que estava transformando o filme num musical”.
O longa, que desenvolve e transforma a história do curta, é protagonizado por Lucas (Vinicius Teixeira), que depois de um desentendimento com o namorado, Martin (Leo Bahia), viaja para Canoa Quebrada, onde reencontra um antigo amigo de faculdade, Felipe (Gabriel Fuentes). E, a partir disso, seu coração fica ainda mais balançado.
Não é apenas a trama que mudou do curta para o longa. Deberton, que assina o roteiro com Raul Damasceno, Otavio Chamorro e Pedro Karam, conta que o filme original foi muito bem recebido na época. Mas de lá para agora aconteceram mudanças sociais, e nesse novo longa tentou ser mais inclusivo e mais colorido.
“Meu maior interesse foi ressignificar o curta para a público atual. Eu quis trazer mais cores, afinal, musical é mais colorido, mais escapista, além de também contar com novas personagens feitas por pessoas trans, drag queens, lésbicas. O longa me deu essa oportunidade de ampliar, e aproximar o filme ainda mais do cotidiano da comunidade LGBTQIAP+”
Vinicius Teixeira em cena de O Melhor Amigo (Crédito: Divulgação)
Nascido em Russas, no interior do Ceará, que, aliás, foi cenário de Pacarrete, Deberton hoje mora em Fortaleza. Na parede de seu escritório, de onde dá a entrevista online, há um pôster de Pulp Fiction – Tempos de Violência e outro de Um Estranho no Lago, um filme queer francês. Dois filmes bem diferentes daqueles que marcaam sua formação cinéfila, conforme confessa, que foi mesmo com a Sessão da Tarde dos anos de 1980 e 1990.
São referências musicais dessa época que também animam o filme, como Amante Profissional, Doce Mel e Escrito nas Estrelas. A seleção da trilha partiu do gosto do próprio diretor e do que marcou sua geração. “Eu brinco que o filme é uma espécie de Mamma Mia gravado no Nordeste. O filme ainda tem a cantora Gretchen cantando dois clássicos da sua carreira, o Melô do Piripipi e Conga Conga”. A lembrança dos anos de 1980, no entanto, não está apenas na trilha. No elenco, traz dois ícones da televisão da época: os atores Claudia Ohana e Mateus Carrieri.
Para os papeis principais, Deberton buscou atores do teatro musical, ou seja, que poderiam cantar além de atuar. Quando o diretor assistiu, anos atrás, ao The Book of Mormon, no teatro, no Rio de Janeiro, teve certeza de que Teixeira e Bahia eram os atores que procurava. Fuentes, no entanto, era o único sem experiência em musical, mas se sai muito bem na tela. “Ele se entregou muito ao papel, fez muita preparação vocal e da coreografia.”
Prestes a lançar seu segundo longa, Deberton não nega que sentiu pressão por conta do sucesso de Pacarrete. O novo O Melhor Amigo é um projeto antigo do diretor, que o planejava desde 2018, mesmo antes de fazer o filme com Marcélia Cartaxo, que lhe rendeu inúmeros prêmios.
“Apesar da ansiedade em fazer o filme e ver como o público vai reagir, cada projeto é único. Eu preciso buscar uma linguagem própria, uma nova ocupação de espaço para contar a história”, destaca o diretor, que há pouco terminou de rodar Feito Pipa, com Lázaro Ramos e Teca Pereira.
