02/07/2026

Miguel Gomes e a queda e ascensão de impérios em “Grand Tour”

O Grand Tour de Miguel Gomes pela Ásia (Crédito: Mubi)

Impérios não são estranhos à obra do cineasta português Miguel Gomes. Tabu e a trilogia As Mil E Uma Noites, por exemplo, investigam histórias de ascensão e decadência em contextos coloniais do passado e do presente. Ele diz em entrevista ao Cineweb: “Um império em ascensão é mais assustador do que um em queda”.

Bem, Grand Tour, seu mais recente trabalho, que lhe rendeu o prêmio de direção em Cannes 2024, e que chega à Mubi nessa sexta (18/4), deixa isso claro. O filme se passa num mundo em transformação, e o que vai sair dali ainda é incerto. A viagem dos personagens do filme por diversos países da Ásia e marca um momento de transição na qual as jornadas pessoais se mesclam com as históricas. Há o momento documental e o ficcional dentro do filme.

A parte documental foi filmada antes mesmo da produção ser financiada. Assim, a narrativa de Grand Tour pode ser construída já tendo em mente essas imagens feitas na Ásia. Depois as cenas ficcionais foram feitas num estúdio e contam a história de um casal.

O ano é 1918, e Edward (Gonçalo Waddington), funcionário do governo britânico, deixa Rangum, em Mianmar, no dia em que sua noiva, Molly (Crista Alfaiate), chega à cidade para que eles se casem. Enquanto ele pula de um lugar a outro, ele ainda recebe insistentemente os telegramas dela. De Singapura, vai para Bangcoc, Saigon, Manila, Osaka, e Xangai, sempre fugindo dela.

O globetrotting, ou melhor asiatrotting, amplia os cenários e possibilidades para Gomes investigar dinâmicas de colonização e descolonização – temas também caros ao mundo contemporâneo, numa era de hegemonia do capital, ou, como diria o economista político estadunidense Francis Fukuyama, o “fim da história.”

“Filmamos numa época de covid, e muitas coisas tiveram de ser adaptadas ou mesmo adiadas por conta do aumento dos casos de pandemia. Mas nada disso teve impacto na forma como o longa tinha sido imaginado”, conta. O roteiro, assinado por ele, sua companheira de trabalho e da vida Maureen Fazendeiro, e Telmo Churro, parte de uma história de viagem do escritor britânico Somerset Maugham, que relata sobre um funcionário inglês que trabalha em Mianmar, mas quando fica sabendo que sua noiva está para chegar ali, entra em pânico e foge, e a situação se repete por várias cidades. “É a história de um covarde no meio de um relato de viagem”, diverte-se o diretor.


Miguel Gomes, em filmagens (Crédito: Patricia Neves Gomes/Mubi)

Gomes confessa que não faz planos meticulosos para as filmagens: “Dizem que um problema meu é contar demais com a sorte, mas não sei fazer de outro jeito. Não sou de controlar, sou mais um cineasta de reagir, e acaba sendo um ganho para um filme trabalhar dessa forma”.

Transitando entre o colorido e o preto e branco, o longa tem fotografia assinada pelo tailandês Sayombhu Mukdeeprom, o português Ruy Poças, e o chinês Guo Liang, um trio que evoca imagens e atmosferas de outros cineastas como Jia Zhang-ke e Apichatpong Weerasethakul (com quem Mukdeeprom trabalhou diversas vezes).

Para Gomes, o filme trabalha numa dialética entre cinema e realidade, ao contar, separadamente, a história de Edward e, depois, a de Molly. “Começamos a ver o filme sem saber quem é Molly, porque o noivo foge dela. É feia? É insuportável? Quando chega a parte dela, já temos mais informações do que ela, e isso nos coloca numa posição completamente diferente. E, ao final, já não é mais a mesma Molly.”

Agora, Gomes trabalha na divulgação e lançamento de Grand Tour, mas conta que seu próximo projeto será a adaptação de Os Sertões, de Euclides da Cunha, um filme que planeja fazer desde 2016, depois de realizar As Mil e Uma Noites. “Já estava trabalhando nessa adaptação, mas o financiamento se complicou com as mudanças políticas no Brasil.”

O cineasta chegou a acreditar, durante o governo de Jair Bolsonaro, que o filme jamais seria feito. “O prêmio em Cannes ajudou a revitalizar o filme, e o momento político no Brasil é mais favorável a fazer filmes no país, então meu próximo projeto será essa adaptação. Já está tudo encaminhado, não tem como voltar atrás. A ideia é filmar em 2026.”