Gustavo Galvão retrata um Brasil em apocalipse com seu cinema
- Por Alysson Oliveira
- 06/05/2025
- Tempo de leitura 6 minutos
Gustavo Galvão faz um cinema que não está alheio ao mundo (Crédito: Divulgação/Diego Bresani)
O Brasil vivia um momento trágico no final de 2020, marcado pela pandemia e o governo da extrema-direita, quando o cineasta Gustavo Galvão começou a pensar num filme sobre o fim do mundo. Rodado em esquema de guerrilha, com um orçamento menor do que um curta, Inventário de Imagens Perdidas é um filme simples e, ao mesmo tempo, complexo em sua figuração de um mundo destruído. O longa chega aos cinemas nessa quinta (08/05).
Da fotografia bastante elaborada, assinada pelo premiado Bruno Polidoro, às excelentes atuações, o longa causa um estranhamento que permite ao público observar o passado recente e o presente por uma perspectiva diferente, numa ficção que imagina uma revolução fundamentalista. Nessa entrevista ao Cineweb, Galvão fala sobre o processo da produção do longa.
Como começou o projeto do filme?
O filme foi concebido entre o final de 2020 e o início de 2021. Surgiu quase como um grito de socorro, mas também como instrumento de reflexão sobre aquele momento trágico da história brasileira. Tinha algumas ideias e uma profusão de sentimentos que precisava colocar para fora, mas nem pensava nisso àquela altura, por causa da pandemia e por causa de outro projeto cuja contratação estava travada na Ancine. Conversava com um amigo sobre esse contexto e ele me disse: “Por quê você não faz disso tudo um filme? Eu ajudo você”. Ele deu um pequeno suporte financeiro, com a condição de que eu pagasse de volta se um dia o filme rendesse alguma coisa. O orçamento é menor do que um curta e só poderíamos arcar com cinco dias de filmagem, mas eu precisava me mexer e sabia de outros amigos que também precisavam. Em questão de dias, conectei as ideias e iniciamos a pré-produção. O Inventário... salvou minha vida.
O que você acha que o filme tem a dizer para o Brasil de hoje?
O filme foi rodado em 2021 e acabou ganhando novos significados com o tempo. Se no início de 2020, quando nasceu, ele poderia ser considerado um tanto pessimista, agora são frequentes os comentários no sentido de que ele é muito preciso ao falar do momento em que vivemos. Creio que isso transcende quem está no poder. O Brasil de hoje está tomado por ideias extremistas e fundamentalistas em sua base, coisas que nos preocupavam em 2021 e parecem mais presentes no dia a dia. Tais ideias estão em discursos que deveriam ser de amor, mas que, na verdade, são de ódio. O ódio que ameaça as personagens é cultivado todo dia, nas redes e nas ruas. Isso não é algo novo. O que me espanta, porém, é como normalizamos e aceitamos isso.
Como foi o trabalho com o Bruno Polidoro no sentido de construir o visual do filme?
Quando convidei o Bruno, já tinha o conceito visual definido. Imaginava as externas num tom monocromático, que não fosse o preto-e-branco clássico, e as internas coloridas, iluminadas só pelos projetores da casa. Ele entrou no projeto e agregou muito mais: sua sensibilidade, o olhar, o conceito de um espaço parado no tempo, em um ponto indefinido entre o dia e a noite, o uso da luz de um ou dois abajures mesmo durante o dia para reforçar esse conceito... Sem exagero, trocamos centenas de e-mails e de referências antes de pisar no set, nos alimentamos de ideias e isso permitiu que nos libertássemos em busca de algo próprio. Foi um trabalho lindo, o Bruno tem muito repertório. Mas também há imagens captadas pela atriz, Maria Galant, e tivemos um trabalho cuidadoso na pós com o colorista Rogério Moraes. É uma soma de talentos.
O filme explora as possibilidades da arte, em especial o cinema, diante da tragédia histórico-social. Como você vê isso?
Não consigo imaginar um cinema que esteja alheio ao mundo. E no Brasil daquele momento, no início de 2021, não tinha como não ser político. O filme vem dessa percepção somada ao desejo de entender o papel do cinema num contexto em que tudo parecia ruir. O cinema já não dita as tendências, e isso não é um problema. O problema é quando o cinema vira refém de tendências de consumo e de entretenimento tão fugazes quanto um sabonete. As possibilidades do cinema como arte são infinitas, desde que ele seja livre.
O cinema como ferramenta de investigação da realidade (Crédito: Bruno Polidoro/Divulgação)
Há também uma discussão entre personagens de duas gerações sobre o cinema e a imagem. Como foi trabalhar isso e torná-lo acessível?
As discussões entre Maria e Roberto acontecem na minha cabeça o tempo todo, são questões que eu carrego comigo há muito tempo. Tenho o privilégio de morar com uma grande cineasta de quem sou fã, Cristiane Oliveira, então é natural que um fio que puxamos hoje vire um tema ainda mais complexo amanhã. Não foi difícil colocar tudo isso para fora, mas teve um trabalho intenso de montagem posteriormente, a cargo da própria Cristiane e de sua colaboradora, Tula Anagnostopoulos, para transformar esse conteúdo todo em cinema.
Como foi o trabalho com um elenco tão enxuto? O quanto eles colaboraram com a criação das personagens?
São três atores em cena, mas os três se multiplicaram de tal forma no processo desse filme que nunca pensei no elenco como enxuto. Maria, Roberto e Larissa me surpreendiam o tempo todo, na gravação dos offs (que aconteceu antes da filmagem), no set e na pós-produção, quando eu ainda pedia para Maria e Larissa áudios para agregar ao filme. E há um quarto elemento, que é a locução do Kiko Ferraz. Ele é fantástico! Os quatro contribuíram muito na construção de seus personagens e a premissa era essa. Fomos para o set com um roteiro mínimo para que o filme brotasse espontaneamente da colaboração mútua entre os atores e os técnicos.
O filme abre com uma citação de Sylvia Plath, uma escritora e poeta cuja obra é muito marcada pela investigação de vidas interiores. Como ela entra como inspiração aqui?
O filme tem abordagens bem distintas entre as cenas externas e as internas na casa do Roberto, o ex-cineasta. Nas conversas com Bruno Polidoro, quando decidimos situar essas internas numa espécie de limbo entre o dia e a noite, lembramos desse trecho de A Redoma de Vidro e muitas portas se abriram para nós. Ganhamos liberdade para explorar a casa como personagem. O som uterino que envolve Maria surgiu dessa percepção. E a casa é uma representação da intimidade de Roberto. De certa maneira, tanto o livro de Sylvia Plath quanto o filme mergulham no íntimo de personagens prestes a explodir.
