05/06/2026

Documentário “Memórias de um Esclerosado” usa o cinema para resignificar a vida

Rafael Corrêa e Thais Fernandes (Crédito: Isidoro B. Guggiana/Divulgação)

Quando criança, o cartunista gaúcho Rafael Corrêa tinha vontade de ser cineasta. “Queria fazer filmes de aventura e ficção científica, jamais imaginei que meu primeiro filme seria sobre mim mesmo”, conta em entrevista ao Cineweb.

No documentário Memórias de um Esclerosado, dirigido em parceria com Thais Fernandes, ele se coloca como diretor e tema, abordando sua experiência de viver com esclerose múltipla, diagnosticada em 2010. O longa acompanha seu cotidiano, seus obstáculos e lutas, as vitórias, alegrias e as dificuldades. Muitas das cenas são animação são feitas a partir dos desenhos do próprio Rafael, para quem “ver os personagens ganhando vida foi mágico.”

Thais, que é uma documentarista experiente, foi uma figura funamental para a existência do filme. “Foi minha primeira experiência com cinema, tenho consciência que não poderia dirigir esse filme sozinho. Ela trouxe sua experiência de documentarista e eu vim com a parte da ficção e das animações. Essa mescla de linguagens é que deixa o filme mais potente”, comenta Rafael.

Thais, por sua vez, confessa que quando o cartunista lançou os quadrinhos Memórias de um Esclerosado, em 2015, na hora ela imaginou como a obra daria um filme. “Mandamos a ideia para alguns editais de desenvolvimento e os ‘nãos’ foram bons, porque a gente se obriga a voltar para a ideia e tentar entender o que precisa ser melhorado, o que tem que sair e o que vale seguir teimando em manter. Um marco importante foi o laboratório de projetos do DOCSP, de que a gente participou em 2018, e teve como tutor o cineasta argentino Andrés Di Tella. Várias ideias se alinharam durante o processo desse laboratório, tanto que em 2019 a gente acabou ganhando o edital do Itaú Rumos, que foi o que nos deu a oportunidade de fazer o filme.”

O longa trata de um tema espinhoso e sensível de maneira respeitosa mas também buscando uma leveza no humor com que Rafael enfrenta as dificuldades. Como documentário, é muito bem construído em sua capacidade de dar a dimensão completa de quem é Rafael e como ele lida com sua condição clínica. E o que sobressai é a sinceridade com que o longa lida com essas questões.

“Ainda que em documentário a gente construa a narrativa a partir de acordos constantemente revisitados com as pessoas que estão na frente da câmera, no Memórias..., o Rafa é também autor. É a partir dos quadrinhos que o filme surge, então organizar vontades eu acho que foi o grande desafio desse projeto. Foi complexo, porque temos referências e vivências profissionais muito diferentes. Talvez se eu tivesse dirigido o filme sozinha, teria perdido muito do humor e das sacadas ácidas do Rafa, que consegue rir dele e da vida de um jeito muito especial. Talvez se ele tivesse feito esse filme sozinho, não seria possível perceber outras nuances - coisas que só um olhar de fora percebe”, explica Thais.


As ilustrações de Rafael ganham vida em animações no filme (Crédito: Vulcana Cinema/Divulgação)

Já Rafael conta, com seu típico bom humor, que em certo momento se questionou sobre o filme. “Teve uma hora que eu pensei: o que que eu fui inventar de fazer? Mas ver o filme finalizado compensa todas as dificuldades. Pra mim foi como fazer terapia, eu precisava realizar esse filme, assim como preciso contar essa história em quadrinhos também. É um processo que me ajuda a me entender como pessoa e artista.”

O forte investimento emocional no longa, no entanto, não é apenas dele. A diretora também admite o peso de fazer um documentário. “Cristalizar um momento da vida de alguém na tela é uma responsabilidade imensa, e é preciso estar muito atento e presente no caminho. Eu sou muito grata ao Rafa por ter me deixado fazer parte deste projeto, porque com certeza eu sou uma documentarista e uma pessoa diferente, e espero que melhor, depois desse projeto. A construção coletiva é sempre mais difícil, mas acredito que, para quem está disposto, o aprendizado é enorme.”

Rafael vê no filme a possibilidade de “falar sobre doença mas também trazer uma mensagem de esperança e humor. É sobre vontade de viver e ressignificar a vida com arte.” Thais aponta que o documentário, como qualquer obra, chega a pessoas de formas diferentes, mas destaca a força da jornada do amigo. “Memórias de um Esclerosado, para mim, é um filme sobre mundos possíveis. E é mais potente ainda porque tem como personagem central uma pessoa real, não um personagem fictício. Mais do que lançar luz sobre a esclerose múltipla — uma doença ainda pouco conhecida do grande público —, acredito que o filme mostra que, através da arte, podemos ser muitas coisas.”