Luiza Botelho prepara filme sobre imigrante brasileiro nos EUA
- Por Alysson Oliveira
- 04/06/2025
- Tempo de leitura 4 minutos
Luiza Botelho e seu pai e mentor, Joel Zito Araújo (Crédito: Divulgação)
Desde pequena, a cineasta e produtora carioca Luiza Botelho vive próxima do cinema. Filha do diretor Joel Zito Araújo, ela cresceu com os filmes do pai e também com os amigos e amigas dele. Entre essas amigas, estava Léa Garcia, que morreu em agosto de 2023. No ano anterior, no entanto, protagonizou o curta Bela Lx-404, escrito e dirigido por Luiza.
“Foi a última participação dela num filme, e uma honra muito grande poder trabalhar com a Léa, que abraçou o projeto desde quando contei para ela”, explica Luiza em entrevista ao Cineweb. O curta se passa no futuro, no qual as pessoas se relacionam com robôs sexuais. Um cliente de uma empresa compra uma destas, e, acidentalmente, não enviam a jovenzinha que havia encomendado, mas uma mulher mais velha, interpretada por Léa. Enquanto espera a troca, ele mantém um relacionamento com ela.
“Léa morreu com 89 anos e era muito ativa. Enquanto rodávamos o curta, ela também fazia uma peça. Antes disso, pegou covid. Seu medo era não poder seguir com os compromissos, mas deu tudo certo.
Ela pode colher os frutos de sua carreira, mas a trajetória dela mostra o quanto vivemos com o racismo na cultura. Sem qualquer desmerecimento a Fernanda Torres [premiada em Cannes em 1986, por Eu sei que vou te amar], mas a Léa foi a primeira atriz brasileira indicada a um prêmio no Festival, em 1959, por seu trabalho em Orfeu Negro”, relembra a diretora.
É contra apagamentos como esse que Luiza acredita no poder do cinema, e destaca um gênero em ascensão, o Afrofuturismo, que imagina uma sociedade mais igualitária no futuro a partir da diáspora africana. “Nas ficções científicas, geralmente, as personagens são brancas. Esse gênero discute o presente, pensando numa nova representação de futuro, e foi isso que tentei trazer ao curta”.
Por esse trabalho em Bela Lx-404, Luiza foi convidada a participar de dois painéis num evento no Festival de Cannes, conhecido como AfroCannes – num deles, sobre Afrofuturismo, o outro falando sobre as novas faces do cinema brasileiro, que teve destaque no festival ocorrido em maio passado. “Foi uma experiência muito enriquecedora poder encontrar cineastas de vários países do mundo e discutir a representação de pessoas negras ao imaginarmos o futuro mais igualitário”.
Léa Garcia, em cena do curta Bela Lx-404 (Crédito: Divulgação)
Já sobre o cinema brasileiro, ela destaca a curiosidade de estrangeiros sobre a produção nacional, em destaque neste ano com diversos prêmios, e, também, a exibição de O Agente Secreto, no Festival. “Percebi que nosso cinema está cada vez mais global, e me interessa muito conectar o Brasil com outros países.”
Para essa conexão, Luiza tem três projetos em desenvolvimento, todos em coprodução com países como EUA e Índia, além da discussão de novas parcerias. Um dos projetos mais adiantados é Saudade, que deverá ser seu primeiro longa como diretora. Ela já tem experiência como produtora em filmes como Filhas do Vento e Meu Amigo Fela, ambos de Joel Zito.
A parceria com o pai também está em
Saudade, que pode ser protagonizado por Danny Glover, também amigo de sua família. A ideia original veio de Joel Zito, mas foi desenvolvida com Luiza, mentoada por ele, e acompanha um brasileiro que se aposentou nos EUA, onde trabalhou como policial e, ao se descobrir doente, volta ao Brasil. O projeto ganhou o Producer Network Award no Cinélatino – Rencontres de Toulouse (França), e foi o que animou a diretora a retomar o projeto.
Luiza morou por 15 anos nos EUA e conta que entende a dinâmica da vida dos imigrantes. “O filme está ainda mais atual e necessário diante das políticas xenofóbicas de Donald Trump. Morando lá, também pude perceber que o tal sonho americano é cada vez mais uma ilusão, e o que importa mesmo são as conexões humanas.”
