05/06/2026

Documentário premiado discute conservadorismo e progresso partir da arquitetura brasileira

A construção de Brasília é um ponto central no documentário Quando O Brasil Era Moderno (Crédito: Divulgação)

Apesar de ter realizado dois documentários que envolvem arquitetura, o cineasta Fabiano Maciel não é formado em arquitetura. “Não sou formado em nada. Sou um autodidata”, diz sorrindo, em entrevista ao Cineweb. Para fazer esses, e também seus outros trabalhos, explica, “estudei muito sobre os assuntos”. A densa pesquisa fica evidente na tela em seu premiado
Quando O Brasil Era Moderno, que recebeu uma Menção Honrosa no Festival É Tudo Verdade deste ano e chega aos cinemas na próxima quinta (26).

Com um material robusto, tanto de imagens quanto de entrevistas, o longa consegue trazer uma discussão complexa de forma acessível. O desenvolvimentismo brasileiro é um tema caro à academia, mas nem sempre chega de forma compreensível aos leigos. Com seu filme, Maciel consegue a proeza de trazer a discussão num alto nível e também disponível a qualquer público.

“Tem documentaristas que são contra o didatismo, não gostam que o filme fique se explicando. Eu respeito essa visão, mas eu não tenho medo nenhum de recorrer a isso, até porque creio que a maioria das pessoas desconhecem essa história”.

A história a que se refere é de como a disputa da arquitetura brasileira hegemônica no século XX reflete as disputas de poder e de visões de Brasil dentro do país. O ponto de partida está nos anos de 1930, com o marco da arquitetura moderna do país com a construção do Palácio Capanema, na cidade do Rio de Janeiro. Atualmente conhecido como Edifício Gustavo Capanema, ele foi inaugurado em 1937 para ser sede do Ministério da Educação, cujo projeto é assinado por Lúcio Costa, Carlos Leão, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Ernâni Vasconcelos e Jorge Machado Moreira, com a consultoria do arquiteto franco-suíço Le Corbusier.

Partindo disso, Maciel faz uma longa investigação sobre os avanços e recuos políticos, sociais e culturais do país mediada pela arquitetura e suas eternas disputas, simbolizando o conservadorismo e o progressismo. “É uma história”, diz ele, “que muito jovem arquiteto talvez nem conheça, e acho importante que seja resgatada.”

Maciel conta que começou a fazer o longa em 2018, uma semana antes das eleições presidenciais que deram vitória a Jair Bolsonaro. “Nesse momento, percebi que a discussão era mais profunda: por que o Brasil não sai do lugar? Era o mesmo cenário dos anos de 1930 se repetindo entre dois projetos de país. As elites contra o progresso no passado são as mesmas de hoje. A diferença é que os conservadores do passado eram lordes em comparação com aqueles do movimento Escola Sem Partido. Os inimigos hoje são mais rasos, não têm uma formação intelectual profunda como antigamente.”

O filme começou a ser montado durante a pandemia, quando Maciel instalou uma ilha de edição em sua casa e, depois de muito trabalho, chegou a um corte de quase 9 horas, que ele pretende lançar como uma série. De qualquer forma, ele não queria lançar o longa enquanto Bolsonaro estivesse no poder. Disse ao seu produtor que iria esperar. “Seria um derrota interna para mim, significaria o fracasso do filme, das ideias que ele discute sobre progresso.”

O primeiro longa de Maciel foi o documentário Oscar Niemeyer, A Vida É Sopro, lançado em 2005, sobre o famoso arquiteto brasileiro. O cineasta explica que aquele filme tinha objetivos muito distintos em relação a Quando O Brasil Era Moderno. “Era um momento em que Niemeyer e seus projetos estavam sendo muito criticados e, com o filme, eu queria revalidar sua arquitetura moderna. Era um momento em que todo mundo queria ser pós-moderno, e foi uma moda que passou. Hoje está na lata do lixo da história, mas a obra de Niemeyer continua aí.” Já no novo filme, há uma disputa das narrativas entre a moderna e a conservadora.

Essa tensão, que começou com o Palácio Capanema, chegou ao seu auge com a construção de Brasília, nos anos de 1960, e o documentário abre exatamente com isso: uma cena marcante deA Idade da Terra, filme de Glauber Rocha de 1980, que se dá exatamente entre os esqueletos da capital federal sendo erguida.

“O cinema brasileiro é muito rico nesse tema de como a arquitetura mostra a evolução do país. São Paulo Sociedade Anônima [longa de 1967, dirigido por Luiz Sergio Person] tem muito disso, também. São Paulo é uma personagem dentro do filme, e usei várias cenas no documentário.” E Maciel promete que na série deve colocar mais cenas de filmes ainda.

Quando O Brasil Era Moderno vale-se de uma fala marcante do filme de Person, dita pelo personagem de Walmor Chagas, o protagonista: “Recomeçar, Recomeçar, Recomeçar.” Para Maciel esse é um momento que representa muito bem o Brasil e, também, o cinema brasileiro. “Há algo de atávico do país, não conseguimos sair do lugar. Sempre que há algum mínimo avanço, vem algo e acaba com isso. Depois, é preciso começar tudo de novo. É muito cansativo. O cinema brasileiro também funciona assim, sempre morrendo e recomeçando.”