A atualidade de “Iracema – Uma Transa Amazônica”
- Por Alysson Oliveira
- 23/07/2025
- Tempo de leitura 5 minutos
Edna de Cássia em cena como a protagonista de Iracema (Crédito: Divulgação)
Queimadas e exploração desenfreada na Amazônia, prostituição e exploração de mulheres e crianças são elementos centrais no longa Iracema – Uma Transa Amazônica, que comemora 50 anos do seu lançamento, mas, também, poderiam descrever a região ainda hoje. “Tudo o que o filme mostra continua existindo ainda hoje. Infelizmente, existe essa atualidade dele”, comenta Jorge Bodanzky, que dirigiu o longa ao lado de Orlando Senna.
Para comemorar o meio centenário da obra, uma cópia restaurada chega aos cinemas. Segundo, o próprio Bodanzky, a imagem nunca esteve tão boa, o filme nunca foi tão bem visto. Foi rodado originalmente em 16mm, para um programa da ZDF, emissora de televisão estatal alemã. Depois dessa exibição, o filme foi convidado para uma sessão fora de competição em Cannes, mas sua estreia oficial no Brasil só foi liberada em 1980.A restauração digital em 4K partiu dos negativos originais de som e imagem, e essa versão chega aos cinemas amanhã (24/07).
“Acho importante o relançamento do filme para que ele chegue às novas gerações que nunca o viram, e vejam como é a dura realidade de um país sob uma ditadura, que escondia suas mazelas. A gente mostrou coisas que não eram, obviamente, divulgadas. E hoje as pessoas ficam pedindo ditadura novamente”, aponta o diretor.
Em sua forma, combinando documentário e ficção, Iracema – Uma Transa Amazônica foi um filme transgressor, expondo os problemas da região de forma bastante peculiar. Uma das coisas que mais chamam a atenção no longa são as imagens das queimadas. “A gente não tinha noção do que acontecia lá, como a Amazônia estava sendo destruída. Hoje a gente sabe, mas, em 1974, aquilo era novidade. E essas imagens rodaram o mundo”.
O famoso plano da queimada da Amazônia que rodou o mundo (Crédito: Divulgação)
Bodanzky era um jovem cineasta com pouca experiência quando começou a fazer o filme. Antes disso, ele trabalhara como fotógrafo, e foi numa pauta sobre a rodovia Belém-Brasília que ele teve a ideia para o filme, ao ver a movimentação noturna na região.
Das filmagens, ele guarda boas lembranças, em especial da sua equipe. “Éramos poucas pessoas, e todos muito solidários, cada um fazia diversas funções para que o filme acontecesse”. O próprio Bodanzky assina a fotografia e a montagem em parceria com Eva Grundman. Já Senna, além de codirigir, era responsável pela direção de arte e o trabalho com os atores.
Iracema – Uma Transa Amazônica tem como personagem central um caminhoneiro, Tião, interpretado por Paulo César Pereio, que interage com as pessoas da região. Numa parada, conhece a jovem Iracema, interpretada por Edna de Cássia, uma adolescente de 15 anos que Bodanzky descobriu no auditório de um programa de rádio. “Precisávamos de uma jovem que tivesse o perfil de uma jovem da região. Procurávamos por todos os lados e nada de achar, estavávamos quase desistindo quando a encontramos.”
Edna também conta que tem boas lembranças das filmagens, tendo sido muito bem acolhida pela equipe, em especial pela atriz Conceição Senna, que interpretava uma prostituta. “Era meu primeiro trabalho, então todo mundo me apoiava muito, me protegia. A Conceição era como uma mãe para mim, muito protetora e carinhosa comigo.” Depois do longa, Edna não quis seguir carreira como atriz e hoje conta com orgulho que é “uma dona de casa muito feliz cuidando de sua família”. Ainda assim, de vez em quando faz algumas pontas em produções em Belém, onde mora.
A interação entre Pereio e Edna, que embarca na viagem com ele, conduz o filme. “Para apresentar o projeto à ZDF, o Orlando [Senna] escreveu um roteiro com cenas, diálogos, tudo como devia ser, mas nem cogitávamos usar esse roteiro, na verdade. A ideia era fazer algo documental mesmo. Então deixávamos o Pereio bem livre para interagir com as pessoas, caminhoneiros, prostitutas, donos de bares, todo mundo. Aquilo que a gente vê não era roteirizado”.
Bodanzky, atrás da câmera, e sua pequena equipe filmando a queimada (Crédito: Divulgação)
Bodanzky ressalta que Pereio foi fundamental na construção do longa. “Além de grande ator, ele era uma pessoa muito culta e engajada politicamente, sabia tudo o que estava acontecendo no país, e isso instigava as conversas dele com as pessoas.” Mas, fora isso, o cineasta se lembra com carinho e risos de um episódio envolvendo o ator no set. “Estávamos filmando há um tempo, e chegou a hora que ele devia conduzir o caminhão. E eu lá esperando o Pereio dar a partida e sair dirigindo, e nada dele fazer isso. Até que depois de algum tempo, fui perguntar o que estava acontecendo, e ele me disse que não sabia dirigir. ‘Mas como você não conta isso antes?’, perguntei. E ele: ‘Se eu contasse, você não me dava o papel.’”
Já o título do longa, esclarece o diretor, não é inspirado no famoso romance de José de Alencar. “Iracema, o escritor usou por que é anagrama de América, e eu fui descobrir isso só depois. Mas o nome do filme vem do fato de que muitas moças adotavam para trabalhar como prostitutas o nome de Iracema ou Nazaré. Desse eu não gostava muito, achei que Iracema funcionaria melhor. Já o subtítulo é uma brincadeira que fizemos, um trocadilho, mas só é usado no Brasil. No lançamento no exterior, o título era apenas o nome da personagem mesmo.”
