“Propagandas impõem um modo de vida perigoso”, alerta cineasta Radu Jude
- Por Alysson Oliveira
- 31/07/2025
- Tempo de leitura 4 minutos
Propaganda de Coca-Cola veiculada na televisão romena pós-comunismo (Crédito: Reprodução)
Quando criança, no começo dos anos de 1990, o filósofo, e agora também cineasta, romeno Christian Ferencz-Flatz ganhou seu primeiro gravador. Era um momento em que a Romênia saía do regime comunista, e propagandas de bens de consumo bombardeavam os canais de televisão do país. “Eu me lembro de que eu gravava os slogans dos comerciais tentando fazer uma voz parecida com a dos locutores. Tudo era novidade”, conta em entrevista ao Cineweb.
A pequena história vem bem a calhar com o tema do primeiro longa que dirigiu com o famoso cineasta romeno Radu Jude, Eight Postcards From Utopia, que estreia na plataforma Mubi na próxima sexta (01/08). Com pouco mais de uma hora, o documentário é uma colagem de comerciais romenos feitos desde a queda do comunismo até o começo do século XXI. São imagens, ao mesmo tempo, divertidas e reveladoras de um país em transformação.
Transformação, aliás, Ferencz-Flatz e Jude concordam que é uma constante no país. “A transição [do comunismo para o capitalismo com o fim da União Soviética] nunca foi concluída, na realidade”, explica o filósofo. “Tudo na Romênia acaba sendo muito problemático, porque nada parece se concluir. Até hoje, a transição para o mundo ocidental não chegou ao fim, por isso, esse filme, mesmo falando do passado, é muito atual.”
Jude, por sua vez, explica que antes de cinema fazia comerciais para televisão. Isso sempre o fascinou, desde sua adolescência, quando se tornou cinéfilo em meados dos anos de 1990, e a Romênia fazia muito pouco cinema naquela época – antes do boom em meados da primeira década dos anos 2000. “Os comerciais de televisão feitos no país me chamavam muito a atenção. Havia um crítico de cinema que os levava muito a sério, os analisava como um produto cultural. E eles são muito reveladores mesmo de uma sociedade, do modo como as pessoas consomem e, consequentemente, como vivem.”
Ferencz-Flatz e Jude (Crédito: Molodist - Festival Internacional de Cinema de Kiev/Divulgação)
Jude, que tem no seu currículo filmes como o premiado Má Sorte No Sexo Ou Pornô Acidental (Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2021), conta que conhecia o trabalho de Ferencz-Flatz por meio das traduções que ele fizera de obras de Walter Benjamin e Theodor W. Adorno, e suas pesquisas sobre cinema e comerciais. Por isso, parecia o parceiro ideal para a empreitada que o cineasta planejava há muito tempo. A ideia original de Jude era usar os comerciais que ele mesmo fez, mas o projeto se expandiu, agora contando com cerca de 400 propagandas feitas exclusivamente na Romênia – ou seja, deixaram de fora filmes publicitários feitos em outros países e veiculados dublados na televisão romena.
A variedade de temas é impressionante, sendo fruto de uma longa pesquisa nas mais diversas fontes, desde internet até produtoras de comerciais que ainda mantinham esse material em seus arquivos. Ferencz-Flatz explica que não tinham em mente pensadores específicos, “mas é claro que Adorno e Benjamin estão presentes, pois fazem parte do meu trabalho e acabaram entrando mesmo que de forma paralela. Benjamin aponta que os comerciais, assim como sonhos, são como a recepção de um material histórico, e isso vai muito ao encontro de nossa visão sobre o filme.”
O longa é dividido em oito partes (os tais cartões postais do título), que levam nomes como História dos Romenos, Masculino Feminino e As Idades Do Homem. Os dois diretores concordam que o filme deveria ter um caráter fragmentado, mas a ideia dos postais veio do filósofo. “Inicialmente, tínhamos apenas algumas ideias básicas sobre como agrupar os materiais em categorias. Classificamos o material de acordo com esses temas predominantes e, a partir disso, buscamos moldar cada grupo em uma espécie de arco.”
Já a parte da “utopia” foi ideia de Jude, para quem a publicidade vende uma espécie de ideal de perfeição, que deve inspirar as pessoas – especialmente a consumir, para viver nesse mundo perfeito com seus produtos e serviços. “Mas a propaganda é muito perigosa, ela se torna fascista ao impor um modo de vida, ao dizer que essa é a maneira como as pessoas devem agir, comprando o que está vendendo.”
