Diretora de “A Prisioneira de Bordeaux” investiga a luta de classes a partir de uma prisão
- Por Alysson Oliveira
- 04/08/2025
- Tempo de leitura 3 minutos
Mazuy: um cinema que foge da obviedade (Crédito: Alexandre Ean/Divulgação)
Se há uma coisa que não existe no cinema da diretora francesa Patricia Mazuy é obviedade. Seus filmes, como Bowling Saturne e Um Homem Marcado, desviam de clichês e soluções fáceis. Não é diferente em seu novo trabalho, A Prisioneira de Bordeaux, que chega aos cinemas brasileiros na próxima quinta (07). O próprio título em si já convida a discussões sobre quem é a tal “prisioneira”.
O filme é protagonizado por duas mulheres, Alma Lund (Isabelle Huppert) e Mina Hirt (Hafsia Herzi), ambas de origem social e idade muito diferentes, que se conhecem na sala de espera de um presídio onde irão visitar os respectivos maridos. A primeira é rica, mora em Bordeaux e não tem filhos. A outra, é pobre, vem de longe com seus filhos e, quando a visita lhe é negada e ela deve voltar no dia seguinte, ela não sabe o que fazer. Convenientemente, Alma sugere que fique hospedada em sua casa.
Surge daí uma relação complexa entre as duas. Alma encontra subterfúgios para que Mina e seus filhos não vão embora. Ao mesmo tempo, a burguesa é uma mulher solitária, presa em sua casa enorme e vazia, repleta de obras de arte caras, mas sem sentimentos. Mazuy, a partir disso, evita as vias mais comuns para essa narrativa, introduzindo reviravoltas inesperadas e personagens repletas de nuances.
“Não gosto do cinema que parte para os clichês. Meus filmes não são assim, não me interessa nada disso. Para lidar com material do presente, é preciso seguir por caminhos inesperados”, afirma em entrevista ao Cineweb.
O roteiro foi originalmente escrito por Pierre Courrège e François Bégaudeau. A diretora observa que só aceitou o convite para fazer o filme se pudesse mudar alguns elementos da narrativa, tornando-a mais pessoal, mas com a cara do seu cinema.
“Eu queria trazer o filme mais próximo da realidade, e não era por ser de baixo orçamento que iríamos fazer um filme simples. Tivemos que fazer em pouco tempo, e, por isso, a preparação foi fundamental”
Foi ideia de Mazuy trazer para o longa mulheres que estavam realmente na mesma situação que as personagens, ou seja, que faziam visitas aos maridos na prisão. Além de conversar com elas para compor as personagens, a diretora as coloca em cena na sala de espera.
“No filme, elas vivem dramas parecidos com aqueles que vivem na vida real. Como tínhamos de filmar muito rápido, fizemos diversas oficinas e preparação para elas estarem em cena.”
Outro elemento que ela trouxe ao filme foi Isabelle Huppert, com quem havia trabalhado em Saint-Cyr: As Meninas Do Colégio, lançado em 2000, e que rendeu à atriz uma indicação ao César, além de também concorrer em outras categorias, como filme e direção.
“Foi uma parceria muito frutífera, uma sintonia entre nós. Desde então, queríamos trabalhar juntas de novo, mas não aparecia o projeto certo, até que A Prisioneira de Bordeaux chegou às minhas mãos.”
A personagem de Huppert é uma mulher rica e elegante, que encontra na jovem Mina algo que falta em sua própria vida. Mazuy destaca a beleza da jovem atriz Herzi, de ascendência argelina e tunisiana, e explica que a personagem tinha que ser linda, ter uma beleza pura, uma coisa quase infantil. “Tínhamos de fazer dela uma rainha, para estar no mesmo patamar que Huppert, tão estrela quanto ela, pois as personagens estão num embate do mesmo nível”.
Embora tente ser uma disputa de igual para igual, Mazuy sabe que a personagem de Huppert está em vantagem por ser rica. “Mesmo com a solidão e infelicidade dela, ela é rica, e é muito mais fácil encontrar a liberdade quando se tem dinheiro. Por isso vemos que o processo dela de se libertar pode ser muito mais pleno.” E o filme mostra isso de maneira exemplar.
