05/06/2026

Athina Rachel Tsangari e o estranhamento como instrumento de reflexão


O apocalipse coletivo dos personagens de Harvest (Crédito: MUBI/Divulgação)

Como seu conterrâneo e contemporâneo Yorgos Lamthimos, a cineasta grega Athina Rachel Tsangari faz um cinema ao qual é impossível ficar diferente – goste-se ou não, sempre haverá reações inflamadas sobre seus filmes. Talvez por ainda ser menos famosa do que o premiado diretor de Pobres Criaturas e A Favorita, ela ainda se arrisca mais num cinema que prima pelo estranhamento e a provocação.

Harvest, disponível na MUBI, é seu primeiro longa em língua inglesa (embora já tenha feito trabalhos para a TV na Inglaterra). É marcado por uma beleza visual – cortesia das paisagens da Escócia e da fotografia de Sean Price Williams – em contraste com uma narrativa de violência física, emocional e social.

“É um filme de época”, diz ela em entrevista ao Cineweb. “Mas eu queria subverter as regras do gênero, e fiz uma espécie de faroeste niilista situado na Escócia, que também se entrega ao horror. As coisas que vemos no filme, a violência e a xenofobia, têm muito a ver com o mundo em que vivemos. A trama pode se passar no passado, mas estamos falando dos dias de hoje.”

O filme ambienta-se na Europa medieval, numa pequena comunidade rural autossuficiente, que não tem muita simpatia por um forasteiro que lá ficou, Walter (Caleb Landry Jones). A chegada de outras pessoas de fora desencadeiam uma série de atos violentos ao extremo, que não têm volta.

A cineasta conta que sua inspiração e pesquisa para o longa, que foi exibido na mostra competitiva do Festival de Veneza de 2024, veio de várias fontes, como do próprio faroeste estadunidense dos anos de 1970 quanto da era de ouro da pintura flamenga, como ficaram conhecidas as obras de arte produzidas na região de Flandres no século XVII.

“É um filme punk e alucinatório. Talvez nada daquilo esteja acontecendo, e tudo seja apenas uma visão. Obras do diretor experimental estadunidense Stan Brakhage, também, foram importantes quando Sean [Price Williams] e eu planejávamos o filme.”

Este planejamento durou um tempo longo. Por dois anos, Athina acompanhou o cotidiano de moradores de um vilarejo escocês onde o filme seria rodado. Também os preparou para atuar no longa ao lado de atores experientes, como o próprio Landry Jones e Harry Melling, que interpreta um personagem benevolente, que representa a lei no local.


A cineasta grega Athina Rachel Tsangari (Crédito: Divulgação/Onassis Foundation)

O roteiro parte do romance homônimo de Jim Crace, e foi escrito pela diretora e Joslyn Barnes. “Eu fiquei muito tempo ‘dançando’ com o esse roteiro. É um romance muito difícil de se adaptar, e eu não sabia direito o que fazer com ele. No fim, quando percebi, para fazer esse filme, deveria me deixar ser guiada pelo cinema do meu próprio país, e também pelo teatro clássico grego com suas tragédias, pois não há redenção em Harvest.”

Ainda assim, ela comenta que muito do texto final veio dos ensaios e do próprio elenco de atores não-profissionais, que viviam a experiência de plantio e colheita como os personagens. A ideia de comunidade foi central nessa construção. “Passamos muito tempo juntos na preparação e desenvolvemos esses laços. O pessoal que fazia pão para o filme era a mesma pessoa que faz pão nessa comunidade. Elas vivem ações que já são suas, e já conheciam umas às outras. Todo mundo, no filme, tem um papel e uma função nessa comunidade, ninguém era um figurante”

O processo de filmar também está em sintonia com a trama. “Quando o senhorio finalmente chega na trama, o elenco já estava filmando há três semanas, já tinha uma aliança interna. Ele é a figura estranha que entra para romper a consonância que existia entre os personagens. Os atores nem conheceram o Frank Dillane [que faz o personagem], e ele chegou para entrar em cena. A reação sobre a chegada dele que vemos no filme é a reação das pessoas mesmo, não foi ensaiada.”