“Querido Trópico” apresenta o cinema feminino do Panamá
- Por Neusa Barbosa
- 12/11/2025
- Tempo de leitura 5 minutos

"Querido Trópico" (Crédito: Divulgação)
Atriz veterana e conhecida do público brasileiro, já premiada no Festival de Berlim 2013 por sua atuação em
Gloria, de Sebastián Lelio, à chilena Paulina Garcia, 64 anos, não tem faltado oportunidades para demonstrar sua versatilidade. Vista em filmes muito diferentes, como A Noiva do Deserto (2017) e Segredos em Família (2019), ela está à frente do elenco de Querido Trópico, de Ana Endara, o representante do Panamá na disputa de uma vaga no Oscar de filme internacional. Em entrevista exclusiva ao Cineweb, via zoom, as duas falam do novo filme, que estreia no Brasil neste dia 13 de novembro.
Interpretando Mercedes, uma empresária rica que está sofrendo um acelerado processo de declínio mental por conta do Alzheimer, Paulina confirma que não sente nenhuma crise por ser uma atriz de idade madura. “Tenho a sorte de que me ofereçam papeis maravilhosos, como Mercedes, que está um pouco além do maravilhoso, porque é uma história que vai desenvolvendo lentamente um encontro entre duas pessoas improváveis”. A outra protagonista é a atriz colombiana Jenny Navarrete, que interpreta Ana Maria, a cuidadora de Mercedes (no filme, chamada pelo apelido, Mechi).
Paulina prossegue, dizendo que “o encontro entre as duas é improvável, porque são de classes sociais distintas. Ambas são imigrantes, mas são imigrações muito diferentes. No caso de Ana, fruto de uma fuga, no caso de Mechi, produto de um casamento. Mas o Panamá não é o país delas e elas se encontram na fragilidade. O que Ana [Endara, a diretora] construiu entre estas duas mulheres foi o que me arrebatou para querer estar no filme”.
Muito do relacionamento entre as duas personagens se dá por olhares e gestos, ou seja, de modo não-verbal. Ana conta como isso foi construído no set: “Esta é minha primeira obra de ficção, então o trabalho com atrizes era o maior diferencial. Dei-me conta de que minha missão era criar um espaço de respeito, silêncio e proteção para o trabalho delas e pude fazê-lo também por contar com uma equipe que teve sempre isso em mente. Então, tudo foi muito uníssono”.
Ana Endara (Crédito: Divulgação)
A diretora comenta que sua constatação de que a comunicação entre suas protagonistas se daria dessa forma não verbal veio também “dos corpos das duas atrizes” e que, a partir dessa certeza, retirou diálogos que sentiu que não funcionavam - “porque diziam o mesmo e empobreciam o que elas propunham, porque às vezes o silêncio deixa mais espaço à interpretação e, para diferentes pessoas, pode significar coisas diferentes, enquanto que uma palavra fecha as coisas num só discurso. Dei-me conta de que era mais rico o não dito do que o dito”.
De muitas formas, Querido Trópico é um filme muito feminino, atravessado por temas como a maternidade e o cuidado - e também um filme em que os homens praticamente não aparecem. A diretora destaca que isso “foi totalmente intencional. Agradava-me a ideia de que eles só chegassem para tirar uma foto (o que acontece numa festa de aniversário de Mechi)”.
Paulina Garcia (Crédito: Divulgação)
As decisões e o jardim
Tanto como o trabalho com as atrizes, tudo o mais foi novidade para Ana Endara, que vem do documentário. Ela enumera os maiores desafios desta passagem: “No documentário, o que me tocava era como uma dança com a realidade. Aqui, era um exercício de imaginar tudo. Lembro-me de que me perguntaram de que cor seriam as cortinas do quarto em que íamos filmar e eu pensava: ‘Onde é que fui me meter?’. Foi um desafio interessante entender que, na ficção, um universo inteiro deve ser criado e tem-se que ter respostas para todo tipo de perguntas. Também era importante para mim que isso não acarretasse uma rigidez, que não se transformasse numa camisa de força. Sinto que superamos bem isso”.
Um dos cenários do filme que mais se relaciona com seu título é o jardim da casa de Mechi, onde ela passa boa parte do tempo e cultiva suas orquídeas. A diretora recorda que, na casa, havia uma piscina e nesse espaço é que foi construído o jardim, “da primeira à última orquídea, especialmente para o filme”. O jardim, para Ana, era “um mundo que me parecia um lugar apropriado para um encontro”. Já para Paulina, “o jardim é labiríntico, parece um espaço onde alguém pode desaparecer” - assim como está acontecendo com a consciência de Mechi. E, ao ver o jardim na tela, a diretora se convenceu também que não deveria mudar o título do filme, como chegou a cogitar: “Achei que o jardim tinha um sentido uterino, portanto, o título cairia mesmo bem”.
Falando da produção cinematográfica do Panamá, ainda bastante reduzida, a diretora comenta que há uma “lei de incentivo que funciona às vezes, às vezes não”. De toda maneira, ela ressalta que “há muitas coisas interessantes, sobretudo nos documentários. Tomara que continuemos fazendo mais e mais”.
