21/07/2026

Denise Zmekhol aborda o pessoal e o social em documentário sobre prédio histórico de SP

Fachada do prédio apelidado Pele de Vidro no quando de sua ocupação (Crédito: Autoral Filmes/Divulgação)

Quando a produtora e diretora Denise Zmekhol começou a fazer seu longa Pele de Vidro, achou que seria um documentário sobre sua relação com seu pai, o arquiteto Roger Zmekhol, responsável por, entre outros, o Edifício Wilton Paes de Almeida, no centro da cidade de São Paulo, em frente ao Largo do Paissandu. Mais conhecido como Pele de Vidro, o prédio, erguido nos anos de 1960 e inaugurado em 1968, começou como sede da CVB – Companhia de Vitrais do Brasil, Oleogazas, Socomin e agências do Banco Nacional do Comércio de São Paulo S.A. e do Banco Mineiro do Oeste S.A. Símbolo da arquitetura modernista paulistana, o prédio foi tombado em 1992, pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo.

O longa começa, no entanto, quando a diretora fica sabendo que o prédio está ocupado pelo Movimento Luta por Moradia Digna. “Foi um choque”, conta Denise em entrevista ao Cineweb. “Pensei muito no legado da arquitetura do meu pai, e achei que podia ser interessante entrar naquele prédio, conversar com as pessoas, fazer um filme sobre elas”.

Porém, as negociações com os líderes da ocupação, que duraram meses, sempre resultaram numa resposta negativa. Um fato inesperado mudou tudo – inclusive o filme. Na madrugada de 1o de maio de 2018, ocorreu um incêndio no Pele de Vidro. O prédio desmoronou, deixando, pelo menos, oito vítimas fatais e centenas de pessoas desabrigadas. “Eu estava na Califórnia, onde moro, e recebi dezenas de mensagens, no meio da noite. Acordei com uma ligação do meu irmão falando que o prédio havia pegado fogo e desmoronado. Foi um susto. Peguei o primeiro avião e voltei para São Paulo.”

Nesse momento, Denise ficou sem rumo diante das notícias. “O prédio destruído, as pessoas sem ter onde morar. Era como se eu tivesse perdido meu pai de novo. Achei que não tinha mais um filme, que deveria abandonar tudo. Mas eu soube que as pessoas estavam acampadas no Largo do Paissandu, e achei que deveria ir lá.”

A cineasta tinha receio de como seria recebida, afinal, supostamente, essas eram as mesmas pessoas que votaram contra a sua entrada no prédio. A surpresa foi que eles nem sabiam de sua existência, os líderes da ocupação sequer levaram a pauta para os moradores. “O que fiquei sabendo, e está no filme, é que, ao contrário das outras ocupações, no Pele de Vidro as pessoas viviam em condições precárias, por isso os líderes não queriam que entrássemos lá.”


Denise Zmekhol, diretora do documentário e filha do arquiteto que construiu o Pele de Vidro (Crédito: Alex Black/Divulgação)

Denise foi bem acolhida pelos moradores, e o documentário traz alguns dos melhores momentos a partir da interação dela com essas pessoas abrigadas na praça. “O filme virou outro. Não tinha como continuar falando apenas da minha relação com meu pai, diante daquela tragédia. Era preciso contar a história dessas pessoas, suas perdas, sua dor.”

Com 150 horas de filmagens, Denise montou o documentário com o estadunidense Josh Peterson, num processo que levou cerca de um ano. “Foi a busca por uma linha narrativa. Resisti muito em me colocar no filme, em colocar a minha história com meu pai. Mas a equipe me convenceu de que seria importante para sensibilizar o público”.

Como ela explica, Pele de Vidro começa combinando a história do prédio com a história de seu pai e sua relação com ele. Essa estratégia, conta a diretora, é fundamental para que o público entre no filme, antes que, finalmente, o longa chegue às questões sociais do direito à moradia e da ocupação do prédio.

“Foi a forma que encontramos para dialogar com o público. Creio que se começássemos direto com a tragédia e as questões sociais das ocupações poderia gerar uma certa resistência numa parcela do público, afinal, sabemos que é um assunto controverso.”

Diversos antigos e antigas moradoras do Pele de Vidro viram o filme, quando foi exibido na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, e se sentirem representados na tela. “Tentamos ser muito honestos, trazendo suas histórias e suas falas. Eles contam que se sentiram escutados.”

Denise aponta, também, que o filme ajuda na discussão de um dos grandes problemas atuais no Brasil: o direito à moradia. “Estava nas preocupações do meu pai como arquiteto: como as cidades podem ser mais inclusivas. As cidades têm se tornado mais populosas, e esse é um momento em que precisamos refletir sobre o que queremos para o futuro”.