05/06/2026

Pai e filho, cinema e afeto: Reginaldo e Régis Faria falam sobre filme e maturidade

Reginaldo Faria e Régis Faria, ator e diretor de “Perto do Sol É Mais Claro”

O ator Reginaldo Faria e seu filho, o diretor Régis Faria, comentaram em entrevista ao Cineweb, o processo de criação do filme Perto do Sol É Mais Claro, realizado de forma independente e marcado pelo caráter íntimo da produção e pela parceria familiar. A conversa também abordou a presença de personagens mais maduros no cinema brasileiro contemporâneo, assumindo papéis mais ativos e ocupando uma posição de relevo, sem abandonar seus sonhos e projetos, vida amorosa e afastando a imagem de fragilidade por conta da idade.

Régis Faria confirma que o projeto nasceu de um desejo pessoal de trabalhar com o pai em um momento específico da vida profissional de ambos. “Na verdade, esse filme surgiu por um desejo meu de trabalhar com meu pa, num momento mais maduro da minha profissão”, diz. Segundo ele, a pandemia acabou criando as condições para que o projeto saísse do papel: “Entre as coisas ruins [daquele período], ela [a pandemia] acabou nos dando tempo para conciliar as nossas agendas”.

A proposta era simples e radical: fazer um filme sem estrutura tradicional. “A gente fez um filme de uma forma não usual, sem equipe, sem produção, sem orçamento. Eu usei o que tinha à mão”, explica o diretor. Os cenários são reais e foram apenas adaptados para a narrativa: “eu ajustei os cenários em função do filme, porque o filme é uma ficção”.

Reginaldo Faria, em “Perto do Sol É Mais Claro”

Além da narrativa, o longa funciona como uma homenagem à trajetória artística de Reginaldo Faria. “Acaba sendo um tributo ao Reginaldo artista, ao Reginaldo músico, ao escritor”, afirma Régis, destacando que o filme revela facetas menos conhecidas do pai, como a música.

Reginaldo detalha esse lado artístico ao relembrar a juventude. “Eu tinha 13 anos quando comecei a tocar violão”, conta. A formação foi autodidata, complementada posteriormente por estudos formais. “Eu comecei a estudar sozinho. Depois estudei no Rio de Janeiro… e fui seguindo essa trilha e compondo”. Apesar de nunca ter seguido carreira profissional como músico, ele relata surpresa com o reconhecimento recebido: “Ganhei o prêmio no festival de cinema de Los Angeles como melhor trilha sonora”.

O ator também relembra sua entrada no cinema, que ocorreu de maneira inesperada. Inicialmente, trabalhou nos bastidores: “Antes de ser ator, eu fui técnico, trabalhei como assistente de câmera no primeiro filme que meu irmão dirigiu” [Rico Ri à Toa, de 1957, dirigido por Roberto Farias]. A carreira como ator começou por acaso, após a ausência de um intérprete. “O Roberto olhou para mim e disse: ‘é você’. E aí deu certo, deu supercerto”.

No filme, elementos da trajetória de Reginaldo aparecem de forma simbólica, como cartazes de seus trabalhos e referências visuais. Régis explica: “O personagem ama ler, gosta de cinema. E, como são cartazes de quando o Reginaldo era mais jovem, nem todo mundo faz a ligação imediatamente”.

A construção estética do longa também chama atenção, especialmente pela opção pelo preto e branco. Régis associa a escolha ao tema do envelhecimento e à invisibilidade social. “Eu quis abordar essa questão de como as pessoas mais velhas são descartadas pela sociedade”, afirma. Segundo ele, mesmo sendo produtivo, o personagem “se sente invisível”.

O diretor reconhece ainda que a linguagem adotada pode causar estranhamento no público. “Se você perguntar para dez pessoas se querem ver um filme em preto-e-branco, nove vão dizer que não”. Ainda assim, defende a escolha como parte da proposta artística: “Eu queria mostrar que o preto-e-branco pode ser interessante”.

Reginaldo, por sua vez, associa o processo de produção a uma experiência criativa essencial, comparando-a ao conceito de “teatro pobre”, do diretor Jerzy Grotowski. “Eu fiquei pensando: será que estamos fazendo um filme pobre? Porque a gente não tinha nada, só uma câmera e uma ideia na cabeça”, relata. Ele diz, porém, que descartou essa leitura: “A gente queria fazer uma coisa rica, e deu certo”.

Ao final, Régis resume o espírito do projeto ao afirmar que o filme também dialoga com a história do cinema e com a própria figura do pai. “O preto-e-branco remete ao cinema clássico… E o Reginaldo é um clássico, sem dúvida”.

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