26/09/2026

Priscilla Kellen traz em sua animação “Papaya” um antídoto ao cinismo

A sementinha de mamão em sua jornada de descobertas e amadurecimento (Crédito: Divulgação)

Embora a artista gráfica, diretora e roteirista Priscilla Kellen não seja formada em biologia, ficam claros seu conhecimento e sua paixão por plantas em seu primeiro longa, a animação Papaya, que chega aos cinemas nessa quinta (24). “Sempre tive muito contato com a natureza, faço desenho de observação de botânica, gosto de desenhar plantar, ter horta”, conta ela em entrevista ao Cineweb.

Essa afinidade eleva o filme a outra categoria em sua competência e carinho em retratar a natureza de forma estilizada e lúdica. O roteiro, também assinado por ela, acompanha uma sementinha de mamão em sua jornada desde seu, digamos, nascimento até sua teimosia em evitar criar raízes, pois seu sonho é voar.

Priscilla conta que o maior desafio foi pensar numa personagem para um filme totalmente sem diálogos, embora existam sons e trilha sonora marcante, assinada por Talita Del Collado. Tudo começou quando a cineasta se mudou com seu filho pequeno para a Serra da Mantiqueira, em sua porção paulista, onde chegou a pensar em mudar de área e cultivar fungos. “A rede de micélios e a dinâmica entre os organismos são muito interessantes, e comecei a pensar nisso.”

Já a estética única do filme, com um colorido vibrante e formas geométricas, que lembram até algo meio lisérgico, veio de um outro projeto de Priscilla que acabou não vingando – uma série para bebês em idade pré-escolar. “Algo que me interessa como artista gráfica é trabalhar formas, quase que como um acidente na ilustração. Você faz um recorte e aquilo se transforma numa folha.”

Com essa escolha visual, Priscilla sustenta buscar desacostumar o olhar tão viciado na animação, que busca sua proximidade com o realismo.
Para criar isso, ela explica, a música foi fundamental, pois ela guiou sua condução da narrativa. “O filme foi desenvolvido em anos muito solitários, cuidando de um bebê ao som da natureza, ou ruídos brancos e músicos, como Takashi Kokubo, Hiroshi Yoshimura, Mort Garson e Loli Cosmica.” Tudo isso a ajudou a criar pedaços do filme que foram se juntando e ordenando, para depois receber a trilha sonora de Talita.


Priscilla Kellen, diretora do longa (Crédito: Divulgação)

A cineasta também aponta ter percebido que, ao contrário dos adultos, as crianças estão, atualmente, mais abertas a narrativas mais contemplativas. “Elas gostam que lhes contem histórias. Eu percebia que meu filho se interessava mais pelas coisas abstratas e coisas geométricas. Isso me ajudou na construção do visual e também da narrativa, que dá espaço à imaginação infantil.” Falar com esse público específico é lidar com questões sobre amadurecimento, as dores do crescimento. O longa faz tudo isso sem precisar de didatismos ou explicações. É um filme que confia na capacidade de seu jovem público de compreender e se conectar com a sementinha.

Desde sua estreia na Mostrinha, da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em 2025, Papaya viajou pelo mundo, sendo exibido em festivais como Berlim e Xangai. Priscilla conta que a animação tem sido muito bem recebida e muito bem compreendida, embora tenham acontecido alguns fatos, no mínimo, inusitados. “Na Alemanha, por exemplo, muitas pessoas não conheciam mamão, não sabiam como era uma semente de mamão.”

Já, no Brasil, ela diz que vê o filme como um megafone em sua mão. “Papaya começou a ser feito em 2018, um ano quando as estruturas do patriarcado foram questionadas com movimentos como o #EleNão. Depois disso, percebemos que nada estava posto ou dado em nossa sociedade, e tudo está em disputa. Quando fiz o filme vi também uma necessidade de não ser cínica ao falar para o público infantil, e mostrar que nem tudo o que sonhamos realmente pode acontecer, mas que a saída para a crise social que enfrentamos e poderemos a vir enfrentar, no futuro, está no coletivo.”