24/07/2026

Bruno Barreto, de olho na paixão e no futebol

O novo filme de Bruno Barreto entra em campo nesta sexta (18 de março) com 220 cópias em todo o país – o primeiro lançamento deste porte em 2005 – e duas grandes responsabilidades. Uma, reverter a relativa má vontade do público brasileiro com filmes que tenham algo a ver com futebol – como os recentes Pelé Eterno e Garrincha –Estrela Solitária, ambos com resultados aquém do esperado. A segunda e mais importante é chegar a uma grande audiência, invertendo a tendência de queda à freqüência nas salas de cinema neste começo de 2005, detetada pelo semanário Filme B.

Segundo a publicação, ligada a sindicatos de exibidores e distribuidores do país, os dois primeiros meses do ano registraram uma queda de 22% no público e 16% na renda nas salas. Para os filmes nacionais, a queda foi ainda pior – menos 53% em relação a igual período em 2004.

Diretor do maior sucesso de bilheteria de todos os tempos do cinema brasileiro - Dona Flor e seus Dois Maridos, visto por 10 milhões de pessoas em 1977 – do polêmico O Que é Isso, Companheiro? (indicado ao Oscar de filme estrangeiro em 1998) e do romântico Bossa Nova (2000), que passou dos 2 milhões de espectadores já na Retomada, Barreto aposta agora no charme da comédia italiana, sua inspiração confessa, e da faísca incendiária da rivalidade entre Corinthians e Palmeiras, que ele diz ser a maior do País, como seu pano de fundo. Nesta entrevista exclusiva, em São Paulo, Barreto detalha o processo de elaboração do filme e antecipa seus novos projetos.

Cineweb - Por que você decidiu fazer um filme envolvendo polêmica de torcida de futebol?

Bruno Barreto – O filme não é sobre isso, isso é o pano de fundo. Acho que o filme é sobre a paixão, aliás, sobre as conseqüências da paixão, de um homem por uma mulher, de uma mulher por um homem, de um filho pelo pai que não teve, porque ficou órfão, e o pai pelo filho que não teve, só teve uma filha. É um filme que fala das ramificações da paixão, a paixão que acaba virando fanatismo, amor e ódio, esses sentimentos antagônicos. Tudo isso de uma maneira muito simples, acessível, bem-humorada, despretensiosa, emocionante. Não é um filme-cabeça, é um filme acessível para todo mundo. Mas nem por isso é mais simplório. Tenta ter todas as complexidades e ambigüidades que a vida real tem. Foi esse o apelo apelo para me aproximar da história.

Cineweb - Como você escolhe as suas histórias?

Barreto – Eu em geral através dos personagens. Se eu me afeiçôo às pessoas que habitam aquela história, então eu resolvo contá-la. A trama em si não é tão importante pra mim. As pessoas, sim, a complexidade delas, como se relacionam umas com as outras, o dia a dia delas. O que me atraiu muito aqui é que todas as pessoas são ordinárias, no sentido de comuns. Ninguém é grande, todo mundo é normal. Eu adoro uma história em que se pode falar de sentimento humano com personagens cotidianos, não grandes heróis.

Cineweb - Mas de qualquer maneira você tem consciência de que está mexendo com o grande antagonismo de torcidas de São Paulo, um vespeiro, não?

Barreto – Não, isso não passou pela minha cabeça. Esse filme antes de se passar aqui, deveria se passar em Londres, onde existe a maior rixa, que é entre o Arsenal e o Chelsea, os hooligans. Ou poderia se passar entre Roma e Lazio. Toda cidade tem uma. Essa história poderia se passar em vários lugares do mundo, em vários lugares do Brasil. Ela é especificamente paulista, mas por isso mesmo é internacional.

Cineweb - A história está ambientada em S. Paulo por acaso, então?

Barreto – Não. O conto do Mário Prata (Palmeiras, Um Caso de Amor) é localizado aqui. E a maior rixa do Brasil é entre o Corinthians e o Palmeiras. Não é entre o Vasco e o Flamengo, entre o Flamengo e o Fluminense. Claro que eu podia adaptar o conto para qualquer outro lugar do país. Mas o que mais me atraía – e isso sim só poderia se passar aqui – é o fato da família italiana. Porque isso me permitiria dar ao filme um tom de comédia italiana. A comédia italiana alterna comédia com drama o tempo todo. Ela é dramática e cômica ao mesmo tempo. Mantive a história em São Paulo porque só São Paulo me permitia ter a família italiana e fazer a comédia que eu queria. Porque esse filme é uma comédia italiana que se passa em São Paulo. Se você for ver as comédias italianas dos anos 60, 70, está tudo aí.

Cineweb - Essa é uma referência de formação sua, não? Qual o seu diretor italiano preferido?

Barreto – Todos os filmes do Pietro Germi – Sedotta e abandonatta, Maledetto imbroglio, Casamento à Italiana, Divórcio à Italiana, Senhor e Senhora. Todos divinos. Pietro Germi é um gênio, na minha opinião. Como Bossa Nova era dedicado do Truffaut, eu deveria ter dedicado este filme ao Pietro Germi.

Cineweb Por que o cinema brasileiro tem tão poucas histórias que falem, ainda que indiretamente, de futebol?

Barreto – Mas isso existe porque ninguém quer ver futebol no cinema. Ninguém. Então, filmes que falavam de uma maneira ou de outra de futebol, nunca deram certo. Então este filme não é sobre futebol, é um filme em que o futebol é o pano de fundo. Este filme é sobre as pessoas, as famílias, os sentimentos humanos. Se bem que não existe nenhum outro esporte no mundo que monopolize tanto as pessoas.

Cineweb - Alguma outra referência te ajudou com a história?

Barreto – Tenho que mencionar uma outra referência que me foi muito útil, o livro de Nick Hornby, Febre de Bola, que foi fundamental para o tom do filme. O Arsenal moldou a infância e a adolescência dele, a relação dele com o pai. Se o Arsenal ganhava, o fim de semana dele com o pai era ótimo. Se perdia, o pai tomava um porre e ficava intratável. Olha o poder que o futebol tem!

Cineweb - Você mora nos EUA mas sempre gosta de vir para cá, faz um projeto lá, outro aqui.

Barreto – Moro lá há 15 anos. Mas um projeto aqui, outro lá, não é planejado. Tem sido assim. Antes desse filme eu ia fazer outro que vou fazer agora, inspirado no documentário Ônibus 174. Como queria muito que o Bráulio Mantovani escrevesse o roteiro (aliás, que foi indicado ao Oscar de roteiro por Cidade de Deus, coisa que aconteceu menos de cinco vezes em toda a história do Oscar, um roteirista estrangeiro que escreveu não em inglês e foi indicado por roteiro adaptado). Ele estava ocupado com o próximo projeto do Fernando Meirelles, Intolerância, então eu esperei por ele um ano. Agora ele já escreveu.

CinewebVocê começa a filmar quando?

Barreto – Em agosto.

Cineweb - Quem está no elenco?

Barreto – Não tenho ainda. Serão pessoas desconhecidas.

Cineweb - Algum outro projeto nos EUA?

Barreto – Tenho um outro projeto lá com o Ariel Dorfman, que escreveu A Morte e a Donzela, esse chama Los Angeles, Cidade Aberta, homenagem a Rossellini. Tenho um outro projeto, For Adults, Only. Tento usufruir do melhor dos dois mundos. Se bem que uma vez que você emigra, vira um estrangeiro em qualquer lugar. O Milos Forman me disse isso uma vez. Talvez o único lugar em que eu não me sinta um estrangeiro é em Nova York, porque Nova York não é parte dos Estados Unidos, é uma cidade de estrangeiros. Em qualquer outro lugar do mundo, me sinto um estrangeiro.

Cineweb - Para terminar, queria esclarecer a polêmica da tua frase sobre os cineastas brasileiros. O que você disse exatamente?

Barreto – As pessoas não fazem o dever de casa. Dei uma entrevista à revista Um, uma entrevista enorme, em que eu falava em talento e vocação e como no Brasil o talento é mais valorizado do que a vocação. E eu acho que para as pessoas fazerem bem o que fazem, a vocação é mais importante do que o talento. Quando existe o casamento dos dois, o céu é o limite. Talento não é razão pra você fazer uma atividade. Você tem que ter vocação. Só talento não te leva a lugar nenhum.

O que eu disse é que no Brasil existem muitos diretores sem vocação. Isso era a conclusão de um longo raciocínio. Mas num jornal saiu que no Brasil existem muitos diretores, ponto. Isso me choca. Que um colunista faça isso não me choca. Mas que o jornal que mais vende no país faça isso, me choca. Fiquei lisonjeado – pelo espaço – e envergonhado ao mesmo tempo. Acho que isso é falta de assunto. Mas não teve conseqüência nenhuma. Fiz uma blague: “Então vai dirigir táxi”. Mas se tratava de outra coisa.