A memória como ferramenta de denúncia vem da Síria
- Por Alysson Oliveira
- 30/10/2026
- Tempo de leitura 3 minutos
Tawfik Sabouni participou da Mostra de SP, na qual seu filme foi exibido (Crédito: Divulgação/Mario Miranda Filho/Agência Foto)
Em 2011, quando protestos tomavam conta da Síria pedindo reformas democráticas, Tawfik Sabouni foi levado à prisão de Saidnaya, próxima a Damasco. Quase uma década depois, exilado na Bélgica, ele voltou ao lugar, agora para filmar seu primeiro longa, O Outro Lado do Sol, exibido na 50a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
“Sempre quis mostrar ao mundo o que aconteceu dentro daquela prisão, dar voz aos entes queridos que lá desapareceram; mas eu queria fazer um filme, não um documentário. Fiquei obcecado pelo primeiro rosto que vi ali, no dia em que fui preso. E pelo fato de que tantos de nós passamos pela mesma experiência, sem sequer nos conhecermos”, explica em entrevista ao Cineweb.
Originalmente, ele pensou em reproduzir o prédio da prisão em Bruxelas, onde vive. Mas quando o regime de Bashar al-Assad caiu, ele e outros prisioneiros puderam voltar ao local e filmar ali. O longa combina documentário e reencenação de episódios que viveram. “Cheguei a escrever histórias, um roteiro, mas fomos adaptando conforme a realidade que cada um enfrentou no presídio.”
O próprio Sabouni aparece em frente à câmera ao lado de outros quatro sobreviventes, que ele conheceu ao longo do processo de produção do filme. Juntos revisitam o lugar, reconstruindo sua permanência ali. “Nossos corpos têm memórias, e foi a primeira vez que voltávamos ali. Eu tinha uma ideia do que cada pessoa tinha a dizer, mas o lugar nos levou a improvisar e trouxe coisas à tona, despertou nossas memórias.”
O cineasta define o lugar como “assombrado pelos choros dos homens que morreram naquela prisão”, e relembra de seus desafios em especial por estar dos dois lados da câmera. “Com os prisioneiros, compartilhei seu sofrimento, sua dor, suas memórias. E, por trás da câmera, junto à equipe, eu era o diretor. Portanto, o diretor de fotografia era, na verdade, meus olhos diante do monitor. Com os protagonistas, precisei, sem dúvida, captar seu luto e sua raiva; mas, por vezes, eram eles que captavam os meus. Eles foram fundamentais para que seguisse em frente com o filme.”
Sabouni (de camisa xadrez) e os outros quatro prisioneiros reencenando momentos na prisão (Crédito: Divulgação)
Em certas cenas, Sabouni usa manequins de tamanho humano real para representar os corpos de outros prisioneiros. Ele conta que a ideia veio do longa A Imagem que Falta, do cambojano Rithy Panh, que aborda a ditadura de seu país e representa desaparecidos políticos por meio de bonecos.
“Esses manequins me permitiram contar mais histórias além daquelas de nós cinco que estávamos ali. Eu também queria dar ao espectador uma ideia de como nós, prisioneiros, realmente éramos. Que tipo de corpo, que tipo de rosto uma pessoa tem quando está passando fome, quando muitos estão prestes a morrer? Esses bonecos eram os nossos reflexos. Quando, de repente, trazemos os guardas à cena, não é uma forma de reparar a experiência, mas sim uma exigência por justiça. Nossos carcereiros nunca foram levados à justiça. Hoje, eles vivem livremente, em toda parte — talvez até aqui. Eu queria mostrar a nossa raiva.”
O Outro Lado do Sol fez sua estreia mundial no Festival de Berlim, em fevereiro passado, e Sabouni e os outros quatro entrevistados estiveram presentes na sessão. “Foi, no fundo, uma celebração da vida, uma celebração dos sobreviventes, mas também uma maneira de nunca nos esquecermos daqueles que não puderam contar suas histórias.”
