Lúcia Murat retrata a fratura social brasileira em “Quase Dois Irmãos”
Diretora Lúcia Murat expõe contradições sociais do Brasil pela história de dois amigos de classes sociais diferentes que tomam rumos opostos.
- Por Neusa Barbosa
- 31/03/2005
- Tempo de leitura 3 minutos
Ainda assim, ela tem muito em comum com o personagem Miguel (Caco Ciocler), jovem de classe média, filho de um compositor, que cresceu junto do filho da empregada, Jorge (Flávio Bauraqui). “Meu pai era médico e tinha uma preocupação social enorme, atendia muitas vezes de graça. Tive a experiência de uma geração de formação mais progressista na infância. Não foi à toa que nos unimos na resistência à ditadura”, analisa.
Tendo vivido diretamente o período da luta armada dos anos 70, a diretora procurava um parceiro para desenvolver o outro lado que pretendia explorar na história, o das comunidades do morro dominadas pelo tráfico. E encontrou Paulo Lins por mero acaso. Já desenvolvendo o projeto deste filme, entre 1998 e 1999, ela conheceu o escritor, que acabara de publicar Cidade de Deus, numa conferência sobre violência e cultura, no Rio Grande do Sul.
Depois do encontro, ela leu o livro, mas foi filmar outro projeto, o filme Brava Gente Brasileira. Só depois vingou a parceria com Lins para escrever este roteiro, que resultou num filme co-produzido pela França e o Chile. Na França, Quase Dois Irmãos venceu um concurso de roteiro do Fond Sud, uma das grandes fontes de financiamento para projetos independentes de outros países. No exterior, vem colecionando prêmios em festivais, como Havana e Mar del Plata.
Quase Dois Irmãos tem uma veia quase documental nos diálogos, muitas vezes criados no próprio set pelos jovens atores de grupos como Nós do Morro e Nós do Cinema, formados a partir de comunidades de morros no Rio. “A gente explicava para eles qual era a situação da cena e eles iam inventavam as frases e a postura corporal, a partir do próprio repertório deles. A partir disso, a gente só organizava um pouco mais”, conta a diretora. Uma outra experiência real que Lúcia introduziu na história foi a dos relatos de diversas adolescentes que entrevistou. As meninas subiam o morro e tinham relacionamentos com traficantes, embora morassem fora das favelas – e estão representadas na personagem Juliana (Maria Flor), filha do protagonista Miguel. A partir destas entrevistas, Lúcia concluiu: “Essa atração delas pelos traficantes não é uma coisa de menina drogada e sim uma possibilidade de transgressão. Numa sociedade em que tudo é extremamente descartável, o morro exerce esse fascínio para elas”. O poder de vida e morte desses jovens soldados do tráfico é também outro fator de sedução junto às namoradas.
O balanço que a história faz da luta armada, da degeneração social, das desigualdades sociais e raciais pode até ser considerado amargo. Lúcia justifica: “Com tudo o que a gente vive hoje, não dá para pensar num final romântico. Mesmo assim, eu continuo pensando na utopia, isso é inerente à minha geração. Mas não quero dar uma resposta pronta à platéia”. Pensando no público e na proximidade temática de seu filme com Cidade de Deus, a diretora compara: “Meu filme não é tão aberto quanto ´Cidade de Deus´, é outra proposta. Inclusive, temos um lançamento bem menor”.
Lúcia também acredita que o impasse social vivido pelo Brasil não é uma situação exclusiva do País. “Vivemos uma situação muito barra-pesada e não só aqui, com o crescimento da violência, da miséria, do desemprego, do tráfico de drogas. O quadro de desigualdade social que se instalou, inclusive, não é coisa que se resolva de um momento para o outro. É preciso que todas essas questões sejam tratadas internacionalmente”.
