23/07/2026

Robert Drew planeja documentário sobre ministra Marina Silva

Documentarista americano Robert Drew visita o Brasil e estuda documentário sobre a ministra Marina Silva
Convidado de honra do 10º É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários, o documentarista americano Robert Drew, 81 anos, está estudando fazer um filme sobre a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Em entrevista coletiva em São Paulo, na terça (29/3), Drew revelou que “ a história de Marina Silva é uma que eu adoraria contar”.

Chama a atenção do cineasta a trajetória pessoal da ministra, que trabalhou na extração de borracha, aprendeu a ler e escrever já adolescente, tornando-se depois professora, militante do meio ambiente, parlamentar e ministra. Para ele, a relevância de Marina Silva cresce por sua ligação com a Amazônia, que ele também considera “um dos maiores assuntos do nosso tempo”.

O projeto deste filme, porém, ainda deverá amadurecer. Drew pretende aproveitar sua estadia no festival – que se estende de 29 de março a 10 de abril em São Paulo e no Rio – para conhecer o trabalho dos documentaristas brasileiros, o que ainda não teve oportunidade de fazer. O diretor do festival, Amir Labaki, pretende mostrar-lhe, por exemplo, o filme Entreatos, de João Moreira Salles, que retrata a campanha de Luís Inácio Lula da Silva à presidência e guarda semelhanças com o estilo despojado e direto do próprio Drew em filmes como Primárias (1960). Neste filme, que faz parte da programação do festival, Drew retratou as eleições primárias no estado de Wisconsin em que concorriam pela indicação ao Partido Democrata na corrida à Presidência os candidatos John F. Kennedy e Hubert H. Humphrey.

Esta é a segunda visita de Drew ao Brasil. Durante a II Guerra Mundial, quando foi piloto de caça, ele passou brevemente pela base militar americana de Natal. Ele recordou que, durante a guerra, conheceu pilotos brasileiros na Itália, que participavam das mesmas missões que ele. “Os brasileiros fizeram um ótimo trabalho”, elogiou.

Foi na guerra, também, que Drew aproximou-se do jornalismo, que seria sua porta de entrada para os documentários. Ele ainda era um piloto quando conheceu o jornalista Earnie Pile, um correspondente de guerra bem diferente dos demais. Drew o descreve: “Ele escrevia de dia e ia conosco para os bares à noite. E seu textos me eletrizavam. O que ele escrevia trazia a emoção de tudo aquilo que a gente vivia no front. Admirei o poder do que ele fazia de imediato. Jamais poderia imaginar que mais tarde eu faria o mesmo com meus filmes”.

A diferença de Pile e dos demais jornalistas, para Drew, era esta: “Todos os jornalistas contavam a guerra de uma forma abstrata, sobre um exército contra o outro, de um general contra o outro. Ele, não. Ele contava histórias humanas sobre pessoas”.

Mais tarde, em 1958, Drew tornou-se editor e correspondente da revista Life. Ele confessa que, nessa época, os documentários ainda eram “um grande mistério” para ele. Ele chegou a fazer um, não gostou, mas também não identificou os motivos. Passou um ano estudando como bolsista de pesquisas na Universidade de Harvard e chegou a uma conclusão: “Todos os documentários que se viam naquela época eram palestras. Se a gente tirasse o som, não se tinha a menor idéia do que estava acontecendo neles”. A partir daí, ele se determinou a fazer documentários em que as imagens tivessem muita força e em que personagens se desenvolvessem. “Queria que os documentários tivessem a mesma lógica de um filme de ficção”, explica. Por isso, ele acabou se aplicando a reduzir os equipamentos de som necessários – que na época envolviam cabos, grandes câmeras e muita parafernália – porque queria mostrar “só a pessoa diante da câmera”.

Para alguém que, como ele, inventou uma câmera portátil com som sincronizado nos anos 60 para poder filmar da maneira direta que fez sua fama, a revolução das câmeras digitais é um dado animador. “Estamos no meio de uma revolução técnica e espiritual. Espero obras-primas de crianças de 9 anos, meninas de 13 anos, estudantes, operários. Mesmo que para cada obra-prima haja um milhão de fracassos. Com tantas câmeras e tantas pessoas pensando em algum assunto, coisas boas certamente sairão”, prevê.

Drew mantém uma grande ligação com a profissão jornalística. Por causa disso, ele tem reservas ao tipo de jornalismo televisivo praticado hoje em dia. “Acho que o repórter verdadeiro faz reportagem. Uma pessoa com um microfone na mão é apenas uma vitrine”, critica. Ainda assim, ele acha “impressionante” a cobertura da guerra do Iraque. Em relação às emissoras americanas, ele acha “impressionante que cada uma seja capaz de cobrir a guerra segundo um ponto de vista. Se desejamos saber o que pensa o governo republicano, assistimos à Fox. Se queremos um jornalismo mais objetivo, a CNN, e assim por diante”. Para Drew, um bom documentário “é uma boa reportagem. Ele deve passar para os outros a verdade e deixar o espectador ver e pensar por si mesmo”.

Indagado sobre sua opinião sobre o colega e compatriota Michael Moore, Drew foi mais crítico: “Moore é um gênio, um showman, mas não é um repórter, é um comentarista, um propagandista. Sou totalmente solidário com ele, mas é piada chamá-lo de documentarista”. Para ele, o grande problema é que “Moore fica dizendo ao espectador o que pensar”. Desta forma, Drew também não acha que a popularidade de Moore ajuda a maior circulação dos documentários junto ao público: “Ele não vai abrir mais campo para a reportagem. No máximo, vai abrir mais espaço para a diversão, para o sentido humorístico das coisas, ainda que seja uma tragédia”.