24/07/2026

Lucrecia Martel disseca a sexualidade entre o profano e o sagrado

A cineasta argentina Lucrecia Martel fala de sua volta às telas com "A Menina Santa", seu segundo filme, que foi produzido por Pedro Almodóvar e retrata paixões proibidas e jogo de aparências.
Com 38 anos e apenas dois filmes no currículo, a cineasta argentina Lucrecia Martel tornou-se uma referência dentro do cinema do continente. O motivo está na própria qualidade dos dois filmes: Pântano, sucesso de público e crítica dentro de fora da Argentina, e A Menina Santa, que foi produzido por Pedro Almodóvar e concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2004. A notoriedade não abala, porém, esta diretora surpreendentemente compenetrada e simples, capaz de respostas certeiras e inimiga de pretensões intelectuais. Nesta entrevista, concedida no Festival de Cannes, em 2004, ela define os princípios que regem seu modo de filmar e comenta a particularidade do cinema argentino nos dias atuais.

Cineweb - Seu filme fala, entre outras coisas, de religião. Que papel você atribui ao catolicismo para os males da América Latina?

Lucrecia – Falo da religião católica porque é a minha educação, é o problema que tenho de enfrentar. Quase me teria servido qualquer sistema de pensamento moral como a religião católica, que creio que como todas que imperam no Ocidente sejam impostas da maneira um pouco brutal sobre o corpo. O que na realidade me interessa é o corpo entendido como um organismo muito complexo do qual quase não sabemos nada e ao qual historicamente desatendemos. O que me interessa, em última instância, e para isso não tenho preconceitos nem respostas, é se é possível apenas do foco sobre o orgânico, sobre o corpo, fazer surgir alguma idéia ética, alguma moral possível. Me parece que o tema do filme não está tão longe de outras imposições, como a medicina. A medicina tem o mesmo poder de abuso sobre o corpo que a religião.

Cineweb - Chama a atenção como você coloca a câmera tão próxima dos personagens, me parece que também para captar essa fisicalidade. Isso tem relação com seu desejo de captar os segredos entre os personagens ?

Lucrecia – Uma coisa física, já que falamos do orgânico, é que sou míope, muito míope. Mas o que me agrada também nessa aproximação da câmera é o sentimento de impotência. Ainda que as pessoas se acerquem, o segredo persiste – e isso me agrada.

Cineweb - Você incorpora uma porção de ruídos do ambiente ao som de seus filmes. Por que faz isso?

Lucrecia– Sinceramente, o que mais me atrai nos filmes é o som. Quando fantasio sobre a perda de qual sentido me faria mais falta, penso que poderia perder as pernas e continuar sendo feliz. Poderia passar também sem a vista. Mas quando penso na hipótese de perder a audição, sinto que seria insuportável. Quando escrevo e penso nas histórias, para mim o som é fundamental, é o único fator que me dá o tom final do filme. Assim, é algo que tenho claro muito antes. Para mim, era claro desde o começo que o tom deste filme estava no nível dos segredos, de quando se contam segredos, e no nível da conversa social, formal. Não poderia haver nenhum grito, nenhum escândalo. Era esse o tom da película. Me pareceu também que a textura do filme tinha de ser a voz humana. Por isso, passei uma semana antes da filmagem reunindo uma porção de vozes distintas, de crianças, de adultos, vozes bem diferentes.

Cineweb - Você escolhe um tempo e lugar indeterminados para a ação do filme. Qual a importância disso para você?

Lucrecia – O ambíguo, o indefinido, o contínuo em todos os aspectos da vida me fascinam. Então me parece que inevitavelmente coloco isto em meus filmes. Não é algo que faço deliberadamente, apenas acontece.

Cineweb - É correto enxergar em seus filmes metáforas da sociedade argentina?

Lucrecia – Há pessoas que fazem estas associações, porque talvez haja elementos para isso. Na verdade, eu nunca penso metaforicamente, simbolicamente. Me parece que este também pode ser um vício de leitura. Penso que há pessoas que, quando vêem algo muito condensado, tendem a pensar que há ali algum símbolo. Mas são apenas emoções condensadas ou complexas.

Cineweb - A água é um elemento constante em seus filmes. Isso não é uma metáfora?

Lucrecia – Não faço isso para criar metáforas. Na verdade, tenho horror de piscinas, daquelas piscinas azuis, de água clara. Posso nadar num rio de águas claras, como o rio Paraná, o rio da Prata. A idéia das piscinas me dá nojo. Porém, me agradam muitíssimo como cenário. Ainda que para pôr a câmera eu nunca entre na piscina, sempre peço para outra pessoa.

Cineweb - A colocação da câmera, aliás, é muito precisa em seus filmes. Como prepara isso?

Lucrecia – Na verdade o que te permite essa precisão na colocação da câmera é quando você tem muito clara a questão do som. Isso te permite condensar muito mais esta colocação. Tenho certeza de que os diretores que filmam muitíssimo, a partir de ângulos diferentes, às vezes não sabem muito bem o que fazer. Pode ser que façam isso simplesmente porque gostem. Mas eu acredito que se você sabe bem como soa a cena, não necessita filmar tanto. Eu filmo bastante pouco, em termos de película. A colocação da câmera nós determinamos no momento da filmagem. No set, nos primeiros vinte minutos, passamos toda a cena, e decido onde colocamos. São três quatro tomadas, não mais do que isso. Ainda que seja improvisada, é muito pessoal.

Cineweb - Como Pedro Almodóvar entrou na produção deste seu segundo filme?

Lucrecia – Alguém nos disse que ele havia visto Pântano e havia gostado muito. Então, quando desenvolvemos este projeto, lhe mandamos. Ele gostou do roteiro e imediatamente começamos a trabalhar na co-produção.

Cineweb - O assédio sexual do médico à menina na rua foi casual ou tem algo a ver com alguma experiência sua?

Lucrecia – Penso que na Argentina não há uma única mulher que não tenha sofrido esse tipo de molestamento, ser “encoxada”. É inacreditável. Me pareceu apropriado por ser muito comum. Tampouco se tratava de um estupro. Era uma coisa pequena. E por ser secreto também. Não se fala disso.

Cineweb - Fala-se muito no novo cinema argentino, numa nova geração de criadores nesse país. Você se sente parte disso?

Lucrecia – Me encanta sentir-me parte de uma geração. Creio que não é um grupo, nem ideologicamente nem esteticamente. É uma geração, não um grupo, um movimento. O que acredito é que me sinto a senhora mais velha da turma. Mas por idade.

Cineweb – O diretor Walter Salles costuma dizer que o jovem cinema argentino é o melhor do mundo, melhor mesmo do que o muito celebrado cinema chinês. O que acha disso?

Lucrecia – Walter Salles é muito generoso. Ele é um tipo realmente incrível. Ele sabe mais do que eu, porque esteve em mais países, provavelmente tem suas razões. O que acredito é que na Argentina há muitíssima gente que filma com orçamentos baixíssimos e medianos e quem sabe por sorte, não por um movimento, é muito diferente o que se está fazendo ali. Tenho 38 anos. Não vivi diferentes etapas do cinema. Mas posso dizer que esta é uma época assombrosamente promissora para nós e para nosso país.

Cineweb - Houve alguma diferença na produção deste segundo filme, em relação ao primeiro?

Lucrecia– O momento que mais me divertiu foi o casting das duas jovens protagonistas. Entrevistei 1.400 jovens até encontrar María e Julieta. E esse me parece até um número baixo. Nesse sentido foi igual a O Pântano. Para mim, escrever o roteiro e ser muito cuidadosa no casting são os momentos de maiores decisões a tomar dentro do filme.

Cineweb - Como você encontra seus temas para filmar?

Lucrecia – Toda minha teoria sobre como filmar, tudo que penso sobre a vida vem das enormes mentiras que nos inventam para chegar de uma maneira mais ou menos feliz ao final de sua vida. A mim me encanta que hajam pessoas com idéias contraditórias sobre sua obra, quem sabe os resultados sejam parecidos. E às vezes pessoas com idéias semelhantes sobre certas coisas os resultados são muito diferentes. Na verdade, são invenções que fazem para poder atravessar a existência de alguma maneira.