Filmes de estreantes dominam a mostra Território no Cine BH
- Por Neusa Barbosa, de Belo Horizonte
- 29/09/2023
- Tempo de leitura 3 minutos

Belo Horizonte – Já em sua reta final, o Cine BH destacou três longas desafiadores de estreantes na mostra competitiva Território: o argentino Moto, de Gastón Sahajdacny, que acompanha dois jovens trabalhadores, Mariano e Constanza, pelas ruas de Córdoba, compondo um retrato sutil de uma vida interiorana e suas limitações; o cubano Llamadas desde Moscú, de Luis Alejandro Yero, trazendo depoimentos de imigrantes cubanos gays isolados em Moscou, sofrendo todo tipo de inadequação, desde o clima até a solidão; e o experimental chileno Otro Sol, de Francisco Rodríguez Teare, um artista visual que cria uma série de narrativas sobrepostas em torno de um famoso ladrão de tesouros de uma igreja espanhola e personagens deslocados no tempo e no espaço.

Moto cria uma ficção de marca dramática delicada entre dois jovens atores não-profissionais, construindo na tela um relacionamento romântico sutil, em que eles basicamente se deslocam por espaços da cidade de Córdoba, trazendo para a tela uma paisagem urbana muito diferente da capital, Buenos Aires, que domina a maior parte da produção cinematográfica argentina.
Realizado ao longo de 7 anos, o filme teve início, segundo o diretor, presente a BH, “retratar os limites de classe para habitar a cidade e situar uma ideia de fronteira e também de criminalização da pobreza”. Não à toa, o filme é dedicado aos jovens “vítimas do gatilho fácil”, como é definido na Argentina a violência policial contra jovens pobres e periféricos.
Estritamente documental, a produção cubana Llamadas desde Moscú fecha seu registro nas frequentes chamadas telefônicas de imigrantes cubanos vivendo em Moscou, todos eles gays. Tendo um apartamento como cenário, eles se revezam em conversas em que traduzem sua inadaptação ao clima local – naquele momento é um inverno rigoroso, com muita neve -, sua saudade da família e a impossibilidade tanto de ficar quanto de voltar, por problemas econômicos. O filme também traduz, nas entrelinhas, um olhar sobre a relação entre Cuba e a Rússia, um dos poucos países do mundo a aceitar cubanos sem necessidade de visto, na véspera da eclosão da guerra contra a Ucrânia.Luis Alejandro Yero, diretor do filme "Llamadas desde Moscú"
Crédito: Neusa Barbosa
Em Otro Sol, Teare desfaz continuamente as fronteiras entre os gêneros e os tempos, situando seus personagens dentro de narrativas que se sobrepõem em torno de Alberto Candía – que seria um famoso ladrão de tesouros da catedral de Cádiz, Espanha.
A procura do diretor, evidentemente, situa-se bem além de reconstituir a história do ladrão, que teria praticado o roubo com um comparsa e escapado de volta ao Chile. E ele o faz retratando um velho ladrão desmemoriado do lugar onde teria escondido seus tesouros – enterrados junto com o corpo do cúmplice, que ele matou – e suas relações com dois jovens, um deles, seu sobrinho. Este sobrinho e seu primo, alternam suas identidades na tela, vivendo aventuras como uma reconstituição do antigo roubo pela dupla de ladrões e também outras vivências – estas remetendo a explorações também sobre a identidade chilena e ao despojamento da vida e das expectativas destes jovens pobres, em paisagens tão destituídas quanto eles, em cenários de ruínas e também do deserto de Atacama.
Coprodução entre o Chile, a França e a Bélgica, Otro Sol circulou antes pelos festivais Cinéma du Réel, Chiledoc e IndieLisboa.
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