21/07/2026

Euzhan Palcy, uma pioneira do cinema negro e feminino

Homenageada pela Mostra de São Paulo com o troféu Humanidade, a cineasta martiniquenha Euzhan Palcy é uma pioneira do cinema negro e feminino, além de uma mulher culta e elegante na linguagem e nos figurinos. Ela já tinha visitado o Brasil uma única vez, muitos anos atrás. Na época divulgando seu drama político Assassinato sob Custódia (1989), ela se recorda da ocasião com alegria: “Tive a oportunidade de encontrar pessoas que amo, como Gilberto Gil e Tom Jobim, compositor de músicas do filme Orfeu Negro, que eu adorava por ter sido o primeiro filme que vi, ainda muito jovem, só com pessoas negras”, afirmou em entrevista que me concedeu em São Paulo. Ela nunca mais pode esquecer do filme também por outro detalhe: todos lhe diziam que era muito parecida com a atriz norte-americana Marpessa Dawn, que interpretava Eurídice. “Na época, eu tinha cabelos compridos como ela e me diziam que poderíamos ser irmãs”, diverte-se.

Ela recorda que deve ter visto Orfeu Negro “umas 100 vezes”. E completa: “Fiquei tão feliz que as pessoas negras ali não eram retratadas como selvagens ou bandidos. Os colonizadores não só roubaram nossas terras, eles as destruíram e depois ainda ganharam dinheiro retratando as pessoas negras como pessoas más. É terrível”.

Euzhan, aliás, reproduziu a mesma dignidade nos personagens de seu filme de estreia, Rua Cases Nègres (1983). Adaptando romance do escritor Joseph Zobel, que foi seu livro de cabeceira, ela retratou uma comunidade de trabalhadores nas plantações de cana-de-açúcar de seu país nos anos 1930 onde, apesar da exploração e das dificuldades extremas, as pessoas compartilham alegria, amizade e um agudo sentido de comunidade. O filme, aliás, abriu todas as oportunidades para a diretora, na época com 25 anos, ao competir no Festival de Veneza e vencer o Leão de Prata de direção e o prêmio de melhor atriz para a veterana Darling Légitimus, de 76 anos, além de um posterior César de melhor filme de estreante. Prêmios pioneiros também porque foi a primeira vez que uma diretora negra e uma atriz negra venciam no festival italiano.

Olhando em perspectiva, 42 anos depois, parece difícil acreditar que “ninguém queria produzir o filme”, como lembra a diretora. Mesmo depois de realizado, seu trabalho foi esnobado pelo comitê de seleção do Festival de Cannes. “Ninguém quis nem mesmo ver o filme naquele comitê, integrado majoritariamente por homens. Diziam que ‘não era o estilo’ de Cannes’”, critica. E acrescenta que foi “um tapa na cara deles” quando Veneza selecionou o filme, afinal tão premiado.

A cineasta sente-se extremamente grata pela acolhida que teve na Itália: “Nunca vou esquecer como os italianos foram calorosos. Eu estava magoada pelo fato de que Cannes nem mesmo quisera ver o filme e colocá-lo na seleção, em qualquer seção que fosse. E aí veio Veneza, que o inseriu na seção principal. Eu pensava que não teríamos qualquer prêmio. Disse isso à minha equipe e também ao meu padrinho, François Truffaut, que na época estava no hospital. Nos comunicávamos então através de cartas, porque não podia vê-lo. Disse a ele que tínhamos sido selecionados mas que eu não tinha qualquer expectativa. Estar lá já seria um prêmio. E ele me parabenizou, dizendo que era uma atitude muito sensata”.

A viagem a Veneza foi uma aventura e tanto também para o menino Garry Cadenat, protagonista do filme, que foi para o festival com a mãe, já que era filho único e aquela seria uma experiência imperdível. Ela se lembra de que Garry se assustou porque todo mundo em Veneza queria abraçá-lo, beijá-lo. “Depois da sessão, tínhamos combinado que íamos sair logo, mas fomos bloqueados. Ele ficou agarrado em mim e todos em volta queriam beijá-lo. Foi incrível”.

Truffaut

Ela conta também como conheceu François Truffaut. Primeiro, entrou em contato com seus filmes, como por exemplo O Garoto Selvagem (1970). “Fiquei fascinada por aquele filme. Depois entendi que era também por causa do menino. Adoro crianças, coloco-as em todos os meus filmes, assim como os idosos, como figuras maternais ou paternais”.

Quando ela assistiu ao filme, não sabia nada sobre Truffaut. Depois, quando foi estudar na França - cursou Literatura e Cinema -, foi assistir todos os filmes dele. E sempre dizia às suas colegas na residência estudantil onde morava o quanto gostaria de conhecê-lo. E um dia, por acaso, descobriu que uma delas conhecia a filha de Truffaut, Laura, que era colega da outra na Escola Normal Superior.

Na época, Euzhan já estava escrevendo e reescrevendo o roteiro de Rua Cases Nègres. E conta que todas as suas colegas da residência acompanhavam esse processo, porque ela lia para elas as cenas que ia criando quando se reuniam no jardim da casa, aos domingos. E um dia sua colega convidou Laura Truffaut para vir e encontrar Euzhan. Ela veio, as duas conversaram e Laura pediu-lhe o roteiro para levar ao pai para ler. A princípio, Euzhan recusou, temendo que o diretor não fosse gostar. Mas acabou cedendo e lhe dando uma cópia.

Uma semana depois, Euzhan recebeu um telefonema de Suzanne Schiffman, que era corroteirista e continuísta do diretor. “Ela me disse que Truffaut queria se encontrar comigo. Fiquei apavorada. Eu ia me encontrar com o mestre e era tão tímida. Fui vê-lo e não conseguia ver seus olhos, enquanto lia o script. E ele me perguntou se eu tinha feito a adaptação sozinha. Eu respondi que sim e ele me perguntou: ‘Quem te orientou?’Na época, eu tinha feito muito pouca coisa, apenas um pequeno filme para a TV, La Messagère”.

La Messagère, na verdade, era uma pequena história que ela tinha escrito aos 17 anos e, a princípio, tinha guardado numa gaveta. Anos depois, quando participava de um programa radiofônico de poesia - ela também escrevia -, conheceu um produtor de TV que se tornou seu amigo e concretizou a produção.

Voltando a Truffaut, ele leu o roteiro de Rua Cases Nègres e lhe deu vários conselhos sobre a estrutura - sugerindo, por exemplo, a alteração da ordem de determinadas cenas. Mesmo assim, ele se disse “muito impressionado” pelo trabalho dela. “Ele se tornou meu mentor. Disse-me para procurá-lo para qualquer coisa de que precisasse”.

Ela acabou não o procurando, apesar das dificuldades que teve para produzir o filme, mesmo tendo sido premiado com a maior dotação orçamentária do Ministério da Cultura na época. Só voltou a ver o diretor pouco antes da morte dele, quando ele saiu brevemente do hospital para receber o prêmio César de carreira, na mesma cerimônia em que ela recebeu o troféu pela melhor obra de estreia. “Quando eu me levantei para receber meu prêmio, passei por ele e ele apertou minha mão. Foi a última vez que o vi, porque pouco depois ele morreu”.

Mandela

No debate que manteve com o público, após a sessão de Assassinato sob Custódia (1989), no sábado (18/10), no CineSesc, a diretora também comentou seu contato com o ex-presidente sul-africano Nelson Mandela. Na época do lançamento, Mandela ainda estava na prisão, por sua militância contra o regime do apartheid, que só cairia em 1994.

Euzhan conta que, depois que foi libertado, em 1990, Mandela assistiu ao filme e manifestou o desejo de conhecer a cineasta, o que acabou acontecendo anos depois, quando Mandela foi eleito o primeiro presidente negro do país. A diretora passou uma semana na África do Sul então, conhecendo o líder, que havia permanecido preso por 27 anos.

No filme, Euzhan contou ter inserido diversas informações que não constavam do livro que foi o ponto de partida do roteiro, A Dry White Season, de André Brink. “Ele mencionava torturas aos militantes anti-apartheid, mas não dava detalhes. Eu os obtive a partir de diversos depoimentos que colhi quando viajei clandestinamente até Soweto”. Era uma viagem perigosa, já que na época a cidade era uma espécie de gueto para os negros, que sofriam toda espécie de violência. Mas as informações colhidas por Euzhan permitiram que retratasse com maior veracidade no filme o calvário do personagem do jardineiro Gordon Ngubene (Winston Ntshona), despertando a consciência de seu alienado patrão branco, o professor Ben Du Toit (Donald Sutherland) para a opressão sofrida pela maioria negra. Na época, o filme teve uma indicação ao Oscar, para o ator Marlon Brando, que interpretava o advogado Ian McKenzie, que tenta responsabilizar os torturadores do jardineiro. (Neusa Barbosa)

RUA CASES NÈGRES (SUGAR CANE ALLEY), de Euzhan Palcy (106').

RESERVA CULTURAL - SALA 2 21/10/25 - 13:00 - Sessão: 442 (Terça)

ASSASSINATO SOB CUSTÓDIA (A DRY WHITE SEASON), de Euzhan Palcy (107').

MULTIPLEX PLAYARTE MARABÁ - SALA 1 28/10/25 - 14:20

RESERVA CULTURAL - SALA 2 29/10/25 - 19:00

Outras dicas da Mostra

A História do Som

O diretor sul-africano Oliver Hermanus estreou na competição de Cannes deste ano com este muito digno exemplar de drama romântico de época, estrelado pelo irlandês Paul Mescal e o inglês Josh O’Connor. Eles interpretam, respectivamente, Lionel e David, dois estudantes de música nos EUA do começo do século XX que vivem um amor delicado, intenso e proibido.

Hermanus mostra mão segura para compor o relacionamento destes dois homens de origem social bem diferente - Lionel vem de uma modesta família rural do Kentucky, David é órfão numa família de classe média alta - e cujos interesses decolam na música. Lionel é cantor, David compositor, e os dois embarcam a certa altura numa viagem de pesquisa pelo interior norte-americano, colhendo melodias populares, gravadas num gravador de cilindros de cera, a tecnologia disponível à época - num trabalho de pesquisa semelhante ao realizado por Mário de Andrade no Brasil, nos anos 1920.

A História do Som é pleno de atmosferas e tira bom proveito dessas melodias que os dois pesquisadores vão colhendo, enquanto vivem esse relacionamento impedido pelos preconceitos da época. A composição dramática dos dois personagens é também notável. Num elenco com poucas participações femininas, restam duas a observar, de Hadley Robinson e Emma Canning. Chris Cooper faz outra entrada notável na parte final. (Neusa Barbosa)

A HISTÓRIA DO SOM (THE HISTORY OF SOUND), de Oliver Hermanus (127').

ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1 20/10/25 - 17:30

MULTIPLEX PLAYARTE MARABÁ - SALA 1 23/10/25 - 16:30

ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 2 26/10/25 - 13:45

CULTURA ARTÍSTICA 29/10/25 - 21:45

Abaixo das Nuvens

Vencedor de um Leão de Ouro em 2013 com o documentário Sacro Gra, na primeira vez em que um filme do gênero entrou na disputa, Gianfranco Rosi venceu um Prêmio do Júri em Veneza 2025 com este outro documentário, que surpreende positivamente em mais de um sentido.

Alguns poderiam esperar um filme menor ao saber da fotografia em P&B e do foco único na região de Nápoles. Mas é justamente desse rigor ético e estético que o experiente cineasta extrai uma intensidade que se equilibra a partir de uma gama de personagens admiráveis e de cenários nada turísticos.

Se a cena inicial se ambienta justamente nas nuvens em torno do vulcão Vesúvio, justificando o título do filme, isso também se desdobra como o contexto de diversas chamadas à central de atendimento dos bombeiros locais, pedindo informações ou socorro devido aos constantes tremores de terra. Apesar da gravidade de várias chamadas, essa central proporciona também
alguns momentos de humor, a partir do telefonema diário de um senhor apenas para pedir as horas e da tentativa de trote de uma criança - admoestada paternalmente pelo atendente.

O filme revela também o trabalho de alguns bombeiros para identificar as inúmeras rotas secretas dos ladrões de tumbas, que há décadas devastam o admirável patrimônio histórico da região - parte do qual pode ser vista no imenso Museu Arqueológico de Nápoles, em que uma veterana funcionária, Maria Morisco, revela os subterrâneos repletos de estátuas e objetos não expostos.

Um velho professor, Titti, abre sua casa para acolher crianças e adolescentes fora do período de aulas, ajudando-as nos deveres enquanto seus pais estão no trabalho - suprindo uma carência de espaços onde eles poderiam estar, a salvo das ruas e outros perigos.

No porto, um navio sírio vai e vem da Ucrânia, trazendo cereais, colocando em risco a vida destes marinheiros que estão habituados a uma outra guerra interminável em seu próprio país.

Tudo isso e muito mais se organiza num filme que conduz seus espectadores numa espécie de viagem por essa região italiana, desdobrando um panorama humano da contemporaneidade talvez ainda mais revelador do que Sacro Gra. (Neusa Barbosa)

ABAIXO DAS NUVENS (BELOW THE CLOUDS), de Gianfranco Rosi (115').

CINEMATECA SALA PETROBRAS 20/10/25 - 21:00

CINEMATECA SALA GRANDE OTELO 23/10/25 - 14:00

RESERVA CULTURAL - SALA 2 25/10/25 - 17:00

ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 2 27/10/25 - 15:25

Cover Up

Vencedora de um Oscar em 2015 pelo documentário Citizenfour e do Leão de Ouro em 2022 pelo filme All the Beauty and the Bloodshed, a diretora norte-americana Laura Poitras entrou na programação de Veneza, fora de competição, com outro documentário vibrante, Cover Up.

Perfilando a figura do célebre jornalista investigativo norte-americano Seymour Hersh, a cineasta explora os bastidores de inúmeros escândalos políticos nos EUA, da Guerra do Vietnã à de Gaza, passando por Watergate, a partir do trabalho incansável deste repórter, hoje com 88 anos.

Vencedor de um prêmio Pulitzer em 1970 por sua implacável denúncia dos massacres de civis por tropas americanas no Vietnã, Sy Hersh, como é chamado, é o fio condutor deste processo em que o filme expõe a maneira sistemática como governos dos EUA procuraram encobrir os crimes cometidos pela CIA e o Departamento de Estado - e que jornalistas como Sy têm ajudado a desmascarar.

Laura não deixa de incluir no filme alguns conflitos com Sy, um personagem de personalidade aguerrida que, num determinado momento, insatisfeito com o rumo de alguma coisa, decide deixar de participar do filme - impasse que depois é superado. A própria vida profissional de Sy, no entanto, é um verdadeiro manual de como os EUA praticaram seu imperialismo sistemático sobre nações como o Vietnã, o Iraque e outras - hoje, com seu apoio e também omissão, permitindo o massacre de civis em Gaza por seu aliado, Israel. (Neusa Barbosa)

COVER-UP (COVER-UP), de Laura Poitras, Mark Obenhaus (117').

CINESESC 17/10/25 - 15:00

ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 1 20/10/25 - 15:15

ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 2 22/10/25 - 17:30

ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA ANEXO 4 26/10/25 - 21:10

Amiga Silenciosa

Se houve um filme na reta final que valeu o tempo dispendido foi a coprodução franco-húngara-alemã Amiga Silenciosa, novo filme da premiada diretora húngara Ildilkó Enyedi, vencedora do Urso de Ouro no Festival de Berlim 2017 pelo drama Corpo e Alma.

Num filme ambientado na Alemanha e falado quase todo em alemão, a diretora articula três histórias em tempos diferentes inspiradas na relação entre plantas e seres humanos, contando com imagens de extrema e inquietante beleza.

Sempre a partir do cenário do horto botânico de uma universidade alemã, a narrativa acompanha a pesquisa contemporânea de um neurocientista de Hong Kong (Tony Leung Chiu-Wai) sobre uma centenária árvore, um ginko biloba; os experimentos de estudantes na mesma universidade nos anos 1970 a partir de um gerânio; e os desafios de uma jovem (Luna Wedler, prêmio Marcello Mastroianni de atriz iniciante) que, em 1908, conseguiu superar as barreiras para tornar-se a primeira aluna mulher da instituição.

Trata-se de um filme de muitas camadas, que a alguns pode parecer pretensioso ou hermético, mas sem dúvida tem vários pontos de interesse. O melhor conselho para quem quiser aproveitá-lo é deixar-se levar pelas imagens e sensações. (Neusa Barbosa)

AMIGA SILENCIOSA (SILENT FRIEND), de Ildikó Enyedi (147').

CINEMATECA SALA PETROBRAS 20/10/25 - 16:00

CINESESC 22/10/25 - 15:00

MULTIPLEX PLAYARTE MARABÁ - SALA 1 25/10/25 - 18:50

CULTURA ARTÍSTICA 28/10/25 - 14:15

Não Sei Viver Sem Palavras

Para algumas pessoas pode ser irresistível chamar este documentário de Não Sei Viver Sem Palavras de Retrato do Artista Enquanto Pai, afinal o filme é um retrato do Ignácio de Loyola Brandão assinado por seu filho, André Brandão. Mas o longa vai muito além de um registro de filho para pai em seu olhar carinhoso e honesto sobre o romancista e jornalista.

André, é claro, parte do seu ponto de vista de filho, mas não limita a isso o documentário que começou a filmar por acaso quando voltou a morar com o pai durante a pandemia, em 2020. “Quando eu percebi, tinha centenas de clipes dele no celular. Era um material interessante que merecia ser visto por mais pessoas”, explica em entrevista ao Cineweb.

Formado em engenharia e fotógrafo por profissão, André começou a se dedicar ao audiovisual, dirigindo a série documental Fronteiras do Pensamento, com pensadores como Werner Herzog e Graça Machel. No filme sobre Ignácio, ele explica que buscou um equilíbrio entre o documentarista e o filho. “Não podia fingir que não era sobre meu pai, mas também não podia ser exclusivamente sob esse prisma.”

Para encontrar o meio-termo, ele contou com os roteiristas André Meirelles Collazzo, Vivian Brito e Ricardo Caioba, que era seu sócio na época. O filme é todo construído a partir de palavras do escritor, seja em depoimentos inéditos para o documentário, trechos de seus escritos ou de entrevistas que concedeu ao longo da vida. “A ideia era mostrá-lo como ele realmente é e celebrar o seu carisma”.

Além disso, o filme conta com imagens feitas pelo próprio Ignácio com uma câmera ao longo de sua vida. “Eu brinco que é um filme que ele começou e eu terminei. No fundo, ele queria mesmo era trabalhar com cinema. Tentou ser roteirista na Itália nos anos de 1960.”

Ignácio é um dos principais escritores brasileiros surgidos a partir da segunda metade do século XX, autor de romances como Não Verás País Nenhum (1981), Zero (1975) e Bebel Que a Cidade Comeu (1968), esse adaptado para o cinema em 1968, por Maurice Capovilla, com o título Bebel, A Garota Propaganda.

André conta que desde que consegue se lembrar, estava entre os livros do pai. “Eu me lembro de dormir embaixo de mesa de livraria onde aconteciam lançamentos, então sempre fiz parte desse universo dele. Porém, fazer um filme sobre ele me permitiu conhecê-lo melhor, não apenas como artista, mas também como pessoa, e acabamos nos aproximando ainda mais”. (Alysson Oliveira)

NÃO SEI VIVER SEM PALAVRAS (NO LIFE WITHOUT WORDS), de André Brandão (80').

ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA SALA 2 - 20/10/25 - 21:30

ESPAÇO PETROBRAS DE CINEMA ANEXO 4 - 28/10/25 - 19:20

A Memória do Cheiro das Coisas

Coprodução entre Portugal e Brasil, o drama A Memória do Cheiro das Coisas toca em temas caros ao país europeu nesse momento, como imigração e as feridas das guerras coloniais que ocorreram nos anos de 1960 e na década seguinte. Seu diretor lusitano António Ferreira explica que essa é uma questão complexa em seu país, e que os veteranos dos combates não falam sobre isso. Por isso, resta às gerações seguintes, como a sua, abordar a questão.

“Parece que o 25 de abril [de 1974, conhecido como a Revolução dos Cravos] resolveu tudo isso, acabou com as guerras. Mas essa visão não é consensual. E só isso se fala sobre os conflitos”, conta em entrevista ao Cineweb.

O protagonista de seu longa, Arménio (José Martins), lutou nas guerra coloniais, e hoje, idoso, é colocado numa casa de repouso por seu filho. Enquanto encara feridas do seu passado, ele precisa lidar com uma nova realidade que o aflige, ser cuidado por uma enfermeira negra, Hermínia (Mina Andala).

“A conexão entre os dois temas me chamou a atenção alguns anos atrás, quando um ex-combatente, que lutara em Angola, assassinou na rua um homem negro, o ator Bruno Candé. Antes de o matar, vinha insultando-o há dias com frases racistas”.

No filme, o diretor retrata um homem que tem problemas com seu passado como combatente na África e que, ao ser cuidado por uma mulher negra, acaba estabelecendo vínculos de afeto e respeito mútuo com ela. “É preciso encarar o racismo estrutural que existe em Portugal para que se possa lidar com esse problema. Não adianta fingir que não está ligado ao passado do país.”

Ferreira, que assina o roteiro com Tiago Cravidão, contou, também, com a ajuda dos atores e atrizes para a construção das personagens, em especial Mina Andrade, que já trabalhou com Karim Aïnouz, na produção britânica Firebrand. “Ela trouxe muito de sua experiência como mulher negra para compreendermos a personagem e a construir de forma como deve ser.” Já José Martins, comunista e de uma família muito politizada, não chegou a ir à guerra, pois o conflito acabou antes de chegar à idade de se alistar, “mas ele disse que preferia desertar do que ir a um conflito como aquele”, lembra Ferreira.

O diretor acredita que em Portugal, nesse momento, existe uma tendência da sociedade “se entrincheirar e não ouvir o outro”. Ele aponta que um dos problemas, além do racismo, é a xenofobia – como bem mostra no filme, numa fala de preconceito contra brasileiros. “É preciso construir pontes, mostrar que o outro não é seu inimigo. O combatente, por exemplo, ouviu a vida toda que o negro era seu inimigo, e isso está enraizado. É preciso mostrar que não é verdade, é necessário acabar com essas ideias pré-concebidas.” (Alysson Oliveira)

A MEMÓRIA DO CHEIRO DAS COISAS (THE SCENT OF THINGS REMEMBERED), de António Ferreira (96')

RESERVA CULTURAL - SALA 1 - 20/10/25 - 15:20

CIRCUITO SPCINE PAULO EMILIO – CCSP - 24/10/25 - 17:00