05/06/2026

Cine PE aborda o desconforto do mundo

Recife - Se a segunda noite do Cine PE foi de alegria nordestina, a terceira abriu espaço ao desconforto e ao medo, numa programação que terminou com Resta Um, do diretor carioca Fernando Ceylão - uma distopia futurista que acompanha a drástica transformação de seu protagonista, vivido por Caco Ciocler, num personagem tóxico da internet, em meio à disputa de um jogo assassino.

Veterano, Caco é um intérprete que não se recusa a escolhas ousadas, tanto como ator, quanto como diretor - caso do recente Não Te Ouço, filme que dirigiu, tendo Márcio Vito no papel duplo do chamado “patriota do caminhão” e do motorista que conduz o veículo, um retrato vívido da polarização política.

Em Resta Um, Caco é o protagonista, Álvaro, um professor desempregado, cuidando da mulher doente (Maria Ribeiro), confinada a uma cama por um misterioso vírus. Eles vivem de um subsídio do governo, à espera de uma operação que pode resgatar a saúde da esposa. Por conta disso, ele dispõe de uma isenção temporária no sorteio para disputar um debate via internet em que o debatedor que perder é imediatamente executado por funcionários que aguardam o resultado já com o cenário armado - numa espécie de Jogos Vorazes claustrofóbico.

Acontece que, um dia, essa isenção cai por terra e Álvaro é obrigado a participar do debate, sem possibilidade de recusa. Nessa participação aflitiva é que se dá a análise a que o filme se lança, dos mecanismos que transformam personalidades privadas em pessoas públicas com características assustadoras. No caso de Álvaro, ocorre uma verdadeira metamorfose, movida a princípio pela angústia da sobrevivência, mas que logo se torna algo mais, temperada pela euforia de uma fama apoiada na mentira e na crueldade.

Com uma temática dessas, certamente Resta Um nunca poderia ser um filme ameno, nem agradável. Tem o mérito de tocar em temas urgentes e reais, ainda que nem sempre siga os melhores caminhos dramáticos. Certamente, isso se deve, em parte, às limitações da própria filmagem, realizada, segundo o diretor, em escassos 10 dias.

Por conta disso e de ser este o primeiro filme para cinema do ator e diretor de teatro e TV Fernando Ceylão, algumas das transições do protagonista são um tanto bruscas - e, mais ainda, isso acontece com o personagem de seu melhor amigo, Samir (Ítalo Martins, um dos policiais de O Agente Secreto). Maria Ribeiro, por sua vez, está ótima na pele da esposa que, confinada a uma cama e dependente do marido para todas as atividades cotidianas, funciona como uma espécie de consciência viva da ética que está se apagando no espírito do marido. Daniel Filho também comparece como um dos debatedores e Carlos Moreno, como o mestre de cerimônias deste jogo midiático mortal, ao qual não faltam patrocinadores - o que traduz uma outra intenção assumida do diretor, numa saudável crítica ao capitalismo.

Curtas

O terror foi o gênero dominante nos curtas da noite, começando pelo bom representante gaúcho O Véu, de Gabriel Motta (codiretor do premiado Pastrana, junto com Melissa Brogni). No enredo, um culto religioso charlatão, dominado por um pai (Robson Lima Duarte) e dois filhos (Phill Lima Duarte e Rafaela Lima), sofre um baque quando um deles é possuído realmente por uma entidade maligna.

Os dois outros curtas foram trabalhos universitários, que mostraram méritos, mas ainda revelaram uma certa fragilidade na realização: a animação mineira TV Entreaberta, de Mateus Compart, e o experimental pernambucano Magritte, de Tom Nogueira, que revisita distopicamente o universo do pintor surrealista René Magritte.