30/06/2026

Festival resgata clássicos e debate o futuro da memória audiovisual

Ouro Preto - A memória e a preservação de filmes andam de mãos dadas, como demonstra a própria experiência deste festival, nascido há 21 anos e que trata o cinema como patrimônio, um tema que respira nos cenários desta cidade histórica e muito viva.

Como é de praxe, a programação do CineOP inclui diversos curtas e longas restaurados, que têm o mérito de recolocar em circulação obras diversas, oferecendo-as para o conhecimento de novas gerações ou uma oportuna revisão histórica.

É o caso do raro Vento Norte, filme gaúcho de 1951, do diretor Salomão Scliar, considerado um marco do cinema independente, além da originalidade de uma fotografia em preto-e-branco repleta de jogos de luz e sombra, na paisagem da praia de Torres - local onde se dá um drama romântico de traição e morte, numa comunidade de pescadores.

É o caso também de Xica da Silva, de Cacá Diegues, de 1976, o maior sucesso comercial da carreira do diretor, com mais de 3 milhões de espectadores, agora com suas cores resgatadas em pleno brilho, recontando a história da escrava que virou a cabeça do contratador de diamantes Antonio Fernandes (Walmor Chagas), vivida com êxtase pela incrível Zezé Motta.

Não menos importante foi o relançamento de Um Céu de Estrelas (1996), primeiro longa da realizadora paulistana Tata Amaral, a partir de um livro de Fernando Bonassi, e que retrata uma história de paixão desvairada e violência feminicida, vivida pelos atores Leona Cavalli e Paulo Vespúcio. Tata, aliás, protagonizou um dos debates mais marcantes do festival, com a diretora mineira Juliana Antunes (de Baronesa, 2017), discutindo justamente as dificuldades das realizadoras para realizar o primeiro filme. Juliana, aliás, que está concluindo seu segundo longa - Bate e Volta Copacabana, com Camila Pitanga - defende que haja cotas para as diretoras, que ela entende que enfrentam maiores obstáculos do que os homens para ter acesso aos mecanismos de incentivo para produção.

Memórias da quebrada

Além de filmes propriamente ditos, não faltaram debates em que surgiram novas ideias. Foi o caso do realizador paulistano Lincoln Péricles, que apresentou aqui seu projeto, já em ação, da Cinemateca da Quebrada. Conscientes da necessidade de preservação das obras dos cineastas das favelas, quilombos, ocupações, Péricles e seu grupo, que inclui pesquisadores como Breno Shinn, Steffhany Fernanda e David Andrade, tem-se empenhado em tarefas como catalogação de filmes (que já inclui 100 títulos), publicação de um livro, oferecimento de curadorias, realização de mostras e outras atividades. No debate, Péricles, que tem viajado para troca de experiências na África e na Europa, não deixa de ser importante também a ocupação de espaços institucionais, como cinematecas e museus, e a repatriação de arquivos filmados nesses territórios populares que foram levados para fora do País.

Acervos e palavras

Na mesma linha de que as imagens colhidas pertencem aos retratados, o indigenista e cineasta Vincent Carelli defendeu num debate a importância do esforço atual para digitalizar todo o arquivo do projeto Vídeo nas Aldeias, que em 40 anos reuniu 8.000 horas de registros dos povos indígenas - e que pertencem a eles.

Num outro debate sobre memória, o teólogo e escritor Frei Betto defendeu a revisão de nomenclaturas históricas consagradas, mas errôneas, como “descobrimento” e “Inconfidência”. Além disso, Frei Betto foi personagem de um belo documentário apresentado aqui, Fraternura, dos diretores Evanize Sydow e Américo Freire, retratando o círculo íntimo da família Libânio Christo, que foi fundamental à própria sobrevivência de Betto em seus duros anos de prisão.