27/06/2026

CineOP discute memória, história e o cinema de Helena Solberg

Ouro Preto - No cenário de uma cidade histórica que tem tudo a ver com um festival que enfatiza a memória e a preservação, coube com muita justiça a homenagem da 21ª edição atribuída à veterana cineasta Helena Solberg. Aos 88 anos, a diretora de filmes como Carmem Miranda: Bananas is My Business (1995, exibido na programação de hoje aqui) e
Vida de Menina (2003), teve exibidos na noite de abertura dois curtas emblemáticos de uma carreira exemplar e transnacional e que são, talvez, bem menos conhecidos do que deveriam: Entrevista (1966) e Meio-Dia (1970).

Ouvindo diversas jovens cariocas na década de 1960, de quem se ouve apenas as vozes, com a imagem de sua cunhada às vésperas do casamento servindo de guia, Entrevista focaliza sentimentos e idéias de mulheres numa época em que o feminismo abalava o mundo enfrentando resquícios renitentes da tradição patriarcal. Esse viés comportamental, que interessava à cineasta iniciante, é por sua vez atravessado pela ditadura militar, que o filme incorpora com cenas de repressão à resistência popular nas ruas, o que tem tudo a ver com o tema central da repressão versus a liberdade.

Meio-Dia mostra-se uma experiência mais radical de experimentação de linguagem, ao ficcionalizar uma rebelião numa escola primária em que os pequenos alunos recorrem à força contra a instituição e os professores com bastante violência - valendo ao filme uma oportuna comparação com Zero de Conduta (1933), de Jean Vigo. E, quem sabe, tenha servido de inspiração para Sonho de Valsa (1987), de outra pioneira diretora preocupada com a condição feminina, Ana Carolina.

Cinema Novo

Considerada a única diretora mulher da época do Cinema Novo, Helena pondera: “Eu fazia parte da geração que fez o Cinema Novo, conhecia todos eles. Mas eu estava na minha, nunca fiz força para pertencer ao grupo, embora me desse bem como todos eles, Joaquim Pedro de Andrade, Cacá Diegues, Mário Carneiro e outros”. Mário Carneiro, aliás, assina a fotografia de Entrevista, que teve montagem de Rogério Sganzerla. O que ela compartilhava com toda essa geração, segundo ela, era a utopia: “Nós achávamos que íamos mudar o mundo antes do golpe militar”.

Tendo se radicado nos EUA cerca de 30 anos a partir da década de 1970, por conta do regime militar no Brasil, Helena fez uma carreira transnacional, filmando em países como Argentina, Bolívia, Nicarágua, Venezuela, além dos próprios EUA. Foi nesse país que, segundo ela, aprofundou seu contato com o feminismo, aguçando sua percepção dos problemas das mulheres.

Voltando ao Brasil, o primeiro filme que realizou foi justamente o perfil de uma mulher, Carmem Miranda: Bananas is my Business (1995), que atraiu seu interesse pela soma de mitos que cercavam a imagem da popular cantora e atriz. “A imagem dela, para os americanos, era absurda. Eles estavam interessados numa caricatura da Carmen”, observa, destacando que seu marido, o produtor e diretor David Meyer, foi fundamental na realização deste filme.

Indagada sobre a diferença entre documentário e ficção, gêneros em que transitou em toda a sua obra, Helena define: “Todo filme é um documentário, inclusive a ficção. Para mim, essa fronteira nunca existiu”.

No momento, a cineasta dedica-se a um outro projeto, um documentário sobre Wesley Teixeira, um evangélico de 30 anos, negro, de esquerda e candidato a deputado federal em Duque de Caxias. Ela comenta que o que a atraiu neste trabalho, ainda em filmagem, foi a curiosidade sobre o fenômeno religioso no Brasil. Ela ainda não sabe quando concluirá o filme: “Isto acontece muito quando a gente está filmando, a gente meio que se perde no meio e depois se acha. Até porque se sente transformada pelo assunto com que se está lidando”.

Frei Betto

Na mesa de debate inaugural do CineOP, um destaque foi a participação do escritor e teólogo Frei Betto, 81 anos. Ele clamou pelo que chama de “desistoricização do tempo” - referindo-se ao vício da juventude por produzir stories no Instagram - observando que “sem perceber o tempo como história, só existe o aqui e agora, é o eterno retorno dos gregos”.

Para Frei Betto, é preciso retomar o conceito do tempo como história, um conceito persa, segundo ele, apropriado pelos hebreus. No próprio cinema brasileiro, Frei Betto enxerga um “esforço para manter viva a historicidade”, em filmes como Que bom te ver viva, de Lúcia Murat - sua colega na mesa de debate -, que está na programação de hoje do CineOP, e Batismo de Sangue, de Helvécio Ratton, que adapta livro homônimo do escritor relatando sua própria experiência na luta armada e na prisão.

Falando de Ouro Preto, Frei Betto (que é mineiro de Belo Horizonte), destacou: “Esta cidade grita a história do Brasil”. Ele não deixou de criticar terminologias históricas consagradas como “descobrimento do Brasil” quando, a esta altura, sabe-se que foi na verdade “uma invasão”. “Os povos indígenas que o digam”, acrescentou. E também criticou o termo “inconfidência”, dado ao movimento mineiro de 1788, que aconteceu justamente em Ouro Preto (na época, chamada Vila Rica). “Inconfidência foi o nome dado pela Coroa portuguesa para desmoralizar o movimento, dizendo que todos os participantes deduraram uns aos outros”. Para ele, uma revisão histórica justa seria dizer que “Ouro Preto é uma terra de revoltosos, onde antes da Revolução Francesa se tramou pela independência do país e por um regime relativamente democrático. Isso seria fazer justiça aos que, na época, foram duramente reprimidos”.

No entender do escritor, “é inegável que o Brasil tem uma história violenta, nada pacífica, nem cordial, como querem alguns”. E, para ele, essa consciência deveria ser “canalizada para projetos de justiça, direitos humanos, direitos dos animais e direito da própria natureza”.

Participante da mesma mesa, a cineasta Lúcia Murat defendeu que sejam criados museus como da escravidão, da ditadura, e outros e que sejam transformados em locais de memória antigos centros de tortura “para que se registrem não só os crimes como a resistência a todos eles”.