Feminismo entra na pauta do festival com "Pele de Rinoceronte"
- Por Neusa Barbosa, de Gramado
- 17/08/2026
- Tempo de leitura 2 minutos
Gramado - Pele de Rinoceronte, do diretor Marcello Ludwig Maia, chegou à competição trazendo na bagagem uma espécie de reapropriação e releitura do feminicídio de Ângela Diniz, nos anos 1970, para ampliar o foco sobre um tema cujo vulto só tem aumentado no País nos últimos anos.
O roteiro da argentina Josefina Trotta permite-se reimaginar com um olhar moderno a abordagem da história de Ângela, não sobre sua morte em si e sim a partir da preparação da acusação de seu assassino, Doca Street (cujo nome nunca é pronunciado). E também se incorporam flashbacks da própria Ângela (Camila Lucciola), com imagens que assombram a consciência de Helena, a repórter policial interpretada com o habitual brio por Débora Falabella.
É sempre perigoso fazer filmes-tese, com discurso implícito - e, em alguns momentos,o filme se aproxima perigosamente disso num tom algo didático em alguns diálogos do casal de advogados vividos por Irandhir Santos e Naruna Costa, preparando a acusação contra Doca. É verdade também que nessa parte se concentra a maior ousadia do filme, quando a advogada reivindica do marido tomar seu lugar à frente dessa acusação, o que, por si só, já seria uma grande novidade, especialmente em se tratando de uma história ambientada em 1976, ainda mais tratando-se de uma profissional negra.
Essa ousadia, sem dúvida, tem a vantagem de oferecer um respiro a uma história que, como sabemos, terminou com um primeiro julgamento absolvendo o matador de Ângela Diniz, cujo comportamento livre terminou sendo mais objeto de escrutínio preconceituoso no tribunal do que a notória premeditação e crueldade do assassino, só condenado num segundo julgamento.
Um realismo mais cru guia o trabalho da repórter, experiente na investigação de crimes e particularmente interessada nas mortes de mulheres - cujos corpos, às vezes, não são reclamados por ninguém. A própria jornalista vive um relacionamento com o dono do jornal (Augusto Madeira), que a coloca diante de situações de abuso e ameaça.
De todo modo, é também saudável que este caso, mobilizador de uma mudança radical na maneira como os feminicídios passaram a ser encarados no Brasil, levando não só à sua definição específica na lei como à rejeição da famigerada “legítima defesa da honra”, que finalmente foi considerada inconstitucional pelo STF ainda que apenas em 2023. É muito positivo também que uma história tão dolorosa inspire agora um filme bem melhor do que o melodrama Ângela, de Hugo Prata, que passou neste mesmo festival há 3 anos.
Pele de Rinoceronte, que empresta este nome de um poema de Augusto dos Anjos, remetendo à resiliência, tem estreia prevista nos cinemas em março de 2027.
Crédito das imagens
Cena do filme "Pele de Rinoceronte: Divulgação
Marcello Ludwig Maia (esq.) e equipe do filme: Neusa Barbosa
