16/08/2026

"Feito Pipa" encanta Gramado com delicado retrato da infância queer"

Gramado - Primeiro concorrente da competição de longas, Feito Pipa, de Allan Deberton, repetiu o efeito encantatório sobre a plateia gramadense que havia obtido em sua première mundial, na mostra Generation, no Festival de Berlim, em fevereiro último - em que venceu dois prêmios. Ou seja, o público entrou em peso na onda de emoções delicadas que recobre o tratamento de temas sérios e necessários, como o da infância queer aqui contemplado e que ganha brilho nas atuações infantis, a começar pelo protagonista Yuri Gomes, já premiado em outro festival internacional, em Guadalajara.

Partindo de um roteiro de André Araújo, Deberton, o premiado diretor de Pacarrete - vencedor de 8 troféus em Gramado -
mergulha na vida de Gugu (Yuri Gomes), menino de 11 anos, órfão de mãe, criado pela avó Dilma (a extraordiinária Teca Pereira), enquanto seu pai, Batista (Lázaro Ramos), formou família com uma nova mulher (Georgina Castro), com quem tem uma filha.

O filme é encantador em sua criação de um mundo todo particular, em que Gugu luta contra a homofobia na escola, já que, além de jogar futebol, ele gosta de usar camisetas e enfeites femininos e adora dançar, como a avó. Esse comportamento incomoda o pai, que tenta enquadrar o menino no seu modelo de masculinidade, mas encontra pela frente a resistência de Gugu e dessa avó, que também luta contra os estereótipos impostos às pessoas mais velhas - gostando de namorar e dançar forró.

Feito Pipa privilegia a busca do espaço da imaginação e do sonho para conquistar um lugar melhor e encanta na sua delicadeza, com a vantagem de não dispensar a discussão de ainda outros temas sérios, como o impacto ambiental das represas e a perseguição aos ativistas. Também tem a qualidade de não estereotipar a figura desse pai em conflito com a sexualidade do filho, com um ator da qualidade de Lázaro Ramos sendo capaz de extrair outras camadas desse homem comum brasileiro, que não deixa de ser amoroso e protetor.

O filme tem estreia marcada nos cinemas em 5 de novembro.

Confira também os vídeos do Cineweb no Youtube:

Entrevista de Allan Deberton no Festival de Berlim

Entrevista de Lázaro Ramos e Teca Pereira no Festival de Berlim

Dissecando o projeto colonial

Em seu primeiro longa, o documentário O Projeto, Sabrina Fidalgo divide a direção com o fotógrafo suíço Yvan Rodic para lançar-se a uma impactante e ambiciosa investigação do projeto colonialista que se espalha pelo mundo desde o século 15.

Acumulando entrevistas e imagens de arquivo, cuja diversidade a diretora de fotografia Julia Zakia não quis mascarar, o filme explora as contradições da dominação colonial europeia, dividindo continentes como as Américas e a África para impor um modo de exploração intensiva da natureza e de pessoas escravizadas, sejam as populações originais, sejam os africanos escravizados.

Sabrina e Yvan introduzem na narrativa outros recursos, como detalhes das próprias histórias pessoais que tornam mais ampla a discussão. Sabrina, uma mulher negra, nascida em Copacabana, filha de pais artistas, na infância a única criança não-branca numa escola católica de classe média. Yvan, suíço branco e filho de pai imigrante iugoslavo, sentindo a seu modo a discriminação em seu país pela origem estrangeira. Juntando nuances dessas experiências diferentes mas que em algum ponto dialogam, os diretores entrevistam diversas pessoas ao redor do mundo para ampliar o admirável feixe de reflexões e perguntas que o filme coloca - e, felizmente, não se dispõe a responder de forma definitiva.

Algumas das vozes mais interessantes são a da escritora portuguesa Grada Quilomba e dos ativistas Anderson França e Preto Zezé, ao lado da professora Djamila Ribeiro.

Outra imagem das mais reveladoras do filme vem de uma performance da própria Sabrina: vestida como uma mulher de outro século, ela aperta o nariz com um pregador, remetendo a um antigo método de afinamento do nariz a que recorriam pessoas negras induzidas a não aceitar-se, mas que se torna também uma metáfora do mau cheiro do racismo e suas várias formas de violência, bem como ao asfixiamento, uma referência a assassinatos como o de George Floyd, nos EUA.