21/08/2026

"Nosso Segredo" encerra competição em chave de mistério

Gramado - É uma rara felicidade ter, num mesmo festival, dois filmes desafiadores e instigantes numa competição. Foi o que aconteceu por aqui, com a passagem de Nosso Segredo, de Grace Passô, último concorrente exibido ontem, e de Leite em Pó, de Carlos Segundo, há poucos dias. Mérito desta curadoria de longas, aliás,

Tendo sua première mundial no último Festival de Berlim, em fevereiro, Nosso Segredo recria uma peça da própria diretora, Grace Passô, aqui assinando também o roteiro. Ela molda uma atmosfera ao mesmo tempo amorosa e misteriosa para retratar uma família urbana de Belo Horizonte, abalada pela perda recente do pai (Nanêgo Lira).

Um elenco afinado em sintonia, integrado por atores como Ju Colombo, Roberto Frank, Flip, Jéssica Gaspar, Marisa Revert, Juan Queiroz e o menino estreante Efraim Santos, carrega adiante uma trama que expõe os dilemas dessa família, assombrada por dificuldades econômicas e emocionais, pelos enfrentamentos da própria condição de negros e de inúmeras buscas que se manifestam de uma forma para cada um, homem ou mulher, jovem ou adulto.

Vivendo numa casa em que os integrantes têm dificuldades de se conectar, o medo mora, literalmente, no andar de cima – depois de uma escada que todos temem subir e de onde emergem misteriosos sons selvagens.

Atriz de filmes como Praça Paris, No Coração do Mundo, O Dia que te Conheci, Temporada e O Filho de Mil Homens, Grace entregou um filme denso, carregado de simbologia e capaz de gerar muitos debates. Essa complexa problemática humana, encharcada de uma peculiaridade brasileira, encontra uma tradução poderosa na trilha sonora especialmente composta pelo pianista e compositor pernambucano Amaro Freitas, mais uma vez sublime.

O filme estreia nos cinemas no próximo dia 27 de agosto, em 30 cidades do Brasil.

Balanço

Exibidos todos os seis longas da competição, é tempo também de um balanço. Se Nosso Segredo e Leite em Pó carregam a maior complexidade formal e estética, Feito Pipa, de Allan Deberton, não deixa de incorporar uma outra forma de sofisticação temática sutil. Acompanhando a trajetória de uma criança queer, Gugu (Yuri Gomes), o filme desenvolve uma teia de questões em torno do que é uma família, de como se afirmam o afeto e se enfrenta a intolerância numa pequena cidade do interior cearense. Abrilhantam o elenco as presenças de atores inspirados como Teca Pereira, Lázaro Ramos e Georgina Castro.

Os três demais longas concorrentes aos Kikitos não deixam de ter suas qualidades, cada um à sua maneira. Chorão - Só os Loucos Sabem, de Hugo Prata e Felipe Novaes, é a cinebiografia de um cantor altamente popular que morreu jovem e tragicamente e que terá, provavelmente, o maior diálogo com o grande público. Justino - Nos Bastidores do Reino, de José Eduardo Belmonte, vale-se com eficiência narrativa de seu potencial de polêmica ao abordar um tema importante e necessário: as entranhas de uma poderosa igreja pentecostal, a Igreja Universal do Reino de Deus, através do testemunho de um ex-pastor, Mário Justino (interpretado com dedicação por Christian Malheiros).

Finalmente, Pele de Rinoceronte, de Marcello Ludwig Maia, acerta ao rever o caso de um dos mais famosos feminicídios do País, o de Ângela Diniz, inserindo dispositivos modernos, pela atuação de uma repórter (Débora Falabella) e uma advogada (Naruna Costa).

Curta gaúcho

Se na competição nacional de curtas não houve maior brilho, na Mostra Gaúcha do mesmo formato destacou-se o engenho do grande vencedor, Grão, de Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa, que conseguiu, em apenas 24 minutos, oferecer um retrato quase sociológico de um jovem à margem (Leonardo Gomes, prêmio de melhor ator), com uma densidade que muitos longas não conseguem materializar. Vivendo das sobras do rico agronegócio da soja num momento de crise, ele sonha com altas aventuras eróticas, ouvindo letras de funk que reforçam todo um imaginário machista, mergulhado numa extrema solidão. Assim, encarna à perfeição uma masculinidade em crise num filme que abre espaço para reflexões sobre sociedade, modelos econômicos e muitas outras coisas. Trabalho altamente promissor.