“Dau”, entre o projeto cinematográfico e o desafio ético
- Por Neusa Barbosa, de Veneza
- 09/09/2026
- Tempo de leitura 2 minutos
Veneza - Parte de um projeto não só cinematográfico, como até sociológico, o concorrente ao Leão Dau, do diretor russo Ilya Kryzhanovsky, ocupou, por mais de 3h, as telas do festival. Depois de três filmes, lançados em 2020 - Dau.Natasha, Dau.Degeneração e Dau.Three Days, finalmente saiu o que era o projeto original do diretor, uma cinebiografia do físico vencedor do Nobel Lev Landau, apelidado de Dau.
Como se sabe, houve um imenso desvio da ideia inicial do então jovem diretor, quase 20 anos atrás. Kryzhanovsky acabou lançando-se à construção de um imenso estúdio em Kharkiv, na Ucrânia, e filmou ali dentro, entre 2008 e 2011, uma verdadeira réplica da sociedade soviética, nos mínimos detalhes. Centenas de atores e extras foram selecionados, usando figurinos e objetos de época, reproduzindo a vida sob o stalinismo de maneira visceral - a ponto de haver inúmeras denúncias posteriores sobre abusos físicos ocorridos durante as filmagens. Outras polêmicas envolveram a participação, entre os extras, de ex-agentes da KGB e neonazis reais.
Do material bruto, que acumulou 700 horas, o diretor montou os três filmes anteriores. O projeto permaneceu parado até 2023, quando Kryzhanovsky finalmente voltou a mexer com a cinebiografia, que é o que vemos agora.
Protagonizado por Teodor Currentzis, maestro russo de origem grega, como o personagem real, Dau percorre um período que vai de 1928 a 1968, ano de sua morte. O foco está no autoritarismo do período stalinista, em que o próprio Dau foi submetido a torturas e prisão, sendo salvo por seu conhecimento científico, que o incluiu no desenvolvimento da bomba atômica da URSS e lhe valeu uma posição de destaque, embora não deixasse de ser permanentemente vigiado pelo serviço secreto - assim como todas as pessoas à sua volta.
Dau pretende ser um imenso painel, extremo, vertiginoso, sobre este período soviético, tendo ao centro um personagem polêmico que, ao lado do conhecimento científico, chamava a atenção também por ser poliamoroso - por isso, no filme, vêem-se cenas de sexo bastante explícitas.
Independente do seu valor como cinema, Dau certamente é um filme que não pode deixar de ser analisado sob outros prismas - afinal, um apagamento da fronteira entre ficção e realidade, levado a estes extremos com seus participantes, é mesmo questionável.
