"Bunker" acompanha as cenas de um casamento com Javier Bardem e Penélope Cruz
- Por Neusa Barbosa, de Veneza
- 08/09/2026
- Tempo de leitura 4 minutos
Veneza - Vencedor do Oscar de roteiro adaptado em 2021 pelo drama Meu Pai, protagonizado por um Anthony Hopkins no auge da forma, o diretor e dramaturgo francês Florian Zeller entrou na arena pelo Leão de Ouro com o drama Bunker, contando com um dos maiores trunfos de elenco que poderia ter: o casal na vida real formado por Javier Bardem e Penélope Cruz.
Na tela, eles vivem também um casal, o arquiteto Miguel e a editora Sofia. Bem-sucedidos, eles moram em Londres, têm duas filhas, um gato e uma casa dos sonhos. Mas o sonho de segurança começa a desabar com a insistência do vizinho, Toby (Stephen Graham, da sérieAdolescência) de abrir uma janela no muro que divide as duas casas, criando um dilema de privacidade.
O incidente deflagra uma série de situações que tocam não só arquitetura e segurança como com a solidez deste casamento de 17 anos. Entra em questão um convite, recebido por Miguel, para construir um bunker no Havaí para um milionário paranóico (participação especial de Paul Dano numa chamada de zoom), uma proposta que permite a Zeller discutir uma das muitas contradições éticas do nosso tempo - em que milionários, causadores da maioria dos desastres ambientais pelo uso sem freios do capitalismo selvagem, ao invés de usarem seus recursos para ajudar todo mundo no planeta não pensam senão num modo de escaparem com seus amigos.
Se não foi o melhor filme do festival, Bunker não deixa de ser um título interessante, que ganha temperatura pela atuação do casal protagonista, de Graham e também do novato Patrick Schwarzenegger, filho de Arnold, interpretando um jovem escritor cuja presença soma também mais tensão entre Miguel e Sofia.
Dissecando Elon Musk
Não falta ambição ao documentário Musk, em que o premiado diretor norte-americano Alex Gibney mergulha na figura poderosa e polêmica do milionário Elon Musk. Mesmo sendo exibido fora de competição, o documentário atraiu muita atenção, ao dissecar, em quase quatro horas de duração, a trajetória do polêmico empreendedor sul-africano, analisando suas investidas em foguetes, carros elétricos, IA e outras atividades que o tornaram trilionário.
Sem ter conseguido entrevistar o próprio protagonista, que se negou a falar, Gibney recorreu à IA para compor na tela o personagem de Musk, dizendo as coisas que ele disse em diversas entrevistas, que o documentarista usa também. Além desse extenso material de arquivo, Gibney entrevista seu pai, a ex-mulher Justine, antigos colaboradores e jornalistas que acompanham as atividades de Musk e suas manobras para tomar a frente de empreendimentos - inclusive sua peculiar ligação com a política. Sem nunca ter sido político, Musk aproximou-se tanto dos democratas, no governo Barack Obama, quando se tornou a primeira empresa privada a carregar materiais da NASA em seus foguetes, quanto mais ainda de Donald Trump, entrando decisivamente em sua campanha ao segundo mandato presidencial através de mobilizações no X, antigo Twitter, que ele havia adquirido.
O documentário dedica um tempo generoso à participação direta de Musk na administração Trump, através do DOGE, um órgão criado por ele e integrado por uma equipe de jovens que fez um estrago em sua obsessão por cortar custos a qualquer preço, eliminando programas e agências como a USAID, colocando em perigo a assistência social a populações em risco, por conta de guerras e fome, além de paralisar pesquisas com vacinas na metade e temporariamente suspender apoio ao combate do Ebola na África.
Na segunda metade do filme, dedica-se tempo também às relações de Musk com governantes de extrema-direita no mundo, como Javier Milei e também Jair Bolsonaro, que é visto numa manifestação agradecendo a Musk. O documentário não deixa de lado também o lado pessoal da figura, um homem bastante tóxico em suas relações com diversas mulheres, pai de diversos filhos (são conhecidos 14, mas podem ser mais).
História circular
Casey Affleck entrou na competição com Company, uma narrativa que se desenrola em núcleos circulares a partir da chegada de uma estranha que começa a contar uma história.
Tudo começa quando chega uma moça (Emily Alyn Lind) numa festa de Natal e inicia o relato, que se passa no século 18 e envolve também a chegada de um jovem estranho (Atticus Affleck, filho do diretor) a uma fazenda no meio da neve, sendo acolhido por um casal (Scott McNairy e Adelaide Clemens). Um outro núcleo inclui, como os outros, o salvamento de uma estranha (Caylee Cowan) no meio da neve por um velho (Nick Nolte).
A história tem seu interesse, prende a atenção mas em determinado momento sente-se que tem uma certa extensão - embora tenha apenas 96 minutos.
