Kore-eda lança uma nota poética com o drama sobre mangás "Look Back"
- Por Neusa Barbosa, de Veneza
- 07/09/2026
- Tempo de leitura 4 minutos
Veneza - Este parece ser mesmo o ano do diretor japonês Hirokazu Kore-eda, ao menos no que diz respeito aos grandes festivais. Ele concorreu na competição principal em Cannes com uma fantasia futurista, Sheep in the Box, em que um casal encomendava um menino andróide para substituir o filho morto. Aqui em Veneza, ele concorre com o delicado drama Look Back, inspirado em história do autor de mangás Tatsuki Fujimoto que focaliza a amizade entre duas meninas de 10 anos, Fujino (Furi Nanase) e Kyomoto (Rokka Okada), que desenham mangás para o jornalzinho da escola.
Perfeccionistas, elas competem para apresentar os melhores desenhos no jornal, o que mobiliza especialmente Fujino, melhor aluna da escola, a mais bonita e popular. Kyomoto, por sua vez, vive reclusa em sua casa, estuda à distância. Mas, quando elas se conhecem, desabrocha uma afinidade que se transforma quase numa simbiose, que se estenderá à vida adulta, quando elas são interpretadas por Natsuki Deguchi e Aju Makita, até que ocorra um corte. Situação que permite ao filme, em sua porção final, abrir caminho para um lado fantástico e o recurso à animação.
Kore-eda, mais uma vez, mostra-se um afinado diretor de crianças e adolescentes, revelando novos talentos e lançando uma nota poética de personalidade única no festival.
Suspense italiano
Terceiro concorrente italiano, L’Estranea, de Paolo Striippoli, entra no suspense psicológico, beirando o terror, quando acompanha Anna Colonna (Jasmine Trinca) numa visita à sua filha, Alice (Romana Maggiora Vergano).
Chove torrencialmente lá fora - o que não é um elemento gratuito - enquanto a mãe revela à filha histórias sinistras de supostos segredos familiares, que geram tragédias, envolvendo o marido de Anna, Walter (Adriano Giannini), o outro filho, Tobia (Andrea Rossini) e outras pessoas.
Os múltiplos dramas que atingiram a família Colonna, na visão da mãe, decorrem da aparição de uma estranha mulher sem nome (Valeria Bruni Tedeschi) que, como um demônio dos velhos tempos, pressiona Anna a fazer escolhas difíceis quando ameaças pairam sobre os membros de sua família. Cada escolha leva a outros impasses no futuro, remetendo ao título do filme em inglês,
The Spiral, traduzindo a espiral labiríntica que traga progressivamente a sanidade de Anna.
Pode-se pensar se esta é uma fantasia satânica ou se Anna está mergulhando na loucura, incapaz de lidar com a imprevisibilidade da vida, cheia de incidentes fora de seu controle. De todo modo, o filme é exagerado, excessivo, desequilibrado em sua imaginação sinistra - apenas Valeria Bruni Tedeschi parece estar se divertindo.
Brasil e Bernal
Exibindo fora de competição seu terceiro longa, Hombre al Água, o ator mexicano Gael García Bernal, coloca uma parte de Brasil na história, que ele corroteirizou com Mariano Pensotti.
O próprio Gael interpreta o protagonista, Camilo, um salva-vidas cubano que é apadrinhado por um milionário mexicano, Abel (Jorge Salinas), quando salva sua vida. Levado para o México por seu protetor, torna-se seu braço direito em sua empresa e acaba casando-se com a filha dele, Juana (Esmeralda Pimentel), com quem tem uma filha.
O Brasil entra na história com uma novela que Camilo assiste, chamada Liberdade, cuja protagonista é a atriz Débora Nascimento, que finalmente será engajada por Juana para fazer seu papel num filme que a herdeira resolveu dirigir, retratando sua própria vida.
A novela brasileira, que tem conteúdo político e um protagonista não por acaso chamado Lula, que é preso por sua militância, se corresponde também com a situação da própria empresa de Abel, que em determinado momento decide que a venderá aos holandeses e partirá para uma carreira política, embarcando numa campanha de defesa do meio ambiente.
Com tom de sátira, Hombre al Água aborda temas sérios, como o arrivismo, a exploração dos ricos e herdeiros e os jogos de aparências em sociedade, em que todos tentam sobreviver. E faz muito humor com os sotaques diferentes dos latino-americanos. Ao final, na subida dos créditos, outra participação brasileira, com a música Canto de Ossanha, de Vinícius de Moraes e Baden Powell.
