Dos bastidores da TV ao romance difícil de Nanni Moretti
- Por Neusa Barbosa, de Veneza
- 05/09/2026
- Tempo de leitura 5 minutos
Veneza - Um dos temas do festival, inegavelmente, é a crise do jornalismo, que emergiu novamente em outro candidato ao Leão de Ouro, Primetime, do norte-americano Lance Oppenheim. Vindo do documentário, o jovem diretor de 30 anos escala Robert Pattinson como protagonista da história, que traça o perfil de Chris Hansen, um jornalista que alcançou enorme notoriedade na emissora NBC, 20 anos atrás, à frente do programa To Catch a Predator - que criava armadilhas para atrair e depois expor pedófilos que procuravam suas vítimas online.
Há um enorme potencial nesta história, que focaliza um tema urgente - a pedofilia online - e também expõe os mecanismos sensacionalistas do programa de TV, comandado por Hansen, que aparece ao vivo desmascarando os criminosos, atraídos por membros de sua equipe que se fazem passar por adolescentes, como o jovem ator Dan Plumb (Skyler Grisondo).
Com toda essa possibilidade de escavar os bastidores desse mundo da TV, em que a guerra pela audiência leva facilmente ao abandono de qualquer limite, a verdade é que o filme de Oppenheim não faz nada disso. Limita-se a criar um filme com estética e voltagem de vídeo para internet, sem na verdade aprofundar realmente o perfil de seus personagens, nem mesmo o protagonista Hansen. Muito menos sua produtora (Merritt Wever), uma personagem com potencial para discutir uma questão ética, mas isso não acontece realmente.
Afinal, Primetime se contenta com seu ritmo vertiginoso de videoclipe e se aproveita do hype em torno de Robert Pattinson para tentar fisgar o público jovem, o que aconteceu nesta première mundial do filme aqui em Veneza. Na abordagem do tema do jornalismo, Ink, de Danny Boyle, foi bem mais além.
Amores difíceis de Moretti
Depois de 37 anos, Nanni Moretti voltou a Veneza e à competição com Succederà Questa Notte, um romance muito simpático e delicado sem deixar de ser adulto, baseado mais uma vez num livro do autor israelense Eskhol Nevo (que forneceu também o enredo de outro filme do diretor, Tre Piani). Com vários toques literários e um quê dos melhores tempos de Woody Allen, o filme emparelha os destinos de Mattteo (Louis Garrel) e Greta (Jasmine Trinca), duas pessoas que se encontram em diversos momentos de suas vidas mas nunca têm condições de ficarem juntos.
Seu primeiro encontro, aliás, é curioso: Matteo joga tênis num clube com o irmão quando Greta chega, vestida de noiva, tira as sandálias e vai jogar com ele. Imediatamente, ele fica encantado com ela, olhando-a de longe depois, enquanto se desenvolve a festa do casamento dela com outro homem (Antonio Di Matteo). Os dois se perdem de vista e se reencontram novamente em outras ocasiões, ambos casados e com filhos. Mas, como em toda história romântica que se preze, o amor tem que ser mais forte, por mais que Greta resista, preocupada com problemas com seus filhos.
Esse toque realista dos compromissos da vida adulta é contrabalançado por sequências de beleza visual, como quando vários personagens dançam na rua. Em sua maturidade, depois de sobreviver a diversos problemas de saúde, Moretti parece mais interessado neste filme em resgatar um certo encanto e fantasia que o melhor cinema sempre soube proporcionar. Na trilha sonora, a presença de Alberto Iglesias, parceiro habitual de Pedro Almodóvar, é outro ponto forte.
Brasil na Semana da Crítica
Solitário representante do Brasil no festival, entrou na mostra paralela Semana da Crítica, o drama gaúcho London (foto ao lado), dos diretores Márcio Picoli e Victor Di Marco, autores de curtas premiados como Zagêro (2024). O enredo retrata o cotidiano de London (Victor Di Marco), um jovem com deficiência física que trabalha com performances eróticas e fetichistas numa boate. Lá, ele convive com outras pessoas PCD, morando sozinho num apartamento, com uma limitada vida amorosa e social. A narrativa percorre uma série de dificuldades causadas pelo preconceito contra as pessoas PCD, ao mesmo tempo em que London se divide entre o desejo de conhecer Londres, cidade relacionada com seu nome, e a recusa a encarar o diagnóstico definitivo de seus problemas - o que ele entende que não deve defini-lo.
Um tema forte aqui é a invisibilidade social, que atinge não só as pessoas PCD, como os idosos, o que é desenvolvido de maneira interessante quando London conhece uma mulher mais velha, com quem é capaz de dividir uma série de experiências e sentimentos.
O buraco ético de Schrader
Roteirista e diretor experiente, o norte-americano Paul Schrader retorna a Veneza, fora de competição, com um drama enraizado nos dilemas éticos, sua especialidade, em The Basics of Philosophy.
Partindo de um roteiro seu, que ele veio desenvolvendo logo depois de Taxi Driver (1976) - uma de suas grandes parcerias com Martin Scorsese, seu produtor aqui -, ele acompanha o protagonista John Jorrisen (Jack Huston), um professor de filosofia que está escrevendo um livro sobre Baruch Spinoza - no século 17, um filósofo que foi defensor incansável do primado da razão sobre as emoções, inclusive como base da mudança.
Como todos os protagonistas de Schrader, John esconde um segredo debaixo de sua casca de equilíbrio e respeitabilidade: um incidente sexual no passado, envolvendo um garoto, filho do jardineiro de sua família. O pai de John, Melvyn (Bill Pullman), cuidou da situação, encarregando-se de ajudar a família e o menino, custeando inclusive sua educação.
As consequências deste incidente envenenaram inclusive o relacionamento de John com seu pai, agora gravemente doente, e parecem explicar suas hesitações no relacionamento com uma colega professora, Rebecca (Sofia Boutella), que é divorciada e mãe de um garoto de 14 anos, Willie (Nolan Stewart).
Todos estes elementos fornecem a base para que Schrader construa uma história tensa, centrada nas contradições entre a busca obstinada pela racionalidade por John - dando direito a um encontro fantasioso com ninguém menos do que o próprio Spinoza (Karl Glusman).
Schrader é um roteirista habilidoso, capaz de enredar os vários núcleos dramáticos de uma história em que se misturam desejo e culpa, sem com isso transformar seus personagens em vilões ou caricaturas. Se não é tão bem-resolvido quanto um seu filme anterior, Jardim dos Desejos (2022), com Sigourney Weaver e Joel Edgerton, é, ainda assim, digno de assistir.
